quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal para o mundo, para a humanidade aqui de fora...



Ser solidário é dar o sol. (sol-idário).
De facto, no Natal acontece a festa do sol, também o solstício... a data simbólica é feliz! Nasceu-nos Aquele que nos dá o Sol, que dá o Sol de todos os dias, para que todos os dias possamos fazer do mundo um sítio melhor, um sítio com mais Sol!


Que saibamos não perder esta oportunidade, no tempo que aí vem!


Bom Natal e um PRÓSPERO ano de 2009!




in: CV, especial de Natal

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ninguém deve ter medo...


Ninguem deve ter medo de mudar o mundo para o tornar melhor”.

Foi dito à dias, na simplicidade de uns 90 anos de uma vida cheia. Foi um senhor que nasceu numa aldeia pequena, quase perdida na África do Sul. Quando jovem, foi pastor e anos mais tarde viveu uma vida dura, entre a prisão a o trabalho pela liberdade dos outros.
Hoje todos o conhecemos por Nélson Mandela e esta ideia dele foi dita na semana passada a propósito de um senhor, que em Agosto de 2006 visitou a cela onde Mandela passou 27 anos da sua vida, ter sido eleito Presidente dos Estados Unidos da América.
Isto de mudar o mundo é uma coisa muito mal entendida. Pensamos que é com grandes coisas, para pessoas de muito poder. Na política queixamo-nos sempre da crise, da falta de meios, de fundos. Na sociedade, idem. Na minha amada Igreja, temos a sensação ou tentação de que isso foi trabalho de Cristo e que não temos a força Dele. (Não teremos Nele a força Dele?!)

Mas mudar o mundo é uma coisa muito mais simples e não tem nada a ver com o peso de o carregar sozinho, de o fazer sozinho.
Andamos ocupados, muito ocupados com coisas de pouco valor. Andamos preocupados, muito preocupados, com coisas de nenhuma importância. O consumo, o ter mais, mais, nunca satisfeitos, projecta-se para as compras, para as relações humanas, para a política, para o social, para o desporto, para a saúde, para tudo. É verdade esta sensação que pode ser mentira, de que os nossos políticos passam o tempo a calcular, a fazer contas à estratégia da sua ascensão pessoal, a fazer contas e esquemas para chegar não sei onde. Assim é tempo desperdiçado, não fazem o seu trabalho para desenvolver e melhorar a vida das pessoas.
Na minha amada Igreja, quantas vezes perco tempo a dormir numa eucaristia às vezes meio triste e enfadonha em vez de me inspirar na comunidade e na Graça que estou a receber. Quantas vezes me gasto em reuniões e reuniões de nada? Quantas vezes perdemos tempo a resolver questões de pessoas e não de causas em vez de estarmos a fazer outras coisas, como por exemplo: mudar o mundo?!
Deviamos SER uma sociedade mais interventiva, sem medo de participar, de arregaçar as mangas, com as bandeiras das pessoas, das instituições, das organizações, dos partidos políticos, das administrações públicas, mas sempre, sempre das pessoas.
Deviamos chegar-nos todos à frente, trabalhar no empoderamento e não na assistência permanente.
Mudar o mundo é isso. Não é uma coisa imediata que se faz neste momento e fica feito. É uma coisa contínua, de todos os dias, de todos os gestos, de cada gesto. Eu, tu, ele, fazemos NÓS. E cada gesto insignificante individual, juntado aos outros todos, de todos NÓS mudará o mundo, a cada dia até ao fim dos tempos.
Se Jesus nos disse: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos Amei”. Se um pastor da África do Sul ao ver eleito uma pessoa como todas as outras tornar-se presidente dos Estados Unidos diz que “ninguém deve ter medo de mudar o mundo para o tornar melhor”… Quanto mais continuaremos nós parados na nossa comodidade, sem participarmos em todas as frentes, nobres ou não (se não, mudemo-las) para fazer a nossa parte de mudar o mundo?!

Shot: MNE chinês disse na semana passada: ”Acreditamos no comércio livre e acreditamos que os EUA também”. Se eu fosse alguém perguntava-lhes se acreditavam também nos Direitos Humanos dos chineses? É que se assim fosse, o comércio seria outro! Talvez até fosse livre mesmo!
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CORREIO DO VOUGA
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Yes we must...


The way of mankind for prosperity is not on the economical resources distribution... it is on the kindness he put's on what he does in the world”.

Escrevo já na madrugada de 5 de Novembro. Lembro-me de há vários meses, ainda não se falava muito em Obama, escrever aqui sobre um político que parecia ser sério, com carácter, que sabia ouvir as pessoas e depois apontar caminhos. Disse também, (por pouco acreditarmos de modo geral nos políticos, e por consequência errada, no potencial transformador da Política), que ele provavelmente não ia longe, os senhores da máquina não iam deixar.
Enganei-me! Felizmente!
Esta noite vi um homem sereno, que foi um rapaz que cresceu em vários sítios, de uma família sem privilégios, pai negro, mãe branca, que estudou, que trabalhou, que se esforçou pelos outros. Vi um pai e um marido, empenhado na família, apoiado pela família. Um homem não eufórico porque perdeu uma avó recentemente e, talvez, porque sabe que não venceu nada ainda, porque ainda agora o desafio está a começar.
Vi a prova de que nós, quaisquer que sejam as nossas origens, não temos o direito de não fazer nada. Não temos o direito de continuar sentados no banco do café, a queixarmo-nos da vida e a dizer mal dos políticos (na maioria dos casos até temos razão, pese embora algumas raras excepções a quem quase não damos oportunidade, de tão escaldados que estamos da inércia e esquizofrenia política da maioria dos nossos líderes). Não temos o direito de não nos envolvermos, de não tomar parte das soluções, de não sermos agentes de transformação social e política. Não temos o direito de continuar a falar e não participar.
O desafio é enorme e maravilhoso. Que mundo queremos deixar?
“Yes we must”... levantar-nos e trabalharmos em todas as frentes que pudermos, partidárias, civis, etc! Foi para isso que nascemos, para esse olhar de esperança, todos: ricos, pobres, estudados da universidade e estudados da vida. Não podemos por isso, continuar a não fazer nada.
Boa sorte Barack Obama.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Trabalho e os Direitos Humanos

1. Estamos a andar não sabemos muito bem para onde. Ninguém parece ter uma estratégia muito bem definida. Há uns meses atrás, pouco se falava desta conjuntura económica actual quando a recém empossada presidência francesa da UE anunciava um aumento da semana de trabalho em França até a um tecto de 11 horas diárias alargada a 6 dias por semana. O objectivo era melhorar a competitividade da Europa em relação à Ásia, concretamente, à China.

2. A globalização, a troca de bens, de ideias, as pessoas de um lado para o outro é uma coisa intrínsecamente boa. É um jogo único esta comunicação, a partilha, a mobilidade! Mas quando as regras do jogo não são as mesmas para todos os jogadores, acontecem desequilíbrios e qualquer tentativa de ajuste do desempenho de jogadores, continuando com as regras diferentes só pode dar mau resultado! São as regras que têm de mudar.

3. O modo de sermos competitivos neste jogo do mercado aberto que a globalização trouxe não se atinge a degradar as condições dos produtos ou da vida das pessoas que os fazem aqui ao nível das vidas dos outros que as fazem na China! O modo de sermos competitivos é a puxar para cima a qualidade e os Direitos dos operários (quase) escravos de outros sítios do mundo. A medida reguladora deve ser o TOPO, não o fundo! A exigência dos DIREITOS HUMANOS é trabalho de política internacional, sabendo que essa exigência melhora a vida de tantos que vivem afogados na miséria e na injustiça social a que estão presos, mesmo indo ela contra potencial interesse diplomático.

4. Aqueles que nos fazem as calças que vestimos, fazem-no numa jornada de trabalho de 16 horas diárias, com um ordenado equivalente a 30 dolares mensais. É assim que os seus patrões conseguem preços mais baixos que os nossos texteis, destruindo aqui a nossa produção.

A solução não é o regresso ao proteccionismo não é o aumento das horas de trabalho, é antes a luta por Direitos Humanos e vencimento justo a essas pessoas longínquas, harmonizando deste modo as regras do jogo também para nós.
Dando condições a essas pessoas, ordenados justos e de acordo com o valor real dos produtos! Dando às pessoas um horário, seguros de saúde, trabalho com honra...
Aí sim as regras serão as mesmas, essas pessoas poderão tornar-se tambem elas consumidoras de bens e de prosperidade (segundo o sistema económico em que vivemos) e caminharemos para aquilo que o Modelo Social Europeu tão bem profetizou: A Política e a Economia ao serviço das pessoas! Um mundo de Paz, de Prosperidade sustentável e de bem estar para todos!

Competir, em Desenvolvimento, só faz sentido assim... se melhorar a vida de todos!
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O AVEIRO
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sábado, 25 de outubro de 2008

Uma parceria Global para o Desenvolvimento





Hoje no mundo, exactamente neste momento, há pessoas a fazerem fila num campo de refugiados depois de fugirem de uma guerra que não sabem de onde veio nem porquê. Deixaram tudo e esse tudo não são MP3, Telemóveis PC’s, roupas de marca e outros acessórios ou gadgets. Deixaram tudo... tudo mesmo: a casa de barro, a esteira que faz de cama, a cadeira e a tigela de madeira onde se come o único alimento quando ele existe: a mandioca. Deixaram apenas isto, porque isto é tudo o que tinham.
Hoje no mundo, exactamente neste momento, há miúdos com sorte porque têm um professor, uma árvore que dá sombra e um chão de terra onde dá para escrever. Muitos outros nem sonham em saber escrever ou ler.
Hoje no mundo, exactamente neste momento, há pessoas, mulheres que são mutiladas, mulheres que não têm voz política ou cívica no mundo.
Hoje no mundo, exactamente neste momento há mulheres que sepultaram um filho bebé ou criança demasiado frágil para aguentar uma doença porque não pôde receber medicamentos preventivos de valor menos que um euro.
Hoje no mundo, exactamente neste momento, há pessoas em fila para se deitaram na cama de um hospital feito de pano, sobrelotado. Há pessoas que sofrem de HIV/SIDA, malária e outras doenças contagiosas que facilmente se podiam prevenir.
Hoje no mundo, exactamente neste momento, talvez mais um rio tenha secado, mais uma fonte se tenha esgotado, mais uma pessoa passou sede.

A vida destas pessoas, por mais longe que estejam, são vidas iguais às nossas.
No ano 2000 os líderes políticos mundiais concordaram num método preciso para acabar com estas realidades. Fizeram-no na Declaração do Milénio em Assembleia Geral das Nações Unidas.

