quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Carta de Natal a ti que chegaste agora…



Querida Maria, escrevo-te hoje, mesmo que não entendas ainda nada disto, pois só chegaste há dias, há oito meses! Este vai ser o teu primeiro Natal connosco, e sei que no olhar atento que dás a tudo o que te é novo, que é tudo, lanças a pergunta do que é que será e o que significa o mundo.
Há coisas Maria, que não se compreendem. Ando cá há alguns anos e muito do que vejo ainda não compreendo, mas sabes, o tempo que aí vem ensina-me que não temos de compreender tudo, às vezes temos só é de acreditar.
Vais ver neste lugar chamado mundo pessoas a discutir, pessoas a passar por cima de outras pessoas para ganharem mais dinheiro, ou se iludirem pensando que têm poder, apesar de não terem poder nenhum. Vais ver pessoas que abusam de outras, com autoridade assumida mas não dada, para se convencerem a si próprias de que são importantes, mas são é impotentes. Vais ver pessoas que arranjam desculpas para fazer guerras porque querem a paz, mas no fundo o que querem é petróleo ou coisas assim parecidas para poderem passear de carro e ter muitos brinquedos lá em casa. Vais ver pessoas que se matam, e consigo matam mais pessoas que não sabiam que iam morrer, só que apanharam o mesmo avião ou o mesmo comboio que os que levavam aquelas coisas que explodiam e fazem barulho, magoando muita gente.
Sabes, não compreendemos, mas essa gente diz que faz isso em nome de Deus. Usam Deus para justificar conforto financeiro. E depois, nós que estamos de fora começamos a julgar e a torcer por uns ou por outros como se de futebol se tratasse, Benfica ou Porto, Cristãos, Judeus ou Muçulmanos.
De facto há coisas que sei que nesses olhos grandes, tu procuras compreender. Ainda nem caminhas, nem coordenas bem os movimentos da tua cabeça, mas sei que já procuras… há coisas que não compreendes, nem eu, nem ninguém.
Mas há uma coisa que é mesmo inacreditável e incompreensível se pensares só com a nossa natureza humana. Sei que com oito mesinhos apenas, ainda tens muito de Deus em ti, pois saíste de perto Dele há pouquinho tempo, mas há uma coisa que não se compreende só com os olhos, pequena Maria, e que se sobrepõe a todas as perguntas e dúvidas que te contei acima. É uma coisa impressionante! É um menino, pequeno e frágil como tu, um dia nasceu de uma rapariga com o mesmo nome que tu. Não nasceu numa maternidade, nasceu num curral. Dizem que ele nem chorou quando nasceu, mas eu acho que chorou. Acho que sim, acho que fez birras como tu, acho que chorava quando queria colo como tu, acho que sorria quando lhe faziam a vontadinha e iam passear com ele, acho que tinha os olhitos tão abertos como tu tens os teus, a ver se percebia o mundo que ele ia mudar. Acho que acordava de noite como tu, acho que preferia fruta doce à sopa como tu, e acho que também levantava a cabecita como tu fazes a procura não sei de quê, mas tu deves saber o que seria.
O incrível é que ele, tão pequenino e frágil, tão pobre e pequeno, tinha tudo para ser poderoso, mas não quis assim. Escolheu nascer assim como tu. A única arma que ele utilizou foi o Amor, que espalhava à volta Dele, que contagiava com o sorriso dele, desde pequeno até ser crescido. Ele quando abria a boca para falar, irradiava Amor, irradiava esperança, irradiava calor, tal como tu quando começas a palrar. Era um menino pequeno e fez isso tudo. Um dia, uns senhores fizeram-lhe mal, mas ele mesmo assim, ressuscitou e venceu o nosso maior medo – o fim de tudo.
Já viste… isto é que é mesmo incompreensível! Um garotito como tu, pequeno e frágil, humilde e pobre... Venceu e libertou-nos dos nossos limites humanos! Ele que começou tão lá em baixo, num berço de palha e chegou até lá tão em cima, até ao lugar de onde tu desceste há dias e vieste ter connosco, para partilhares esta aventura chamada vida!
Sê bem-vinda à Terra Maria. Aproveita esta viagem e feliz primeiro Natal!

tio P.
::
Correio do Vouga, Dezembro de 2005 – edição especial de Natal
::