sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Milagres de Natal em todo o mundo!


(…) Lembro-me do mundo que eles representam. Penso na delicadeza da vida de muitas pessoas que mereciam o calor do menino, talvez um Pai Natal que levasse esperança, porque o menino não pode sair da manjedoura quentinha.
Este Natal vamos fazer isso.
A ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento dá início na noite de 24 de Dezembro a um projecto que vem sendo preparado há muito tempo com cuidado. O chamado apadrinhamento à distância – a que daremos o nome de ‘ONE CHILD, ONE FUTURE.
Sabemos que a altura não será a melhor pela má publicidade que a suposta “Arca de Zoé” trouxe aos que andam verdadeiramente nestas causas. Mas mesmo assim, vamos com coragem e limparemos as feridas que esses possam ter feito.

A ideia consiste em ajudar a sério, permitindo o empowerment necessário às crianças que hoje vivem em pobreza extrema, mas que se hoje tiverem alimento e escola, poderão vir um dia a viver bem.
Necessitam apenas de uma refeição certa e adequada por dia, e de escola. Aprendendo hoje, poderão amanhã ter uma vida boa, saudável, sem fome e dando sustento aos seus.
Como se conseguirá isso? Na Diocese de Aveiro acolheremos todos aqueles que com o seu compromisso sério, atempado e continuado “adoptem” um afilhado na América Latina, África ou Timor. Os padrinhos ou madrinhas darão o necessário por mês para proporcionar educação e alimento às crianças que os missionários nossos parceiros atendem. Pela diferente cotação económica dos países de destino comparados com o nosso, falamos de quantias entre os 15 e 30 euros por mês. Não chega a um euro por dia!
Com tão pouco faremos milagres neste Natal! Daremos futuro às crianças! Não é para as trazer para cá em caso algum, não é para as conhecermos pessoalmente, não é para que elas sintam que têm um padrinho na Europa por isso não têm que se esforçar na vida… Nada disso! É tão-somente o milagre da multiplicação, em que um pouco de esforço para nós dá alimento e estudo a alguém na sua terra e no seio meio, junto com a sua família ou junto com os missionários se for órfão.
Damos as condições devidas às crianças de hoje, para que amanhã por si, possam subir os degraus do seu desenvolvimento, além de que tornamos no imediato a sua vida dura de criança um bocadinho mais suave!
É mesmo este o sentido do Natal, não é?!...
(…)

Informações:
ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento
www.orbiscooperation.org
one.child@orbiscooperation.org
Tel.: 96 496 2259

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CORREIO DO VOUGA, dezembro de 2007


sábado, 20 de outubro de 2007

Manchas que custam a lavar... arca de zoe, uma coisa que se fez passar por ONG

“Sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário.”

Enquadrada no seu contexto, este é um bonito pensamento, dos tempos de juventude de Guevara, quando o cansaço ainda não lhe tinha toldado o entendimento e fazer mal em nome do bem maior que ele pensava procurar. Não pretendo julgar a pessoa, nem as suas acções. Não o faço porque o meu juízo seria o do ano 2007 na Europa e a realidade dele era outra, com outras condicionantes. É de facto uma figura que admiro imenso, até certo momento da sua vida. Sinto-me em sintonia com a força que viveu intensamente.

1. Sentir profundamente uma injustiça não foi com certeza o que levou a Arca de Zoe, uma suposta ONG francesa a ‘salvar’ crianças supostamente órfãs (não o eram), supostamente do Darfur (também não o eram). Se todas as suposições fossem verdade, levá-las-iam sim para o campo de refugiados mais próximo e com melhores condições, não tratariam de as levar para França, a mesma França que há pouco tempo fez avançar legislação difícil a qualquer imigrante.
Das duas uma: ou asnos de caridadezinha e com muito dinheiro (frete de um avião?!) ou criminosos que mais não queriam que fazer negócio, como negreiros do século XXI (segundo o L’Expréssion, um diário de Argel).