Agora imagine os líderes dos EUA e de Cuba, e do Irão, e da Venezuela... Imagine os líderes da China e os do Tibete, os da Rússia e da Geórgia, o governo do Sudão e os Janjaweed ainda com os líderes tribais do Darfur...
Imagine-os todos à mesma mesa de trabalho, cada grupo destes intencionalmente separado no texto por vírgulas de conflitos. Imagine-os juntos e concentrados num único e exclusivo interesse comum: uma parceira global para o Desenvolvimento!
Impossível, dirá... eu também concordava antes da segunda feira passada. Mas julgo que não é! Essa é a mensagem que os líderes partidários de Aveiro quiseram dar, unindo-se simbolicamente num registo de imagem-mensagem.
Todos os partidos se uniram no desafio, simples e concreto, pouco mais que simbólico, mas muito simbólico! Todos sem excepção, da Direita à Esquerda se uniram numa imagem que diz o mundo tem de mudar e que para isso as divergências valem zero.
Que lhe sigam os exemplo os cidadãos que os elegeram e todos os políticos do mundo...

Corremos todos pelo mesmo, para que a mudança não seja apenas mais uma palavra que se diz, mas que se faz até a pobreza ser enfim, uma história do passado.
Se aqui conseguimos, no resto do mundo é só fazer igual!
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O AVEIRO, semana objectivo 2015 - aveiro'08
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sábado, 18 de outubro de 2008

Semana Objectivo 2015 - AVEIRO'08

ODM2: Alcançar o Ensino Primário Universal

Em Angola conheci uma vez uma criança que tinha entre os três e os sete anos. Mãos enrugadas já... é sempre dificil saber-lhes a idade. Este menino falava chokwé, o dialecto da sua gente, falava inglês porque era refugiado na Zâmbia e falava com os senhores da ONU nessa língua.
Quando o conheci tinha chegado a outro campo de refugiados, em Angola há muito pouco tempo. Era muito sociável depois da primeira barreira ultrapassada entre si e as pessoas. Andava sempre comigo, ajudava-me em tudo, às vezes atrapalhava-me em tudo o que fosse trabalho pesado, quando pequenino não o via atrás de mim ou junto dos meus pés. Via tudo o que eu fazia, jogava a bola, dava-me das suas papas de milho.
Ao fim de três semanas ali, numa mamnhã em que chegou ao campo falou para mim em Português!
Apenas em três semanas aprendeu... Imagino-o se tivesse nascido noutro lugar, numa Europa ou EUA. Imagino as possibilidades que ele não teria de chegar muito longe com a sua inteligência...
Esta realdiade repete-se por milhões de crianças que nasceram no sítio errado, na hora errada, nunca tendo possibilidade de ir à escola porque não há uma escola e a estatística diz que faltam um milhão de professores para suprir esta necessidade em todo o mundo.


ODM 3: Promover a igualdade de género e empoderar as mulheres

A violência contra as mulheres e as raparigas deixa a sua marca horrenda em todos os continentes, países e culturas. Chegou o momento de derrubar os muros de silêncio”. Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU, foi corajoso no seu discurso, no lançamento da campanha Unite to End Violence Against Women.
O que é cultural e o que não é?! O que é universal e o que não é?! O respeito pela condiação humana, pela dignidades das pessoas, sejam homens, mulheres, crianças é uma hernaça global, comum a todoas as colturas, a todas as políticas, a todas as religiões.
Não faz sentido hoje a mutilação do corpo humano só porque se é mulher, não faz sentido escravizar ou comerciar um ser humano como produto provedor de tarefas, não faz sentido que se dificulte o acesso à educação, à saúde, o acesso ao processo de decisão político.
Empoderar as mulheres significa equilibrar o mundo, significa trabalhar para o cumprimento de quase todos os objectivos de desenvolvimento do milénio. São elas de facto, actores cruciais no terreno para o alcance da educação dos seus filhos, para promoção da saúde, para o equilíbrio dos orçamentos familiares.
A igualdade de género é trabalhar o mundo em parelha, com justiça e a dignididade necessária e intrínseca a todos os seres humanos, homens ou mulheres.


ODM 4: Reduzir em dois terços a mortalidade infantil até 2015

Foi no ano de 2004, em Angola. Uma criança recém-nascida teve uma desidratação por diarreia e faleceu em poucos dias. A sua fragilidade e a falta de medicamentos tornaram a vida numa missão impossível. Aqui seria tão fácil o tratamento. A imagem não me larga.
Em 2005, em Moçambique, Inharrime, mesmo ao lado de uma ilha turística. Um bebé de duas semanas não sobreviveu porque não tinha leite apropriado para se alimentar.
Em 2006, em Timor. Também um outro bebé faleceu com duas semanas e já nem me lembro a causa.
E esse é o problema... esquecemos as causas, até destas histórias que foram testemunhadas por voluntários da ORBIS, voluntários que são de Aveiro, que se cruzam anónimos na rua connosco...
Que mundo é este onde uma criança tem reduzidas ou aumentadas as probabilidades de viver para lá dos 5 anos de idade, conforme o sítio, o país, a região e classe social onde tenha nascido?!
A realidade é essa. 99% das mortes abaixo dos 5 anos de idade acontecem nos países de médio e baixo rendimento, sobretudo na África Subsariana e no Subcontinente Asiático. Investir na saúde infantil não é apenas uma questão de elementar justiça que nos define enquanto espécie. É também investir no futuro, no desenvolvimento dos países, num mundo melhor!



ODM5: Reduzir em 75% a mortalidade materna até 2015

Aconteceu em Angola, o ano passado apenas. Um padre foi chamado para ir a um óbito dar a unção dos doentes. Estranhou o paradoxo e pediu à médica do Centro de Saúde que o acompanhasse à aldeia para verificar a doença ou a trágica morte.
Tratava-se de uma mulher jovem de 18 anos, tinha tido problemas na gravidez e abortou naturalmente quatro dias antes. Na maternidade onde estava informaram a família que já não havia nada a fazer. A família muito obedientemente retirou a menina da clínica e começaram a preparar o óbito.
O corpo sem vida, ainda a tinha, um fio muito frágil mas que se podia puxar, tentar, sem saber sequer se era já muito tarde ou não. Nesta África a linha entre a vida e a morte é muito ténue. Convivem ambas diariamente. Reuniu-se a família, entre o choro da esperança, mais uma vez, podendo ser em vão e com o óbito a acontecer.
Tentaram a vida, mesmo contra costumes e lutos anunciados. O sofrimento tem dimensões diferentes ali, porque histórias diferentes. Não podemos entender em plenitude.
A fragilidade da vida da mulher faz a vida dos seus filhos ser muito frágil também (ODM 4). Em muitos países essa fragilidade é consequência da condição social das populações e inferior das mulheres.
Promover a sua saúde e a sua vida é promover um dos pilares da nossa sociedade, por sinal o mais frágil, mas talvez o mais importante!


ODM 6: Combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças graves

Foi em Moçambique. Uma mãe a que vamos chamar de Joana, tinha 26 anos de idade na altura, sabia até ler, tinha três filhos, um deles de 2 meses apenas. O marido tinha SIDA e infectou a sua esposa. Por sua vez, tinha-a abandonado e ido para a África do Sul com uma mulher mais nova e não doente, apesar de ter sido ele a infectar a esposa. O pequenino, vamos chamar-lhe Hortêncio, com 2 meses tinha apenas 1,200 gramas de peso. Provavelmente recebeu também a herança dos pais. Fio às costas da sua mãe, envolto no pano africano durante dois dias até à casa de umas irmãs religiosas para pedir leite em pó que pudesse dar ao seu filho. Já muito frágeis de dois dias de caminho, as irmãs levaram-nos ao hospital, onde ficaram.
No dia seguinte, a mãe tinha saído com o seu filho de regresso a casa. O pequenino não sobreviveu. Mais tarde soubémos que a mãe tinha os outros dois filhos em casa, sozinhos à sua sorte. A mãe teve de escolher entre eles.
O SIDA, a malária e outras doenças graves fragilizam as famílias, reduzem a produtividade e o rendimento dos países pobres dificultando-lhes ainda mais a saída da pobreza para uma vida digna e feliz com desenvolvimento e suficiência económica.
O esforço concertado de muitos países tem ajudado a que a história de cima se repita cada vez menos. A variola foi erradicada, a poliomielite está já bastante localizada, estão em curso campanhas de sensibilização para a saúde e higiene que previne a malária, no Brasil os retrovirais já não são um negócio corporativista mas acessíveis a todos. Em África constróem-se centros de saúde, formam-se enfermeiros locais, enviam-se medicamentos!
Vê-se esperança, algumas metas estão e terão de continuar a ser atingidas para que este ODM se cumpra!


ODM 7: Garantir a sustentabilidade ambiental

Foi num lago da Tanzânia, onde nasce o Nilo, um dos maiores lagos do mundo, o Lago Vitória. A vida era abundante, cheia de diversidade e vida submarina.
Um dia introduziram uma nova espécie. A Perca do Nilo, um peixe grande e abundante no alimento, uma solução para dar prosperidade comercial e de alimento às pessoas que vivam em volta do lago. Cresceu a indústria transformadora, geraram-se empregos!
O peixe limpou o ecossistema do lago, acabou por se extinguir. Quem vivia dele deixou de ter rendimento, não pôde voltar à subsistência antiga a partir da vida do lago. Ali onde a espécie humana deu os primeiros passos bípedes via-se não já inicio, mas o fim.
Esta história é localizada, mas ano a ano, a nossa economia explora os recursos do mundo sem auto-geração de bens e recursos. Consumimos, consumimos... os indicadores de optimismo económico medem-se em termos de produção, de dinheiro. Quando a economia acelera, todos ficamos felizes... mas caminhamos para onde?! Quando tudo for consumido, quando toda a água for contaminada vamos viver de quê? De titulos de bolsa?!
Os destinos do ambiente e da vida humana estão interligados. A saúde e o bem estar advém sobretudo da qualidade do que comemos e bebemos.
A sustentabilidade tem de ser mais que moda ou palavra de marketing, tem de ser prática porque o que eu consumo tem de ser reposto para os nossos irmãos da humanidade, para os nossos filhos nas gerações vindouras. Se hoje já sentimos estas carestias, amanhã será pior, no entanto reverter esse caminho está ao nosso alcance e sem comprometer os interesses instalados.
Todos temos a ganhar até porque o pobre de hoje, se deixar de o ser, pode ser cliente amanhã e entrar no cesto da prosperidade do nosso sistema, que mal ou bem, é o nosso. Que seja de todos... com sustentabilidade!

ODM 8: Fortalecer uma parceria global para o desenvolvimento

Imagine isto: os líderes dos EUA e de Cuba, e do Irão, e da Venezuela... Imagine os líderes da China e os do Tibete, os da Rússia e da Geórgia, o governo do Sudão e os Janjaweed ainda com os líderes tribais do Darfur...
Imagine-os todos à mesma mesa de trabalho, cada grupo destes intencionalmente separado no texto por vírgulas de conflitos. Imagine-os juntos e concentrados num único e exclusivo interesse comum: uma parceira global para o Desenvolvimento!
Impossível, dirá... eu também concordava antes da segunda feira passada. Mas julgo que não é! Essa é a mensagem que os líderes partidários de Aveiro quiseram dar, unindo-se simbolicamente num registo de imagem-mensagem.
Todos os partidos se uniram no desafio, simples e concreto, pouco mais que simbólico, mas muito simbólico! Todos sem excepção, da Direita à Esquerda se uniram na imagem que se apresenta aqui ao lado, que diz que o mundo tem de mudar e que para isso as divergências valem zero.
Que lhe sigam os exemplo os cidadãos que os elegeram e todos os políticos do mundo...

