segunda-feira, 17 de março de 2008

O mundo não é plano...

Faz hoje uma semana.
Vínhamos no caminho de regresso de uma visita de estudo de geografia. Íamos naquela altura em que a maior parte dos alunos já dormem de cansaço. As visitas de estudo são um tempo de alegria, mas são de facto aprendizagem pelos olhos adentro. Serão sempre uma grande oportunidade, enquanto o sistema permitir estas aulas no real world e não fechar o ensino à estufa da sala confinada de aula…
A aproveitar a calmia que o embalar do autocarro convidava, no ambiente do “está a terminar”, peguei no livro que já atrasado, é minha companhia.
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“O Mundo é Plano”, T. L. Friedman.
Mostra o lado bom da globalização, as oportunidades que se abriram em paralelo aos problemas da abertura de mercados e das vantagens oportunistas de empresas que se desdobram para países com mão-de-obra barata. Mostra que na Inglaterra se ligarmos para os bombeiros nos podem atender de um callcenter na Índia e que é nessa Índia que muitas das declarações de IRS são tratadas. Mostra que podemos comunicar facilmente com todo o mundo, que posso almoçar comida italiana, jogar futebol com uma bola feita na Coreia, com uns calções que vieram do México e o calçado feito na China.
A perspectiva do autor é a da oportunidade porque, com um mundo que se tornou plano, mais próximo, apesar das deslocalizações, do desemprego e da fábrica que fecha na Europa ou nos EUA… isso é só um momento de passagem a algo melhor!
De facto - eu sorvia esta novidade com o entusiasmo cativante que o colunista do NY Times imprime à sua escrita - o mundo é plano! – até que uma aluna me quebra o silêncio ao espreitar o livro:
- "O mundo é plano? Quem foi o burro que escreveu isso? Já há muitos séculos que sabemos que o mundo não é plano!"
Aquilo mexeu com as minhas convicções… mas infelizmente, a minha aluna tinha razão.
Perdão Sr. Friedman pelo insulto inocente, mas o que é certo é que o mundo ainda não é plano. Ele é cheio de montanhas e vales agrestes onde a pobreza grassa com tanta força que a oportunidade e a boa vontade não chegaram.
Só nalguns pequenos espaços, tem um planalto no topo, bem suave.
Visto daí, ou melhor, visto daqui, do pequeno planalto em que vivemos os 2% de população mundial mais ricos, o mundo parece plano e as refeições parecem certas para quase todos.
Só nós, os 2% é que até temos um PC pessoal no domicílio. O leitor quantos tem?!...
Pois, eu também me envergonho disso... para nós parece plano, parece.
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O Aveiro
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sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma fé inquieta... IV

Confissão

Senhor, meu Pai:
Perdoa-me.
Por mais que me esforce, não consigo ser bom suficiente para os níveis que Tu indicas (ou que indicam por Ti) como aceitáveis. Não consigo ser bom, ser santo. Nem chegar lá perto. Não consigo sequer ter essa postura de cabeça inclinada, mãos a direito.
Pela lógica, não tenho a mínima hipótese de ser salvo, é um facto. Mas… como é pela tua Graça que todos os seremos!
Penso que estou safo, tenho fé nisso como tenho na Tua ressurreição!
Por mais longe que esteja do aceitável (embora eu tente, a sério que tento!), o Teu Amor e a Tua Graça infinita vão resolver isto!

Senhor, meu Pai:
Dá-me entendimento.
Não compreendo porque é que nos havemos de matar uns aos outros por causa de petróleo que não passa de um líquido, de diamantes que não passam de pedras, de ouro que não passa de um metal…
Não compreendo porque é que criámos um sistema de troca de bens baseado na especulação.
Não compreendo porque é que por causa dessa especulação, o essencial à vida como o arroz, os cereais sobem de preço deixando à beira do abismo da fome quem já pisava os limites da vida.
Não compreendo porque dá tanto trabalho, porque é preciso apresentar tantos planos, tantos orçamentos previsionais, tantos impressos diferentes… só para se poder dar um pão a um pobre.
Não compreendo porque há pessoas que se aproveitam da Religião para fazer valer os seus interesses. Até dizem que matam em Teu nome! E há tantas maneiras de matar…
Não compreendo Senhor, porque às vezes nos sentimos com o dever cumprido porque fomos à oração por não sei o quê e saímos da capela de coração tranquilo por termos estado lá, tão felizes e contentes… e depois cá fora, não fazemos nada por esse não sei o quê por que Te rezámos antes…
Não compreendo porque desistimos tão facilmente.
Não compreendo porque é que na Igreja de Amor ao próximo que Tu quiseste fundar… é necessário um padre nomear o presidente dos acólitos da paróquia.
Não compreendo tantas estruturas, tantas hierarquias, tantos cargos e tantos nomes, presidentes, directores, direcções… da catequese, dos leitores, dos organizadores dos cálices para a Missa. Precisamos disso tudo? Nós que somos irmãos…