2. Um dos crimes pelo qual não serão julgados foi a desconfiança que lançaram a todas as ONG’s. A comunicação social africana brada aos céus a culpa delas, o Presidente do Chade Idriss Itno aproveita para atingir franceses e as ONG’s que se julgam acima das leis locais. Lança-se a desconfiança geral em relação às Missões e Projectos que elas desenvolvem. Desconfia-se de tudo… porque uns senhores se resolveram a fazer-se passar por uma ONG e enriquecer criminosa ou ingenuamente à custa disso.

3. Muitas Organizações vivem bem. Com bons jipes (a Comissão Europeia não permite a utilização em projectos humanitários financiados por si, de viaturas com mais de 2 anos). Muitas outras, à custa das despesas de deslocação, lá vão ganhando bem com cada uma que fazem, seja ela de 170 kms a Lisboa, seja ela de 8000 kms a bem mais longe.

4. Muitos dos grandes acusam os pequenos de amadorismo, de voluntarismo, no sentido pejorativo da palavra, enquanto os primeiros esbanjam orçamentos, os pequenos põem do bolso e não é porque queiram.

6. Muitas vezes, chegam às Organizações pessoas para o voluntariado, muito bem mascaradas de boas intenções. Avançam mundos e fundos mas em pouco tempo vem à superfície a verdadeira motivação: ou lavar pecados do passado pessoal, ou construir um bom currículo social ou outras coisas menos dignas. O que no início era “só para ajudar” acaba por causar mais trabalhos do que o trabalho que inicialmente renderia.

5. Conclui-se que para ajudar é preciso saber fazê-lo. É preciso trabalhar para a causa, para a ajuda, para o desenvolvimento adequado e autónomo das populações. Antes de se dar roupas, livros, fundos monetários, o que quer que seja, saiba sempre com quem está a lidar, peça sempre feedback daquilo em que investe o seu esforço.
Geralmente, as organizações da Igreja Católica são sempre eficientes e de confiança, por isto mesmo: mantém a garra do Amor cristão ao próximo e reúnem a competência de uma organização estruturada.
Não deixe de ajudar, só porque alguém se faz passar pelo que não é. Muitas vidas já foram verdadeiramente salvas e sem saírem das suas terras. Esse trabalho pode continuar… se soubermos como e quisermos ajudar e fazê-lo bem.
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CORREIO DO VOUGA, Novembro de 2007
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domingo, 14 de outubro de 2007

Uma fé inquieta... II

Como vamos mudar o Hoje?