Corremos todos pelo mesmo, para que a mudança não seja apenas mais uma palavra que se diz, mas que se faz até a pobreza ser enfim, uma história do passado.
Se aqui conseguimos, no resto do mundo é só fazer igual!

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DIÁRIO DE AVEIRO
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domingo, 12 de outubro de 2008

Diz-se que este País não anda...

Os nossos líderes políticos europeus disseram-no em coro nas últimas semanas como se tivessem descoberto a pólvora: “É necessário estimular a economia para vencer a crise”.
É ao que chamam ‘Desenvolvimento’, verdadeiramente significa aumentar o consumo, aumentar as trocas comerciais que sucedem na troca de capital. A economia gira assim, cria-se riqueza, multiplicam-se os bens.
Sem querer analisar se isso é bom ou mau, é assim que constatamos que funciona a nossa sociedade de consumo e de uma espécie de empreendedorismo.
Em Portugal a economia anda sempre devagarinho e a culpa é nossa que somos sempre os últimos em tudo. Até naquilo que somos bons dizemos que somos os últimos maus da Europa.
Há uma coisa que de facto inquina o crescimento económico e por arrastamento o desenvolvimento:
Uma pessoa que comece a trabalhar em portugal, à partida do seu ganho 20 % é o IRS, a somar 21% de IVA. Este pode recuperá-lo no equipamento que utiliza no seu trabalho, mas quase nada desse equipamento é despesa elegível nas listas das finanças. Até aqui já descontámos 41% do trabalho. Trimestralmente os empreendedores que criam o seu próprio emprego fazem ainda o pagamento por conta, quer facturem, quer não. Têm de pagar a Segurança Social e muito bem para quem mais precisa. Esse é o objectivo. Tem de comprar equipamentos pesados de trabalho, nalguns casos, tem de fazer seguros, manutenção, impostos de ciruclação entre outros. Se vender o seu negócio, ele é sobrevalorizado pelas finanças e o imposto sobre a venda não é de um valor real, mas de um sobreavaliado.
Economia de mercado?! Estimular a economia?!
Mais de 50 % do trabalho de um cidadão neste cenário vai para o Estado.
Ter um sócio assim, que pouco faz das suas obrigações mas leva sempre meio bolo é duro. Assim não será fácil fazer este país andar porque não é fácil empreender projectos com esforço próprio sem pés-de-meia de interesses instalados.
Há impostos que apertam, há outros que da sua injustiça, estrangulam e paralisam.
E quando vemos que, do suor de todos, não são bem geridos ou bem investidos, custa-nos mais a pagá-los, precisamente por isso! Porque somos contribuintes mas não nos sentimos a contribuir para nada que valha a pena, para nenhum projecto e nenhum sonho ou visão de uma Nação. E isso é indigno e injusto.
Para este país andar de facto não é necessário um Sebastião do nevoeiro ou grandes malabrarismos, basta todos, políticos e cidadãos fazerem a sua parte: com seriedade, justiça (a do bom senso em vez de alguma indevidamente legislada) e sobretudo, honestidade.
Aí sim, a economia e o País vão andar.

domingo, 14 de setembro de 2008

Uma fé inquieta... V

A religão que era dos brancos


Foi numa manhã quente, como o são as do Inverno austral. Não se levava muita água pois não sabiamos ao que íamos.
Era uma aldeia distante, para lá do cemitério do Savimbi, onde ele tem a lápide mas não tem o corpo que foi levado para Luanda, dizem, porque os do partido do governo, o outro lado da guerrilha, tinham medo que ele ressuscitasse de novo, pela sexta ou sétima vez e voltasse a dar trabalho. Não é que ele fosse pior ou melhor que o outro... eram iguais, um deles ainda é. Só que as sortes dividiram-se pelo que continua vivo.
Depois do cemitério, anda-se mais um pedaço. Há uma cortada para uma picada de terra batida e à frente, mesmo antes do rio há um enorme campo minado. De um lado as placas, do outro campos extensos de milho, já seco. Um rio ao fundo, que acompanhamos sempre até a picada terminar.
A partir daí, cerca de 7 quilometros a pé, depois de passar um pequeno campo anormalmente aplanado que mais não era que uma pequena pista para as avionetas norueguesas dos diamantes aterrarem, carregarem de água e outras pedras que matam mais que as dos rins e que se passeiam por aí nos pescoços ou nos dedos com a inocência e o brilho de quem não sabe o mal que faz.
Depois dos sete quilometros de calor, sem água, até em rio infestado de jacarés se vai beber, sempre com os pés prontos para arrancar caso haja algum movimento suspeito na água. A sede é tanta que desafia o risco. É um pouco assim a fé dos Homens. Têm sede, arriscam-se.
Chega-se à aldeia, longe de tudo. Começa-se a reunião com os mais velhos, enquanto os pequenos vão para as brincadeiras e os doentes aguardam vez para o curativo.
A discussão é solene, pese embora alguns risos. Os rostos são pesados, enrugados pelo tempo, pela malária, pela guerra. São vozes também assim, enrugadas pela vida. Falam das necessidades: um professor para a escola. A escola ainda não existe, mas a UNICEF só a constrói depois de haver um professor e o que havia o governo transferiu-o. É preciso um médico o uum enfermeiro, um posto de saúde que não os faça ir ao feiticeiro. É preciso fé, religação.
Religião significa isso, religar, voltar a ligar o que antes estava ligado, depois desligou-se e é preciso ligar de novo. Deus e o Homem, é preciso religá-los.
Vai-se falando em Chokwé, em Português, traduzindo, falando. Dizem que a fé é dos brancos e quando eles se forem embora, a fé deles também se vai embora. Riem...
Estão a brincar comigo porque sou branco. Mas fazem-me pensar na velha história da fé à força mal pintada na História. Então era verdade o que laicistas mais ressabiados com as frustrações da sua vida dizem! Fomos para lá impôr-nos?!
Pergunto-lhes do que é que mais tinham medo? - “Da morte” – respondem à primeira. Digo-lhes que há brancos que não acreditam em Deus.
A cara que fiz antes incrédula estava agora nos rostos mais velhos da aldeia que me observavam admirados. Há brancos que não acreditam, mas como pode ser isso?!
Digo-lhes que Cristo venceu esse maior medo e se estamos com Ele, já não temos de ter esse medo. Claro que foi muito inteligente e não deixou maneira que ninguém conseguisse provar o que eu estava a dizer Dele, inequivocamente.
Portanto, ou se acreditava, ou não se acreditava. Era tudo uma questão de Amor e liberdade e opção. Todos éramos convidados, ninguém forçado.
De facto assim foi, naquele dia. Testemunhei a opção da liberdade libertadora de Cristo e da força dos que nele acreditam. Gente ali de uma aldeia longínqua, perto do nada, longe de tudo o que conhecemos, até do português oficial da república onde se estava.
Aconteceu Religião, aconteceu a celebração do Amor. Ali e em todos os sítios onde alguém ou alguma coisa se religou, aconteceu religião, mesmo que os sítios ou as ocasiões não fossem oficiais. Aconteceu que Deus estendeu a mão ao Homem e o homem, ao celebrar a comunhão com os outros, seja uma comunidade inteira ou duas pessoas que se gostam e caminham juntas, estendeu-a a Deus.
Em qualquer destas situações, acontece Igreja, acontece re-ligião.
Foi um dia grande, aquele 16 de Agosto, um dia em que o sol brilhou intenso na minha cabeça ao longo dos sete quilómetros de regresso, por caminhos de carga de diamantes.
Naquele dia foram outras coisas a brilhar... a certeza de comunidades e famílias que em Deus vêm um Amor que é eternidade religada, como sempre devia ter estado!
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CORREIO DO VOUGA
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Angola e a falácia do processo democrático


Vi a campanha pessoalmente, li o dia das eleições pelo relato clandestino que me chegou de lá, dos mais diversos locais do país. Li também, na generalidade da imprensa, algumas notícias que pareciam falar de outro país que não Angola, exceptuando raros e meritosos casos que com coragem falaram a verdade, arriscando o seu trabalho futuro. Alguns periódicos portugueses já saborearam agora algumas dessas consequências, integrando o vasto leque de títulos não autorizados a trabalhar em Angola na cobertura desta palhaçada a que o governo angolano chamou de eleições.

A nível nacional, os noticiários dos canais públicos e o privado (sendo que este pertence à filha do presidente) eram integralmente a cobertura das actividades do Presidente da República, cognominado de ‘o arquitecto da paz’ e da campanha do MPLA. Nas últimas duas semanas o tal da paz deixou de aparecer nas câmaras e comícios no habitual fato vincado e gravata para aparecer de camisa destrilhada comprida, tentando colar a sua imagem ao incomparável Nelson Mandela.
Não satisfeitos com todo o domínio, no tempo de publicidade entre programas e pequenos tempos de antena de outros partidos, passavam verdadeiras peças de arte do marketing em homenagem e agradecimento à figura ignominiosa de José Eduardo dos Santos.

Província do Moxico, interior de Angola. Grande boliço da máquina partidária do MPLA e governo (ninguém distinguia o que era um e o outro). Os voos militares transportavam duas coisas durante este mês: o material da comissão nacional de eleições e material de propaganda do MPLA, o partido do governo.
Os comícios, as festas, os bonés, as bandeiras, as t-shirts que todos usavam ou por medo de não usar ou por ser uma peça de roupa nova e única… era tudo da estrela do MPLA.
Até aqui, merchandising normal aos olhos europeus diriamos.
O que não será muito normal é a explosão, literal de um dia para o outro de centenas de motorizadas novas, dezenas de carros, distribuição de bicicletas, de televisões e antenas parabólicas em aldeias do interior onde as pessoas vivem em cubatas e a electricidade não existe.
Até aqui, propaganda, comprada com dinheiro do Estado, que é de todos. Crime de peculato, grave… apenas.

Mais próximo às eleições, um dos comícios que fonte de confiança que me pede o favor enorme de não ser identificada descreveu-me o ambiente como algo mais que muito intimidatório. Em chokwé, no município de Luau, junto à fronteira com a Zâmbia, o palestrante tentava cativar assim o povo ao voto no partido do poder: “Lá em cima, muito alto no céu, está um satélite que vocês não podem ver mas que vê tudo em todo o lado e vai ver em quem vocês vão votar. Se não votarem no MPLA, irão sofrer graves consequências”.
Já não é apenas grave.

Chegado o grande dia das eleições, o medo das pessoas tomou proporções que ainda não tinha tido durante a campanha.
Antes, era um medo surdina, ninguém falava muito nisso. Numa reunião em que os observadores da EU foram falar a representantes das comunidades, todos responderam que tudo estava a correr bem. Só depois, timidamente e em particular lhes disseram mais alguma coisa do que se passava.
O clima de vigilância era presente, sempre. Os observadores eram os mais observados! Sabiam disso e sabiam da pouca utilidade do seu trabalho uma vez que os políticos para quem trabalhavam pareciam ter por vezes relações de vassalagem para os políticos que eram os donos daquela terra.
Apesar disso, a tensão para com os observadores era evidente. A uma semana das eleições a polícia foi ao encontro deles para lhes oferecer ‘impostamente’ escolta permanente. Naquela altura observar os observadores já não era suficiente. Havia também que controlar o que eles observavam…
O medo, sempre companheiro de todo o processo cresceu no dia 5 de Setembro em alguns lugares.
“As pessoas não dormiram toda a noite do nervoso que estavam, com medo que o novo processo eleitoral desembocasse em guerra como da última vez. Em algumas assembleias de voto, as filas estavam grandes desde as 4h da manhã. A obsessão das pessoas era votar e ter o dedo manchado de negro para demonstrar que tinham cumprido as ordens do governo e dos sobas. A maior parte delas não sabia votar ou sequer dobrar o boletim de voto… Durante a contagem o clima foi de tensão, sem possibilidades de ninguém reclamar, os delegados da oposição nem abriam a boca e sim, o MPLA ganhou e por muito de avanço, como em todas as ditaduras onde se celebram eleições. O controlo do MPLA foi absoluto através do controlo dos membros das mesas eleitoras. De facto, os presidentes destas eram sempre funcionários do governo. O resto dos elementos, obedecia.”
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É estranho isto, tendo em conta muitos dos comentários que fomos ouvindo por cá, de respeito, de eficiência, de liberdade e justiça.
Já não é muito estranho se tivérmos em conta que houve casas e carros queimados durante a campanha… se tivérmos em conta que o governo comprou todo o combustível disponível nas bombas de revenda bloquando assim a mobilidade aos partidos em campanha… Já não é estranho se tivérmos em conta que cada grupo que se encontrava para debater ou explicar eleições era vigiado, tinha de falar com o cuidado próprio de quem não pode ser muito claro.

Nada disto é muito estranho tendo em conta todos os antecedentes do país até ao tempo em que o território pertencia ao colono, curiosamente, Portugal… e neles, nos antecedentes, recordo-me de um banco português no seu marketing institucional organizando palestras de bom ambiente e justiça humanitária convidou um activista que disse que “Angola era gerida por criminosos”. O banco promotor depressa se apressou a desculpar-se a bem dos interesses do dinheiro, demarcando-se das declarações mais que verdadeiras de que Angola é de facto gerida por criminosos.
Pena que na ORBIS temos também os nossos recursos financeiros, sempre em trânsito é certo, em caminho para os projectos de desenvolvimento em que trabalhamos, guardados nesse mesmo banco. Não será por muito mais tempo. É que criminosos são os que matam e os que se ajoelham perante eles. De certa maneira, todos ficam manchados.
Viva a democracia, os Direitos cívicos e políticos! Viva o povo de Angola, o que luta todos os dias numa batalha desigual por uma vida melhor, mais justa e mais livre!
Viva os que nunca desistirão de sonhar, mesmo sabendo que o satélite pode ver tudo… arranjaremos sempre uma maneira de entrar e fazer o nosso trabalho, o dos direitos da humanidade consagrados também por governos soberanos que hoje mais não são que criminosos corruptos, mas que um dia sairão e o poder será enfim, do Povo!
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[1] Citação de informador imparcial e de plena confiança, não identificado a seu pedido.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Um Tribunal para julgar o que não se faz pela Pobreza!

É numa tónica de esperança que o mundo vai reconhecer a voz dos pobres contra a injustiça de que por vezes são vítimas.
A ONU irá divulgar no fim deste ano um Protocolo Opcional ao Pacto Internacional para os Direitos Económicos, Sociais e Culturais (PIDESC), que entrará em vigor quando for ratificado por dez dos países que assinaram o PIDESC.
Este protocolo opcional (esta opcionalidade e o veto do conselho de segurança são os dois problemas que fazem a ONU ser tão dispendiosa e com resultados tão abaixo desse investimento) inaugura um sistema jurídico de queixas semelhante ao que já existe em relação aos Direitos Civis e Políticos.
Ou seja... em teoria, os pobres vão ter voz! Vão poder comunicar abusos relativo às condições de vida a que são sujeitos como uma carga imobilizadora.
Será um reconhecimento equitativo de todos os Direitos consagrados na Declaração assinada à 60 anos. Até hoje não é possível exigir pelo poder da justiça que o mundo se empenhe no fim da pobreza ao contrário do que acontece no que respeita, e bem, aos sistemas políticos (mesmo com a redundância em nada dessas exigências em muitos casos: Zimbabwe...).
Os chefes dos Estados parte são obrigados aos Direitos civis e políticos conferidos pela Democracia. Os povos têm direito a dispôr deles mesmos, as eleições têm regras, as pessoas têm direito à sua cidadania, ao seu voto, têm direito a se candidatar. Se isso não for cumprido há mecanismos próprios de queixa.
No caso da pobreza, os Estados podiam sempre alegar não ter condições e capacidade para a erradicar.
O panorama vai mudar ligeiramente, porque também no futuro próximo os Direitos de 3ª geração terão de ser cumpridos sob responsabilidade e boa gestão dos líderes.
Os Estados terão de fazer tudo o que está ao seu alcance para combater a pobreza das suas populações. Sabemos que as desculpas e os contornos vão surgir rapidamente, mas fica o sinal, fica a esperança...
Toda a pessoa humana tem direito a uma vida condigna, tem direito às condições para que possa construir essa vida condigna. O mundo nunca foi tão próspero como hoje em alimento, em evolução tecnológica. Somos a primeira geração a ter soluções científicas, mensuráveis e metodológicas para erradicar a pobreza no mundo.
Temos todos os Direitos... mas não temos o Direito de nao fazer nada!...
Ou de fazer pior que isso: quando os líderes do G8 se reúnem para discutir pobreza e o fazem à mesa, recheada de turfas e outras iguarias e isso é público, isso é também um insulto.
O Protocolo não acaba com os pobres, mas pelo menos dar-lhes-á voz, ao menos para dizerem que existem e estão vivos...
... por enquanto e mesmo que ninguém os ouça do alto das suas mesas e soluções.
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O AVEIRO
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terça-feira, 10 de junho de 2008

A crise da globalização e os jovens que não querem saber de política

1. Roma, semana passada. Foi a cimeira da FAO, agência da ONU para a alimentação e agricultura. Reuniram-se vários chefes de Estado, mais do que aquele que seriam de esperar normalmente e algumas mais delegações de Estado. Foram representados 143 países.
Foi comovente o discurso de uma das dirigentes da organização anfitriã, não pelas estastíticas da fome ou das toneladas de arroz que não foram produzidas, mas por um gesto: apresentou uma tigela, daquelas de madeira que nós por aqui não vemos mas que no mundo do sul é omnipresente sempre que há a alegria de uma refeição. Dizia ela que enchê-la hoje, custa mais 40% do que o ano passado.
Algo vai mal quando acontece isso, neste caso, são várias as coisas que estão a falhar.
O recurso petróleo sobe, desce. Uns dizem que é uma bolha e que voltará aos 50 USD/barril. Outros dizem que não, que os preços não voltarão nunca mais ao que eram no passado. Uns dizem que as jazidas vão terminar em breve, outros que nunca se conheceram tantas (em quantidade do líquido) como agora. Uns dizem que polui, outros dizem que não há alternativa.
O que parece é que ninguém parece dizer o que diz com a objectividade necessária que os interesses prejudicam. Todos falam a partir do seu ponto de vista e ele geralmente é o coincidente com os seus investimentos.
Não podemos pensar o mundo assim, pelo nosso olhar apenas. Daí a riqueza da diversidade. É urgente ir ao encontro dos outros, da sua situação, seja ela uma realidade próxima ou distante.
É uma questão de justiça equilibrar a globalização e as deslocalizações que ela provoca, trazendo a instabilidade, a competição, a fome e a miséria social. Ontem foram fábricas nos EUA que vieram para cá. Hoje elas vão a caminho da Europa de Leste, numa altura em que competímos de carne para canhão com a China e a sua mão de obra escrava. Os serviços, o forte de Portugal, caminha para as outsorcing’s da Índia, de Cabo Verde, etc…
O Desenvolvimento de uns, dificuldades para outros, uma tensão permanente que dá demasiadas vezes em guerra e destruição. É isto que queremos como humanidade?...
O mundo é como um vaso com água a diferentes alturas outrora separadas pelas cortinas de ferro do proteccionismo.
As comportas dos mercados abriram-se e a água corre para os compartimentos onde antes não a havia. Mas isso é temporário, dura até ao equilíbrio da igualdade.
A água só correrá enquanto houver mobilidade. Para ela é necessária a energia, o petróleo, a comunicação. Sem isso voltamos aos (E)estados anteriores.
O mundo de hoje tem o desafio formidável de escolher o seu caminho e as suas prioridades.

2. Os jovens, herdeiros desse mundo, estão atentos a ele. Uns mais activistas, outros mais negociadores, uns pragmáticos, outros idealistas, outros ambos… São milhares que partem todos os anos em trabalho de voluntariado, o grosso dos colaboradores da ORBIS, são jovens; a Amnistia Interncional de Aveiro, são jovens, etc, etc. Esta é a sua maneira de fazer política, de se interessarem pela política. E é de facto a maneira original da política.
São muitos os que estão empenhados e a trabalhar em rede… Por isso aqueles que dizem que os jovens não querem saber de política, estão a mentir. Não querem saber é de tretas porque estão ocupados a trabalhar para mudar o mundo que vão herdar. Fique-se certo disso. Daqui a uns anos já se vai notar!