A medida dos nossos sonhos é a medida das nossas realizações
J. Kentenich

A oportunidade de fazer melhor está por todo o lado, basta escolhermos agir. Fazer melhor é ver um espaço e preenchê-lo, ouvir um pedido de ajuda e atendê-lo, pegar numa coisa errada e fazê-la correcta. Pegar num canteiro cheio de ervas e limpá-lo, guardar um papel no bolso e esperar por um cesto onde o depositar. Fazer melhor é pagar ordenados aos empregados por tempo de serviço num bem, construir uma casa, pintar uma escola, entusiasmar a juventude, dar alimento aos pobres, revitalizar uma comunidade, ter atitudes irreverentes, desinstaladas, andar de t-shirt no meio de ‘doutorzinhos’ porque o que conta é o que se faz. Fazer melhor é partir para a acção, sem medo de ocupar charneiras porque todo o espaço já está ocupado. É percorrer o caminho sem medo, com determinação, focado no horizonte. Fazer melhor é fazer com paixão, o estar ligado, aventurando-nos para o meio da tempestade e fazê-lo com um propósito.
Li algumas destas ideias, imagine-se, numa caixa de sapatos.
A intenção do marketing era criar o espírito da marca, a identificação destas ideias com quem lhes calça o calçado para poder ir mais longe. Diz-se de facto, que uma pessoa diz muito de onde quer ir pelo calçado que pode ter. Faz sentido!
É gente desta garra, deste género acima descrito que costuma ser laureada com o Prémio Nobel da Paz.
A maior parte de nós, não será agraciada algum dia por tão nobre distinção, mas há que ter presente que a avaliação dos nossos desempenhos é sempre condicionada por quem nos avalia.
Portanto, sem ligar demasiado a planos, é importante que saibamos agir hoje, mudando o presente, fazendo melhor… desde o pequeno-almoço até ao descanso da noite.
São pequenos gestos, alguns são pouco mais que símbolos, a maioria deles completamente invisíveis mas ninguém lhes nega a importância! Imaginemos que amanhã nenhum padeiro faz pão?...
Imaginemos que amanhã a Igreja encerra todos os Centros Paroquiais e Sociais, todas as Organizações Humanitárias que criou, imaginemos que amanhã o padre já não pode entrar no hospital, imaginemos que amanhã a senhora anónima já não visita o doente que está sozinho, imaginemos que amanhã todos os missionários regressam a casa, imaginemos que amanhã toda e qualquer confissão ou convicção era impedida de entrar na escola…
Muito se perdia. Muito testemunho de fé dado pela acção se apagaria. Muita seria a falta que se sentiria.
Chegou portanto a hora de no ano de atenção aos pobres, trabalharmos de cabeça erguida como quem sabe que não faz favores, como quem sabe que vê oportunidades de fazer melhor e o faz sem ter de pedir licença, nem a ministros nem outros que tais que ameaçam sem saber muito bem a amplitude do que estão a dizer.
Cada um de nós, como ser único e como Igreja, tem um lugar no mundo, e seja lá onde isso for, o importante é preencher o vazio e fazê-lo melhor que o nada que ele seria sem nós… sem nunca ofender ou desrespeitar as liberdades, mas com a audácia e o empenho de quem sabe o que está a fazer e o faz bem, sem medos ou silêncios que nos levem como Igreja, ou como pessoas, à impertinente insignificância.

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CORREIO DO VOUGA

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sábado, 11 de agosto de 2007

Educar o sonho de um mundo melhor…

A educação é muito próxima ao sonho. Podemos sonhar com um mundo melhor, podemos sonhar com um mundo da paz, onde todos têm o que necessitam para viver com dignidade. Podemos sonhar com um mundo onde todas as crianças possam ser crianças, os jovens possam ser jovens, os adultos, adultos e os idosos, idosos. Podemos sonhar com uma sociedade que assenta na solidariedade e na fraternidade, podemos sonhar com um mundo onde todos actuem com coerência e todos compartilhemos da necessidade de justiça social[1].
Podemos sonhar…
Educar provém do termo latino ‘ducere’. Etimologicamente tem vários sentidos: ‘conduzir’, ‘guiar’, ‘atrair a si’. Educar é de facto um caminho, que alguém guia e conduz, que alguém propõe, uma imensa viagem interior, que se faz em conjunto e onde se aprende a mudar o mundo, aos poucos, para um estádio melhor!
Educar é não apenas sonhar, mas lutar por esse sonho, na prática, construí-lo com todos os que me rodeiam.
São vários os intervenientes desta educação. Todos nos guiamos e conduzimos uns aos outros. Não são apenas os professores ou os catequistas ou os animadores ou os padres ou os pais ou os filhos ou quem quer que seja! Somos todos, até os educandos e outros nomes acabados em ‘andos’ e todos esses do primeiro ao último se completam uns aos outros!
Há algum tempo atrás conheci um ‘educador’, um senhor de que não sei o nome, dos seus oitenta e tais anos e com quem me cruzei uns dez minutos na minha vida. Foi numa visita de estudo para lá do Douro em que parámos por momentos no silêncio cristalino de uma aldeia transmontana, escondida como um tesouro por detrás das montanhas. Houve um senhor (aquele de que falava há instantes) com rugas de experiência e calmia na voz experimentada que perguntou a um dos meus amigos professores-educadores que guiávamos os nossos alunos:
- És tu o professor desta gente toda?!
- Sou sim senhor – respondeu o meu Amigo.
Ouvimos então, num tom de voz sereno de quem tem a lição para dizer desde sempre e que apesar da idade longa abraça o futuro com carinho:
- Educa-os bem pois eles são o futuro de nós mesmos. A marca que deixaremos no mundo não serão palácios de pedra, serão palácios humanos!