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O AVEIRO

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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Angolas de promessas adiadas…

Uma grande fortuna é uma grande servidão.
(Séneca)

1. Há alguns meses li num diário económico português uma entrevista do Presidente da Sonangol, que detém a exploração do petróleo em Angola, afirmar que a empresa tinha uma liquidez muito grande, ou seja, excesso de lucros, e por isso ia investir os rendimentos em empresas europeias. Que problema grave o deste senhor que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro que o petróleo dá…
Mais tarde, numa disputa entre a Sonangol e a Galp pela Enacol, de Cabo Verde, o mesmo senhor diz que não havia disputa nenhuma porque quem manda é a Sonangol (que é dona de parte da Galp). E se queriam o dinheiro angolano tinham que se sujeitar às regras que eles impusessem.
2. Há já algum tempo, esteve em Lisboa, bastante publicitado pelos media partner’s do evento, o activista e músico Bob Geldof. Como é sabido, na sua conferência bem paga por quem o ouviu em Lisboa, disse que “Angola é gerida por criminosos”. Grande escândalo! Apesar de todos sabermos que é a mais pura verdade, os patrocinadores e promotores apressaram-se a resolver o incidente diplomático em honra das relações comerciais que se podiam afectar. Também podemos chamar-lhe subserviência ou mesmo cumplicidade, ou mesmo didiotice… mas seria pouco delicado da nossa parte.
3. Na semana passada o presidente francês, Nicholas Sarkozy, em visita estratégica a Angola proporcionou um discurso triste e engasgado do seu homólogo anfitrião, José Eduardo dos Santos, que pedia à França ajuda para combater a pobreza do seu país! Espanto!
4. Será que alguém podia dizer ao presidente angolano que a empresa estatal (Sonangol) anda com excesso de lucros? Será que alguém explica a esses senhores que o petróleo, os diamantes, toda a riqueza do país é do país e não das pessoas que o senhor Bob Geldof dizia que geriam Angola, e que é esse dinheiro o que deve combater as desigualdades?
5. Homenagem ao povo Angolano, aqueles que por cidadania são soberanos em Angola, aqueles que sendo donos das riquezas naturais do país, não têm que comer, não têm acesso a cuidados de saúde, não têm acesso à educação, não têm acesso a nada… apenas à terra que os há-de acolher depois de morrerem de fome.
6. Homenagem a quem fala, a’O Aveiro inclusive que em 2004 publicou relatos do estado do país, com verdade e correndo todos os riscos e ameaças de quem dá voz a quem não a tem… em todas as Angolas deste mundo, promessas sempre adiadas por causa dos (…) que as gerem.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Pão para a boca e pão para o carro. Definir prioridades como um Direito Humano

Josett Sheeran, directora do PAM (UN), chamou-lhe o Tsunami Silencioso, pela morte que causa. Foi feliz no que disse ao catalogar a infelicidade do que está a acontecer no mundo do Sul… perdão, também já se estendeu ao hemisfério Norte.
Reportava na semana passada a organização ONE, que o preço combinado dos géneros que alimentam o mundo - o trigo, o arroz e o milho - aumentaram 83% nos últimos três anos.
Para as pessoas que vivem nos países economicamente menos desenvolvidos, ter como adquirir alimentação suficiente é uma luta diária. O New york Times referiu recentemente que no Haiti (o mesmo Haiti que temos por paraíso tropical de férias), as pessoas fazem bolos com lama, misturados com açúcares e óleo, tentando enganar assim a dor da fome. No Brasil do Nordeste e da Amazónia, as pessoas Sem Terra não têm onde cultivar suficiente para alimentarem a sua família. Com a subida descomunal dos preços, a vida torna-se muito mais difícil.
Pela primeira vez, o crescimento demográfico mundial é maior que a capacidade de produção alimentar. A maioria da população é urbana não agrária e o que parecia ser uma solução ecológica sustentável e capaz de quebrar a dependência do petróleo, os biocombustíveis, revela-se uma aposta falhada: a produção intensiva de cereais para combustíveis fez duas coisas: o nosso sistema económico fez disparar os seus preços, sejam os cereais para alimentação ou não. E a necessidade de produção acelerou a desflorestação.
Nas aldeias rodeadas de minas, de antigas (e mesmo actuais) guerras, o exercício da agricultura, ao menos de consumo é impossível a curto prazo.
Até aqui tínhamos a fome devido à guerra, a catástrofes naturais… a situações de emergência humanitária. Com esta crise temos uma triste novidade: a possibilidade bem real de não haver no mundo alimento suficiente para todos nós.
Quando referimos nós, é mesmo isso: nós humanidade, a África sempre referida pelos média, mas também a Europa, os EUA… o mundo ocidental que vive num grau de conforto óptimo! Com efeito, algumas das cadeias de hipermercados norte americanos na semana passada, racionaram a oferta e limitaram a compra de quantidades de arroz. Alguns países deste nosso continente e da Ásia cancelaram as exportações de arroz. Em mais de 80 países aconteceram protestos na rua pelo direito à alimentação.
Chega a hora em que o mundo tem de definir prioridades, tem de se ouvir e de se observar. O que salvaguardarmos hoje com algum esforço, poderá evitar o colapso de vidas, até aqui anónimas, mas não sabemos quanto tempo faltará para lhes podermos dar nomes…
O que podemos fazer do nosso canto não é muito mas é válido: poupar, utilizar e consumir com responsabilidade, educar os nossos a isso. Exercer pressão em grupos de influência que podem fazer algo de significativo, faz parte do Direito de Manifestação que democraticamente possuímos! Isto passa por exemplo, por assinar uma petição! Em www.one.org/hungercrisis pode-o fazer, tendo a certeza que a sua expressão de manifesto contra a fome e a especulação vai direita aos líderes do G8.
Junte-se à força de pessoas comuns… e juntos, teremos força para fazer coisas extraordinárias… por nós, pela nossa humanidade!
Bastam pouco mais que gestos para fazer a diferença! Só precisamos de nos desinstalar!
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O AVEIRO
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domingo, 20 de abril de 2008

Votar em Obama ou A atitude da Liderança

Um voto vale o que vale e, no mundo do ocidente, com o descrédito e a distância cada vez maior entre as pessoas comuns e os políticos, este exercício de cidadania é cada vez menos valorizado. Os políticos são todos iguais, vivem bem, mas em momentos de tensão perdem a cabeça, dizem disparates, não conduzem nada sem ser pela coacção e rudeza. Na maior parte das vezes falam sozinhos uns para os outros sobre assuntos que não interessam às pessoas comuns (parcerias público-privadas escolares com parques de estacionamento, campos de golfe e empreendimentos imobiliários com nome de resort turístico e outras empreitadas pessoais) ou então ainda pior, falam mal uns dos outros.
Vê-se pouca inteligência e muito menos humildade necessária ao poder dado pela responsabilidade do serviço público para melhoria de vida da comunidade.
As pessoas, fartam-se, mas têm esperança, sempre.
Nos Estados Unidos surge há alguns anos Barack Obama, um líder nato. Sóbrio nas alturas porventura mais difíceis, um homem que sabe ouvir as pessoas, os seus problemas e que mostra nisso sinceridade e honestidade, acima de tudo, um grande motivador. Por isso é que a sua força não é só dele, mas de todos os que se juntam a ele.
É por isso também que é seguido, merece confiança, vive no mundo das pessoas e coloca-se ao seu serviço, fá-lo com energia, esperança e envolvendo os cidadãos.
Foi por isso que, filho de emigrantes, nascido nos EUA, procurei pela primeira vez maneira de me registar e votar. Foi na terça-feira passada que o meu voto foi contado pela primeira vez, em Pennsylvania, onde vivíamos. À altura desta escrita, nem sei quem ganhou. Sei que, pela primeira vez, tive orgulho em fazer parte de um processo eleitoral.
A maioria dos senhores da causa pública cá deste Estado, perdoem-me: Os senhores não vivem no mesmo mundo que o resto de nós! É por isso que por vezes são ridículos, principalmente nas inverdades que dizem. Daí o desinteresse geral.
A política é a melhor e mais capaz arma para o Desenvolvimento do Mundo! Quem tem os meios, por favor, use-os para isso, com a responsabilidade que a confiança depositada de um voto significa!
Esperemos a Democracia, na sua verdade, o poder do povo!
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O AVEIRO
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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Um outro mundo para os meus alunos

Eu sou professor. Talvez isto já condicione a leitura, talvez já fique por aqui.
Se continua, obrigado pelo crédito e ao menos, o benefício da dúvida.
A Educação é assunto por excelência, de cooperação e de desenvolvimento. Enquadra-se neste espaço portanto.
À luz da convenção dos Direitos da Criança, o direito à educação é um dos grandes. Está directamente associado ao meta-direito humano do Desenvolvimento. Ele é, de facto, fundamental para o pleno desenvolvimento da personalidade humana enquanto indivíduo e enquanto ser que compõe a comunidade.
A escola de hoje não valoriza esse direito à educação. Ela é intelectualista e instrumentalista. Desvaloriza os saberes que constroem a personalidade da pessoa humana, remetendo-se às necessidades da economia e do mercado.
É ainda o espelho social da sua realidade, uma micro-sociedade, em si mesma e em cada sala de aula. Espelha o que traz da rua e de casa projectando o que será o futuro.
Tem os problemas sociais que a sociedade têm. Tem os avanços que a sociedade tem. Tem a dinâmica que a sua comunidade tem.
Não pertence a nenhum grupo específico. A escola também não é dos professores ou dos políticos que lhe querem dar rumo. A escola não é dos pais, não é dos alunos. Não há a escola dos ricos, dos pobres, dos teóricos que prosseguem estudos, não há a escola dos técnicos que vão para o profissional. Não há a escola do presidente da associação de pais, ou da mãe que sai cedo para a fábrica e regressa tarde depois do segundo emprego nas limpezas.
Há a escola da comunidade! De todos nós! Ninguém é culpado ou inocente das suas limitações porque todos somos implicados para as soluções.
Se houver um trabalho social forte, os problemas da disciplina são resolvidos. Se houver confiança, sentido de Estado e de Comunidade, perceberemos a educação como uma responsabilidade comum, como uma Missão de todos e deixaremos de perder tempo a preencher papéis que nos salvaguardem de possíveis ameaças futuras. Deixaremos o braço de ferro e passaremos de facto à Educação.
Frequentemente, nas aulas penso em qual será o mundo que deixarei aos que tenho à minha frente. Penso no meu testemunho de vida e no mundo que me foi deixado a mim e aí, o discernimento é claro: tenho de os ensinar a pensar, a formar grupo e a sonhar com um outro mundo, onde os jogadores da mesma equipa joguem todos para o mesmo lado… o das soluções.
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O AVEIRO
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segunda-feira, 17 de março de 2008

O mundo não é plano...

Faz hoje uma semana.
Vínhamos no caminho de regresso de uma visita de estudo de geografia. Íamos naquela altura em que a maior parte dos alunos já dormem de cansaço. As visitas de estudo são um tempo de alegria, mas são de facto aprendizagem pelos olhos adentro. Serão sempre uma grande oportunidade, enquanto o sistema permitir estas aulas no real world e não fechar o ensino à estufa da sala confinada de aula…
A aproveitar a calmia que o embalar do autocarro convidava, no ambiente do “está a terminar”, peguei no livro que já atrasado, é minha companhia.
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“O Mundo é Plano”, T. L. Friedman.
Mostra o lado bom da globalização, as oportunidades que se abriram em paralelo aos problemas da abertura de mercados e das vantagens oportunistas de empresas que se desdobram para países com mão-de-obra barata. Mostra que na Inglaterra se ligarmos para os bombeiros nos podem atender de um callcenter na Índia e que é nessa Índia que muitas das declarações de IRS são tratadas. Mostra que podemos comunicar facilmente com todo o mundo, que posso almoçar comida italiana, jogar futebol com uma bola feita na Coreia, com uns calções que vieram do México e o calçado feito na China.
A perspectiva do autor é a da oportunidade porque, com um mundo que se tornou plano, mais próximo, apesar das deslocalizações, do desemprego e da fábrica que fecha na Europa ou nos EUA… isso é só um momento de passagem a algo melhor!
De facto - eu sorvia esta novidade com o entusiasmo cativante que o colunista do NY Times imprime à sua escrita - o mundo é plano! – até que uma aluna me quebra o silêncio ao espreitar o livro:
- "O mundo é plano? Quem foi o burro que escreveu isso? Já há muitos séculos que sabemos que o mundo não é plano!"
Aquilo mexeu com as minhas convicções… mas infelizmente, a minha aluna tinha razão.
Perdão Sr. Friedman pelo insulto inocente, mas o que é certo é que o mundo ainda não é plano. Ele é cheio de montanhas e vales agrestes onde a pobreza grassa com tanta força que a oportunidade e a boa vontade não chegaram.
Só nalguns pequenos espaços, tem um planalto no topo, bem suave.
Visto daí, ou melhor, visto daqui, do pequeno planalto em que vivemos os 2% de população mundial mais ricos, o mundo parece plano e as refeições parecem certas para quase todos.
Só nós, os 2% é que até temos um PC pessoal no domicílio. O leitor quantos tem?!...
Pois, eu também me envergonho disso... para nós parece plano, parece.
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O Aveiro
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sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma fé inquieta... IV

Confissão

Senhor, meu Pai:
Perdoa-me.
Por mais que me esforce, não consigo ser bom suficiente para os níveis que Tu indicas (ou que indicam por Ti) como aceitáveis. Não consigo ser bom, ser santo. Nem chegar lá perto. Não consigo sequer ter essa postura de cabeça inclinada, mãos a direito.
Pela lógica, não tenho a mínima hipótese de ser salvo, é um facto. Mas… como é pela tua Graça que todos os seremos!
Penso que estou safo, tenho fé nisso como tenho na Tua ressurreição!
Por mais longe que esteja do aceitável (embora eu tente, a sério que tento!), o Teu Amor e a Tua Graça infinita vão resolver isto!

Senhor, meu Pai:
Dá-me entendimento.
Não compreendo porque é que nos havemos de matar uns aos outros por causa de petróleo que não passa de um líquido, de diamantes que não passam de pedras, de ouro que não passa de um metal…
Não compreendo porque é que criámos um sistema de troca de bens baseado na especulação.
Não compreendo porque é que por causa dessa especulação, o essencial à vida como o arroz, os cereais sobem de preço deixando à beira do abismo da fome quem já pisava os limites da vida.
Não compreendo porque dá tanto trabalho, porque é preciso apresentar tantos planos, tantos orçamentos previsionais, tantos impressos diferentes… só para se poder dar um pão a um pobre.
Não compreendo porque há pessoas que se aproveitam da Religião para fazer valer os seus interesses. Até dizem que matam em Teu nome! E há tantas maneiras de matar…
Não compreendo Senhor, porque às vezes nos sentimos com o dever cumprido porque fomos à oração por não sei o quê e saímos da capela de coração tranquilo por termos estado lá, tão felizes e contentes… e depois cá fora, não fazemos nada por esse não sei o quê por que Te rezámos antes…
Não compreendo porque desistimos tão facilmente.
Não compreendo porque é que na Igreja de Amor ao próximo que Tu quiseste fundar… é necessário um padre nomear o presidente dos acólitos da paróquia.
Não compreendo tantas estruturas, tantas hierarquias, tantos cargos e tantos nomes, presidentes, directores, direcções… da catequese, dos leitores, dos organizadores dos cálices para a Missa. Precisamos disso tudo? Nós que somos irmãos…

Não compreendo Senhor meu Pai, tantas fragilidades em mim, tanto cansaço para nada, tão pouco fulgor e desenvoltura para caminharmos em direcção ao que interessa, sem distinguir o que vale a pena do que não vale!
Não compreendo tanta complicação à volta da simplicidade do pão e do vinho, à volta da entrega na Cruz, com sacrifício e angústia por Amor.
Não compreendo sequer a minha ingenuidade em pensar que poderia ser de outro modo!
Não compreendo porque acontecem desgraças às pessoas boas? Porque morrem inocentes?... Alguns até perguntam porque O permites!

Já sei… liberdade! Foi uma das maiores coisas que nos deste! Se nos tiras isso, tiras-nos tudo! Até porque os inocentes que morrem, é pelas nossas opções erradas como humanidade… as mesmas do petroleo, dos diamantes, do fanatismo, e de tantos outros ‘ismos’.

Senhor, meu Pai:
Dá-me entendimento,
Para continuar a olhar as coisas boas, sinais de Ti, nas pessoas e no mundo!
Que elas me continuem a encantar,
Ao menos, tanto quanto as más me perturbam.
Dá-me meu Pai, o entendimento da Tua Graça!
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CORREIO DO VOUGA
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quinta-feira, 13 de março de 2008

O menino da Zâmbia.

Lwena, interior de Angola. Em 2004 trabalhei num campo de refugiados. Trabalhar não é bem o termo, mas não sei o verbo adequado ao sentimento da compaixão.
Compaixão não é ter pena de alguém. Longe disso. É viver paixão com, é sofrer com, é alegrar-se com, é cuidar com, é brincar com… Foi isto tudo que fiz com os refugiados daquele campo no meio de África, entregue a pessoas que tentavam dar a volta à História todos os dias, desde manhã até à noite, há um sem número de anos.
No campo de refugiados estava uma família que era de Benguela, antes das guerras. Para fugir delas percorreram caminhos sinuosos até conseguirem chegar à fronteira e atravessá-la para a Zâmbia.
O exílio naquele país foi de cerca de vinte anos, um quarto de vida, longe de tudo o que é seu.
Naquela família havia uma criança, o Piet’a. Tinha três ou quatro anos. Nasceu num campo de refugiados na Zâmbia e em 2004 cruzou-se com a minha vida, em Lwena.
Era um miúdo esperto, muito dado, mas seguro. Falava Chokwé e Inglês. Tinha aprendido nos campos de refugiados onde a sua família esteve, por ouvir falar os trabalhadores do ACNUR.
Não foi difícil conquistá-lo. Bastou mostrar-lhe a cara dele na máquina fotográfica e a brincadeira sucedeu-se.
Houve um dia em que cheguei bem cedo ao campo. Encontrei-o no largo de areia e troncos onde ficava a cantina. A cantina era o espaço, não eram infra-estruturas… era um sítio com troncos e lume sempre brando.
Estava a tomar um prato de papa de milho, invariavelmente o pequeno-almoço de todos os dias para enganar a barriga inchada. Insistiu que comesse também.
Sabia que ele comeria o prato todo sem se queixar, mas não aceitar não era opção para ele. A partilha valia mais e um amigo não pode ser amigo se não comer do mesmo prato.
Algum dias depois, cheguei de novo ao campo e ouvi um bom dia bem português. Em tão pouco tempo em Angola e já tinha conversas simples em três línguas.
Quando vim embora, não me despedi dele. Fiquei a vê-lo com a bola de futebol de longe. Deixei-lhe um papel para um dia ler, quando soubesse. Pedi-lhe que crescesse forte e sábio, que aproveitasse as dificuldades para aprender e que não desistisse nunca do caminho que traçasse e sonhasse para a sua vida.
Nunca mais ouvi nada do Piet’a. Não faço ideia se está vivo. Não faço ideia se está em Benguela dos seus antepassados ou noutro sítio da imensa Angola.
Gosto de pensar que ele hoje está bem. Que anda na escola, que à tarde depois de ajudar os pais, brinca com os aros de alguma bicicleta que já não exista. Gosto de o imaginar a brincar com os carros feitos de latas de salsichas, o que é um sinal de que ele comerá talvez salsichas.
Gosto de imaginar que a escola dele tem um quadro e giz e que ele não precisa de escrever com um pau na areia do chão. Gosto de o imaginar a ler o meu papel e a fazer dele caminho, a tornar-se num cidadão de pensamento livre, lutador para a construção de uma Angola mais justa, mais pacífica, onde os filhos dele não tenham de passar jamais aquilo que os pais dele passaram.
Um abraço menino, onde quer que tu estejas.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 5 de março de 2008

O homem que estava preso ao crescimento...

Vive-se contemporaneamente a obsessão do crescimento económico. A vida é medida por ele. O PIB tem de aumentar. O PNB tem de aumentar. Os investimentos têm de aumentar e eles só aumentam se o consumo também aumentar. A capacidade produtiva tem de aumentar para o país e o mundo ‘irem bem’. O mercado é para crescer sempre para ‘tu-comprares-sempre-mais-dos-meus-produtos-para-eu-poder-comprar-mais-produtos-também’ e assim ser mais rico ou ter mais riqueza… a dicotomia dos verbos abre a ambiguidade do progresso.

Desde há séculos que o homem deposita uma confiança cega num progresso renovado e sem cessar que o liberte das suas necessidades e pressões sociais. No entanto, alguns profetas verificam já que caminhamos para um ponto sem retorno em que a produção cessará porque a matéria prima acabará um dia. O planeta não é inesgotável. E depois… depois não se sabe.

Alterações climáticas, que dão em crescentes numéricas de catástrofes naturais. A concorrência entregue a si mesma que tende a comprometer a justiça, quer local, quer global. A injustiça que é a fonte principal da intolerância, da incompreensão que leva à guerra, ao fundamentalismo do terrorismo e ao desespero dos que são vítimas dele, quer por o colocar em acção ao nível mais básico, quer por vitimização casual do mesmo… local errado à hora errada.

O Desenvolvimento é o novo nome da Paz. O pensamento de Paulo VI é hoje actual como nunca. Teremos de, enquanto humanidade, encontrar um novo sistema económico que faça a gestão dos recursos do mundo com justiça, equilíbrio, sustentabilidade e renovado em si mesmo. Temos de perceber que a competitividade desenfreada não é o caminho a seguir. Pode dar riqueza a uma minoria hoje, mas no futuro levará à miséria de todos. Será que os nossos filhos poderão ter o nível de vida que hoje temos?
Em 1960 o economista Lebret já tinha percebido que o conta é o Homem, cada Homem até chegarmos à humanidade inteira. A economia deve existir para ele e não o contrário. O horizonte de prosperidade deve ser esse.
O Desenvolvimento deve ser integral, porque aumentar a produção, o consumo, a riqueza e os números das estatísticas dos PIB, PNB e outros índices só terá sentido em função do caminhar do Homem para um mundo sem gente que perde a vida por causa de petróleo, sem crianças desvalidas, não mais que ossos frágeis, incapazes de comer já pela fragilidade provocada pela fome incoerente, sem pessoas à procura de uma leira de terra para cultivar ou de um tecto para dormir, sem famílias refugiadas, incompletas por guerras e fracassos de diplomacias vazias… mas abastadas.
Que paradoxo este o do crescimento! “Apenas” precisamos de uma nova ordem económica que saiba partilhar e distribuir.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Cimeira da Esperança, na África escondida...

Foi no passado fim-de-semana.
Lisboa engalanou-se, muito exotismo, muitas cores, a partilha de muitos costumes, culturas, diálogos em línguas diferentes, aromas e sabores intensos e distintos… No fundo, reuniu-se a beleza que permite o contacto entre todos, de todo o mundo. A parte boa da globalização.
Gestos… alguns apenas simbólicos, outros mais significantes, mas gestos.
Cimeiras de chefes de Estado, cimeiras alternativas entre grupos de interesses e objectivos nobres, mais, ou menos radicais, mais, ou menos exequíveis. Tanto na oficial como na alternativa. Uns discutiam economia, proteccionismos ou abertura de mercados, outros direitos, alertas e caminhos. Conversa, bater de portas e apertos de mão não faltaram.