Neste caminho, já não há professores que ensinam e berram para manter a ordem na sala, não há catequistas que falam de doutrinas e fazem joguinhos, não há pais que ralham ou castigam, não há crianças frágeis ou violentas, não há paróquias indiferentes à escola, nem há escolas que não ligam ao ambiente lá de casa (quando ela existe ou quando são várias – dependendo da semana a quem calha ficar os filhos), não há cristãos isolados ou desinteressados, não há distinção nos intervenientes., pois de facto, todos somos, desde o mais pequenino ao mais velho, duas coisas muito simples:
EDUCADORES, porque nos conduzimos uns aos outros neste caminho maravilhoso que é a vida e COMPANHEIROS, não noutros sentidos que o original da palavra: aqueles que compartilham o pão!
Para formarmos a civilização do Amor, da Igualdade, da fraternidade temos de crescer em valores, todos actores do sonho da educação teremos de ser à imagem de Jesus, o educador por excelência, pessoas atentas aos outros, pessoas firmes, mas cheias de ternura!
Jesus é a fonte inesgotável de estímulos e critérios permanentes de como devemos entrar em relação com o outro: no ensino, na aprendizagem, no discernimento, na correcção, no conflito, na intervenção, na crise, na dor, na alegria, na festa, nas circunstâncias de pressão social-institucional-cultural-religiosa, etc. A sua excelência está na sua atitude educativa, na metodologia, no conteúdo, na linguagem, sempre acessível a quem o ouvia. Ele sempre teve a preocupação de ser entendido! A sintonia da linguagem é fundamental!
Jesus foi educador diante dos seus discípulos, no encontro com as pessoas, com as massas, diante dos adversários, nos discursos aos seguidores, com seus parentes... Diante de todos!
Foi educador na rua, na festa, na praia, no deserto, na estrada, no monte, no poço, na casa dos amigos, no tribunal, na cruz. Em todos os lugares!
Foi educador no conflito, na tensão, na fome, na solidão, na angustia, na dor, no cansaço, na serenidade... Sem stress e em todas as circunstâncias, convivendo, acolhendo, motivando, aproximando-se, perdoando, ensinando, libertando, corrigindo, escutando, esclarecendo, desafiando, alertando... sempre ao ritmo dos seus educandos, sempre pela positiva, dando prioridade à pessoa, às pessoas e ao infinito que elas comportam dentro de si!
Profundamente humano, Jesus envolveu-se, foi capaz de sentir compaixão por quem se encontrava numa situação indigna. Não resolveu problemas sozinho... Ele envolve, desperta a motivação, sensibiliza, organiza, implora a bênção do Pai e… os milagres aconteciam e podem continuar a acontecer hoje!
É muito simples mesmo que aconteçam, basta partilharmos o pão da vida, basta guiar-mo-nos uns aos outros, termos compaixão e sabermos que nem todos nascemos na realidade iguais em direitos, mas que é preciso indignar-nos, ouvir, acompanhar, “bater à porta do coração e perguntar: pode-se entrar?”
[2]… Lá dentro, por baixo da capa do irrequieto barulhento, animado e maluco está um ser humano com um potencial que junto com o nosso… vai mudar o mundo e o tornar naquele dos sonhos, o da solidariedade, o da fraternidade, o da partilha e o do Amor…
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[1] Luís Sepúlveda, in: “O poder dos Sonhos” pp.10 e 11
[2] Pedro Strecht
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CORREIO DO VOUGA, Agosto de 2007