Mas a verdadeira cimeira, aconteceu em Angola, longe de Luanda e dos gabinetes extravagantemente luxuosos com vista para a Baía.
Foi no Moxico, uma província junto à Zâmbia, e começou há algum tempo. Mais ou menos um ano. Não é importante a precisão neste caso.
Foi numa aldeia no meio da floresta daquele extenso planalto, isolada durante a guerra. Quase nenhum dos adultos sabe ler ou escrever, apesar de saberem de outras coisas muito importantes da vida como a partilha e o crescimento sustentado.
Há um ano e pouco uns missionários levaram um camião de mandioca para essa aldeia que vivia em fome generalizada e constante.
As pessoas da aldeia prepararam parte da mandioca para se alimentarem. Outra parte, cultivaram-na. Hoje vivem bem, pelo menos do ponto de vista da fome. Mandioca gerou mandioca e há alegria, pelo menos nessa aldeia.
Há bem pouco tempo, noutra visita, os missionários falaram às pessoas da aldeia que noutra aldeia ainda mais distante, as pessoas passavam fome. Precisavam de ajuda urgente para sobreviver.
As famílias contribuíram todas sem excepção, com uma determinação e missão de dever comovente.
Na volta, depressa se encheu de novo o velho camião que já ali tinha vindo descarregar à pouco mais de um ano a uma aldeia faminta. Agora carregava, carregava de novo até à parte mais Cimeira do estrado de carga.
O camião foi até à outra aldeia, seguindo caminhos difíceis e estreitos, por vezes cumprimentados pelas estacas que anunciam campos de minas. Seguiu e chegou ao destino.
O resto da história, adivinha-se! É assim que acontece o desenvolvimento e ele tem sucesso como já explicam conceituados economistas. Jeffrey Sachs é o mais sonante.
Acabam assim as justificações para regulações macro-económicas intermináveis e parcerias altaneiras.
O desenvolvimento acontecerá, concertadamente é certo, mas a partir das bases. É lá que estão os pobres e eles não precisam de pena ou dos milhões que se anunciam nos microfones de outras cimeiras que não as do camião. Precisam tão só de oportunidades, tão só do ‘Empowerment’ para subirem a escada da vida.
Isto é tão simples que até envergonha se a geração actual falhar o primeiro Objectivo do Desenvolvimento do Milénio (erradicar a pobreza extrema do mundo) assinado em 2000 por centena e meia de países, sendo Portugal um deles… Penso até que a assinatura foi feita também numa cimeira!
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'O Aveiro', Fevereiro de 2008

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Uma fé inquieta... III

Inquietações avulso sem fio que mas conduza


1. Timor. Pude conhecer há alguns dias, por partilha dos mesmos bancos de estudo, um timorense que foi um dos históricos estudantes que em 1995 entraram embaixada da Nova Zelândia em Jacarta adentro, pedindo asilo político (cf. Artigo 1º da Convenção de Genebra, 1951).
A Nova Zelândia recusou o pedido do grupo com o argumento de que o seu cumprimento poderia azedar relações diplomáticas entre os dois países. Foi em desespero que ouviram a resposta.
Mas, é na esperança que somos salvos! Foram encaminhados pela Cruz Vermelha para Portugal. Este jovem é dedicado nos estudos do Direito. A garra e o olhar sempre atento, o apontamento a tomar-se. Aprende a justiça como um menino e irá praticá-la como um doutor.
Vê-se que é zelo de querer voltar ao seu país e ser um agente de mudança.
Parece pois um dos heróis da independência, pelo menos na atitude e mais talvez do que os actuais heróis: os guerrilheiros ou prisioneiros de outrora e agora nas lideranças do país.
Perderam a heroicidade. Será que esqueceram as causas que os moveram? Usam o país que “criaram” para se governar. Major Alfredo, Xanana, Ramos Horta ou outros que trocam cargos de Governo entre si… vivem todos na procura da mesma esfera de conforto.
Das mãos de voluntários em Timor vi uma vez fotografias da casa do então ministro Ramos Horta. Vi também na mesma ocasião algumas fotografias de casas simples e pobres, com as condições de vida do verdadeiro “Povo de Timor”. Acreditem, não encontrei semelhanças!
O major Reinado apenas procurava a sua parte dos proventos da “batalha da independência”, de maneira péssima, sim, mas afinal também ele fora um dos heróis guerrilheiros da independência e queria o mesmo que os outros colegas têm.
Semana passada. Uma entrevista da irmã de Ramos Horta que dizia, magoada pelo acto condenável perpetrado ao seu irmão: “É assim que pagam a quem lhes dá de comer…”
Primeiro espanto! Como perceber esta mentalidade que se apropria do bem comum de um país, que pertence a todos os cidadãos por direito e não apenas à elite que a administra como um pai-rico-que-dá-comida-ao-filho-na-miséria?

2. A minha mãe Igreja, caminha de novo na Quaresma. Desde Janeiro! Com efeito, a treze desse mês, o nosso Papa Bento XVI recuperou um modo que já não era utilizado desde o Vaticano II.
Celebrou de costas para o povo, na belíssima capela sistina. De costas não! De ‘frente para Deus e em respeito à beleza e harmonia da jóia arquitectónica’ que conjuga o altar móvel com o fresco de Miguel Ângelo, de acordo com o gabinete de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.
Segundo espanto! Quatro anos no Seminário e nem sabia (não aprendi) que existia um gabinete desses no Vaticano! Mas faz sentido!
Há também algum tempo, a comunidade de S. Pio X escreveu aos padres no sentido de lhes oferecer um CD em que se explicava correctamente o Motu Próprio e como o praticar sem falhar centímetros. Louva-se a iniciativa, na busca da perfeição da celebração da FESTA da Eucaristia!
A minha Igreja caminha na Quaresma mas, estou certo, a caminho da Páscoa da Ressurreição, porque Cristo não passou inutilmente pela Paixão!
Já só na esperança é que somos salvos… perdão, só na esperança é que fomos salvos!
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[1] Spe Salvi facti sumus. Tradução livre do Latim. Nunca fui bom na disciplina, também no Seminário.
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COOREIO DO VOUGA

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Última Hora: Dez Mil Europeus morreram ontem devido à Pobreza Extrema

Não é verdadeiro este título, mas faz-nos pensar. Imaginemos que ontem, neste continente politica e administrativamente unido pelo Tratado que se assina no próximo mês em Lisboa, teriam falecido dez mil pessoas devido à fome.
Na Europa teríamos de nos esforçar por pensar tal coisa inimaginável, mas se acontecesse, sem dúvida seria chocante.
A verdade é que números bem acima dos dez mil, morrem em África todos os dias por, imagine-se, não terem o que nós todos temos por garantido: a possibilidade de uma refeição. Não são números que morrem, são pessoas.
Dez mil pessoas na Europa morreram… Dez mil pessoas em África morreram. As duas frases têm pesos diferentes. Apesar disso, uma é fictícia, a outra é real.
Na vida chegamos a certos momentos que são reveladores, não pela análise de estatísticas, mas pelo que vivemos e vemos. Há meses estive longe desta nossa realidade segura. Retorno a esses dias em que ao longe ouvia, batuques furiosos que iluminam os espíritos da noite, junto com grilos e outros rugidos. Olho ao meu redor e através da malha fina de um mosquiteiro da UNICEF observo um lavatório onde não corre água, uma torneira de duche que apenas pinga. Sinto que estou bem, tenho um tecto agora e aguento-me apesar do estômago pouco composto.
Três dias antes dessa noite de silêncio barulhento não era assim. Perdido, mas encontrado, numa qualquer aldeia da África de Moçambique onde estive de visita com o propósito de ouvir, perceber a vida das pessoas, compreender-lhes as necessidades mais prementes para as combater com futuros projectos de ajuda. Passei alguns dias no mato, com as gentes sem pecado, do interior, vivendo da sua generosidade e acolhimento, da sua simplicidade, como o mundo era no princípio, quando as sociedades eram comunidades no sentido lato e nobre do termo.
Ao fim da primeira manhã dessa saída do meu mundo, tive fome, pensei eu. Senti, que queria comer!
E a comida veio. Uns bagos de arroz, um pouco de frango, a cortesia de um garfo, a companhia tímida primeiro.
Comi, recusar seria ofensa e o meu estômago pedia, um banquete que apenas ocupava um pouquinho da tigela de madeira.
Continuei com fome, pensei eu, mas nunca seria capaz de pedir mais. Aguentaria um pouco, como os ‘Sem Nome’ do hemisfério sul deste planeta aguentam a vida toda.
Aguentei até ao fim do dia, e depois até ao fim da manhã. Comi a “shima” e mais algumas coisas não próprias de se dizerem alto. Sempre em pequenas quantidades, mas sempre do melhor que tinham para dar, pois a Graça do acolhimento dos pobres é maior que a riqueza dos ricos.
O meu estômago, queixou-se, doeu e fraquejou… mas não foi Fome…
Quando se tem fome, o tempo passa devagar, a Terra não gira, o Sol não se põe e o sono não descansa.
Quando se tem Fome, o Mundo parece outro sítio porque o apetite que sentimos fica diferente. É uma fome mas de um tipo que não conhecemos porque nunca estivemos no chão sem força para nos levantarmos, sujeitos a tudo e à espera de nada.
Ter fome, não sei o que é, só os meus olhos lá passaram uns dias… e hoje estou aqui a escrever e alguém a ler. Ao mesmo tempo que a cada minuto alguém parte para a eternidade, porque não teve que comer… é isto, dia após dia, bem longe dos nossos olhos europeus bem abastados de excessos.
Estes momentos, são reveladores, toldam-nos a vista e enchem-nos as mãos de força para em conjunto, mudarmos o mundo… ficar parado não é opção, não enquanto isto acontecer!
A todos nós urge a acção de contrariar esta realidade sem sentido, de um mundo que permite a subida do preço dos cereais porque mais procurados para combustíveis… enquanto que quem precisa deles para se alimentar já não os pode comprar. Não, não podemos tolerar isto num mundo civilizado, dinâmico e evoluído, onde semeamos o valor da paz e da justiça e morra a cada três segundo uma pessoa como nós… de fome…
Sabe o que é isso? Sabe quantas pessoas morreram disso desde que me começou a ler?
É só fazer as contas… mas não são números, são pessoas.
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'O Aveiro', Fevereiro de 2008
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Política ao serviço das pessoas

Nos Estados Unidos da América está ao rubro a escolha de uma pessoa que poderá em breve vir a ser influente no que é a vida de muitas pessoas no Mundo - não só dos cidadãos desse país que vivem dentro ou fora dos EUA, mas de todos nós.
Será o próximo residente da Casa Branca, que vem substituir, finalmente, um que fez com que não seja fácil ser-se americano no mundo hoje e que de facto, deixa as coisas piores do que quando as encontrou.
As Primárias dos Partidos Republicano e Democrata começam a ser votadas em Janeiro. No meio de muitos candidatos, conservadores ou liberais, há um que se destaca na sua postura. Talvez não nas sondagens do momento ou no poder que representa através de interesses corporativos ou lobbistas.
Barack Obama. É filho de um queniano e de uma americana, nascido no Estado do Hawai. É senador dos Estado Unidos pelo estado do Illinois. Começou a sua carreira política, no sentido nobre do termo, como mediador nas comunidades mais pobres de Chicago. Fazia esse trabalho para conseguir pagar os seus estudos em Harvard. Lá aprendeu sobretudo, a vida com as pessoas reais que o sistema económico esqueceu de inserir na sua tigela, mas cujas vidas têm tanto valor como qualquer outra do mundo.
Hoje anda a correr as primárias do Partido Democrata. Não quer governar sozinho, parece chamar as pessoas a essa responsabilidade e dedica-se a elas e aos seus problemas e questões.
Não foi para isto mesmo que a Política foi criada?!
Não foi para os milhões de pessoas que todos os dias fazem pela vida? Que são empregados ou procuram trabalho, que empreendedores, lançam os seus próprios negócios ou ideias, que enfrentam contas da energia e combustível cada vez mais elevadas, que descontam para uma Segurança Social que cada vez mais parece ineficaz, que perdem direitos, alguns justos outros nem tanto e que cada vez confiam menos na Política, que foi criada para os ajudar mas que vêem a maior parte dos políticos a governar(-se) em vez de estarem comprometidos na construção de um Mundo e vida melhores para os milhões de pessoas de que estão ao serviço.
Obama, parece caminhar para outro lado diferente. É isso que inspira, mas talvez seja por isso mesmo que não alcance tão cedo os objectivos a que se propõe. Parece não viver para o partido, não viver para as ideologias mas para as pessoas, as pessoas comuns, por ventura anónimas, para as famílias, para os pobres, para os ricos, para a justiça, não a dos tribunais, mas a da vida.
Seja nos EUA, na Europa, em Portugal, e mais particularmente nas nossas terras, a imagem é a mesma.
As vontades dominantes parecem as mesmas e as pessoas continuam com um futuro muitas vezes incerto por mais que batalhem na vida e porque não temos quem nos represente, quem esteja a sério e comprometidamente para o combate dos verdadeiros problemas do mundo e das pessoas: Pobreza, exclusão, ambiente, igualdade de oportunidades… infelizmente, é uma lista demasiado grande.
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'O Aveiro', Janeiro de 2008

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Moçambique... de novo inundado.

Nunca estive em Moçambique por esta altura do ano. Talvez por isso me seja difícil imaginar como ele é agora. Talvez verde, as ervas amarelas do chão são verdes, as árvores e a floresta imperará com o verde da natureza.
Durante o período de seca, quando estive pelo Norte e Centro de Moçambique, a água era pouca, mesmo a que corria nos grandes rios do Zambeze e Limpopo. As torneiras comuns de água tinham sempre grande animação de mulheres e crianças à espera de vez para encherem os seus baldes e bacias de água para beber, cozinha e lavar. Os do governo, parece brincadeira, mas a canalização que existia foi feita em função das suas casas. Mas quando algum motor de puxar água do rio falhava, todos ficavam sem água. O serviço era remediado com cisternas móveis que se pagavam bem. Pelo que muitas pessoas tinham de passar a fazer quilómetros para ir ao rio.
Custa-me imaginar Moçambique agora, custa-me a imaginar este mundo de contrastes absolutos: seca, cheia…
As aldeias, por necessidade de localização das machamabas, as terras de cultivo, são o mais próximo do rio possível, muitas delas dentro do leito quaternário dele. Depois no Inverno austral, nem a barragem de Cahora Bassa consegue suster a água e evitar desastres.
Todos os anos, pelo mês de Janeiro. Repete-se o eco da desgraça, das inundações, da fome, dos desalojados. A pintura tem sempre cores muito carregadas e cinzentas.
Este ano já se conta 13 mil pessoas desalojadas, 56 mil afectadas. Os números não são pesados se não pensarmos que são pessoas, como nós. São vidas que vêem a sua dispensa: a machamba, coberta de água, as suas casas, tudo o que vão juntando.

Mas todos os anos, incompreensivelmente caímos no mesmo, todos os anos gasta-se mais dinheiro a resolver o mesmo problema, a tapar o mesmo buraco, até ao ciclo de cheias do ano seguinte.
Não é sustentável. Nem por razões económicas, em segundo lugar, nem por razões humanitárias… humanas, em primeiro.
Há o perigo de vida real das pessoas e depois a fome, a interminável e sofrida fome que fragiliza ainda mais quem já é muito frágil.
Depois do perigo, virá de novo o sol e a seca. Mais uma vez o negócio dos tijolos será bom, pois infelizmente há sempre muito a reconstruir.
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'O Aveiro', Janeiro de 2008
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A Missão dos Pequeninos…

“Luta pela Felicidade de todas as crianças deste Mundo…
E também Tu serás muito Feliz!”


Era a frase chave que se lia no panfleto entregue às pessoas naquela paróquia. De um lado tinha essa ideia, do outro, um cântico: “Amar como Jesus Amou”. Afinal, tanto um lado como outro falavam da mesma coisa. A paróquia era um bocadinho distante do centro, encostada à fronteira da nossa Diocese, num meio rural e simples onde as pessoas ao Domingo vão sobretudo buscar esperança para uma vida de trabalho semana a semana, nos campos, na indústria, no comércio… Onde for possível.
Foi no Domingo passado, o dia dos Reis, também o dia da Santa Infância Missionária, uma das obras pontifícias missionárias.
Era cedo e estava frio, mas a Igreja estava composta.
Pode parecer um bocadinho puxar a brasa à minha sardinha (perdoem-me), de facto não posso negar a admiração que tenho pelas pessoas que comigo vão trabalhando no SDAM e na ORBIS com empenho, disponibilidade e lucidez. Mas esta frase, é uma daquelas mesmo bem conseguidas!
Costuma-se dizer que bom orador é aquele que no mesmo discurso consegue dar alguma coisa nova a quem o escuta, quando na mesma assembleia está um professor catedrático e uma criança!
Esta frase é um desses discursos. É simples, óbvia, toda a gente a sabe (ou devia), contém uma verdade insondável e complexa, mas um miúdo entende-a à primeira!
É de facto um dos segredos mais mal guardados de que há memória, mas por se saber tão mal guardado e tão óbvio é que parece continuar a ser segredo:
“Queres ser feliz? Então luta pela felicidade dos outros!”
Não é o que todos procuramos? Sermos felizes? Nas correrias do dia-a-dia, nas milésima reunião da semana, no registo em acta de tudo o que é acção que se faça, no passar por cima do outro para chegar primeiro, no cansaço, no stress, na força, no entusiasmo, na competição, no protagonismo que alguns insanamente procuram? Esta confusão toda na sociedade… não para sermos felizes que a fazemos?
Vêm agora estes miúdos mandar abaixo toda esta estrutura complicada: “Luta pelos outros e também tu serás feliz!”
São miúdos de palmo e meio que fazem um caminho, em algumas paróquias.
A vida deles não é mais que o comum casa-escola-actividades-catequese-rasgar-as-calças-a-jogar-à-bola-e-abrir-horizontes! Olhar além para África, América Latina… São outras fronteiras.
Sabem que ainda não podem ir para lá fazer nada. Sabem mesmo e têm consciência de que não podem fazer muito. Mas o pouco que podem, fazem-no. Juntam uma ou duas moedas, fazem uma pequena oração. Escutam com ouvidos atentos notícias de crianças como eles, mas de outros hemisférios de vida. Quando lhes perguntamos, são embaixadores entusiásticos da causa, na consciencialização que já transmitem às pessoas! E espantemo-nos, não são mais do que crianças a ajudar crianças… outro dos slogans.
Imagino estes pequeninos quando tiverem a força e os meios que os grandes têm. O mundo vai mudar e talvez todos sejam mesmo felizes.
Nem é muito complicado, basta cumprir a frase dali de cima!
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COOREIO DO VOUGA, Janeiro de 2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Para quando a vez das Pessoas...

Foi há dias que ouvi uma expressão feliz, mas triste, na verdade que encerra no mundo:
A nobreza, o clero e o povo… acabaram.
As classes altas, médias e baixas… acabaram.
Agora há os pagadores de impostos e os que os gerem e deles beneficiam.

1. As políticas de desenvolvimento internacionais, da erradicação da pobreza, da luta contra a fome nunca são definidas ou estipuladas por quem vive os problemas. Em África não são os pobres a decidir como aplicar os fundos, não são as ONG’s a determinar pelo que observam no terreno, em que frentes actuar, não são os sem terra da América Latina a definir o conceito de justiça, nem eles a quantificar o que lhes foi tirado, nem o que lhes será dado, que geralmente é nada.
É sempre o executivo europeu ou americano, com bonitas teorias que impõe as coisas. Se não for para isto, não há dinheiro. Se não houver boa governação, não há dinheiro. Se for para aquilo e se não seguir o programa definido na secretária de uma sala de uma qualquer capital do hemisfério norte, paciência, não há dinheiro.
As pessoas, essas, lá vão sofrendo e aguentando.

2. Eleições no Quénia. Já quase não estranhamos que o prato seguinte seja a violência. Os que vencem dizem que os Quenianos que perdem não são maduros na democracia e, por isso, não aceitam os resultados. Do outro lado, os que perdem dizem que a democracia é madura e por isso não aceitam fraudes eleitorais.
As pessoas, essas, lá vão sofrendo e aguentando.

3. Na semana passada, num dos noticiários do horário nobre, o jornalista dizia que o sistema das primárias nos EUA era muito arcaico porque as pessoas, qualquer uma das que estivesse filiada podia participar na escolha do candidato do seu partido à Casa Branca, depois de uma noite de debate e reflexão no Caucus.
Nem de propósito, a vitória expressiva no Iowa, foi de Barack Obama o único que não aceita para a sua campanha um cêntimo de dólar vindo de empresas ou interesses corporativos. Será o início da mudança?!

4. De facto, Portugal é mais evoluído! Quem é a pessoa, aquela que sabe o que custa encher o depósito do carro, aquela que tem um ou dois empregos para manter um filho na universidade, aquela que estuda toda a vida para ir para o desemprego, aquela que faz contas para conseguir pagar electricidade, telefone e o empréstimo da casa sempre crescente… que tem oportunidade de ter alguma coisa a dizer na escolha dos candidatos da Junta, da Câmara, de S. Bento ou de Belém?!
No nosso país, só tem voto de nomeação uma meia dúzia deles, que representam interesses e estratégias no jogo das influências e na gestão dos impostos, porque estes, quem os paga, são as pessoas, as mesmas de sempre.
As pessoas, essas… para quando a sua vez?
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'O Aveiro', Janeiro de 2008
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