Não compreendo Senhor meu Pai, tantas fragilidades em mim, tanto cansaço para nada, tão pouco fulgor e desenvoltura para caminharmos em direcção ao que interessa, sem distinguir o que vale a pena do que não vale!
Não compreendo tanta complicação à volta da simplicidade do pão e do vinho, à volta da entrega na Cruz, com sacrifício e angústia por Amor.
Não compreendo sequer a minha ingenuidade em pensar que poderia ser de outro modo!
Não compreendo porque acontecem desgraças às pessoas boas? Porque morrem inocentes?... Alguns até perguntam porque O permites!

Já sei… liberdade! Foi uma das maiores coisas que nos deste! Se nos tiras isso, tiras-nos tudo! Até porque os inocentes que morrem, é pelas nossas opções erradas como humanidade… as mesmas do petroleo, dos diamantes, do fanatismo, e de tantos outros ‘ismos’.

Senhor, meu Pai:
Dá-me entendimento,
Para continuar a olhar as coisas boas, sinais de Ti, nas pessoas e no mundo!
Que elas me continuem a encantar,
Ao menos, tanto quanto as más me perturbam.
Dá-me meu Pai, o entendimento da Tua Graça!
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CORREIO DO VOUGA
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quinta-feira, 13 de março de 2008

O menino da Zâmbia.

Lwena, interior de Angola. Em 2004 trabalhei num campo de refugiados. Trabalhar não é bem o termo, mas não sei o verbo adequado ao sentimento da compaixão.
Compaixão não é ter pena de alguém. Longe disso. É viver paixão com, é sofrer com, é alegrar-se com, é cuidar com, é brincar com… Foi isto tudo que fiz com os refugiados daquele campo no meio de África, entregue a pessoas que tentavam dar a volta à História todos os dias, desde manhã até à noite, há um sem número de anos.
No campo de refugiados estava uma família que era de Benguela, antes das guerras. Para fugir delas percorreram caminhos sinuosos até conseguirem chegar à fronteira e atravessá-la para a Zâmbia.
O exílio naquele país foi de cerca de vinte anos, um quarto de vida, longe de tudo o que é seu.
Naquela família havia uma criança, o Piet’a. Tinha três ou quatro anos. Nasceu num campo de refugiados na Zâmbia e em 2004 cruzou-se com a minha vida, em Lwena.
Era um miúdo esperto, muito dado, mas seguro. Falava Chokwé e Inglês. Tinha aprendido nos campos de refugiados onde a sua família esteve, por ouvir falar os trabalhadores do ACNUR.
Não foi difícil conquistá-lo. Bastou mostrar-lhe a cara dele na máquina fotográfica e a brincadeira sucedeu-se.
Houve um dia em que cheguei bem cedo ao campo. Encontrei-o no largo de areia e troncos onde ficava a cantina. A cantina era o espaço, não eram infra-estruturas… era um sítio com troncos e lume sempre brando.
Estava a tomar um prato de papa de milho, invariavelmente o pequeno-almoço de todos os dias para enganar a barriga inchada. Insistiu que comesse também.
Sabia que ele comeria o prato todo sem se queixar, mas não aceitar não era opção para ele. A partilha valia mais e um amigo não pode ser amigo se não comer do mesmo prato.
Algum dias depois, cheguei de novo ao campo e ouvi um bom dia bem português. Em tão pouco tempo em Angola e já tinha conversas simples em três línguas.
Quando vim embora, não me despedi dele. Fiquei a vê-lo com a bola de futebol de longe. Deixei-lhe um papel para um dia ler, quando soubesse. Pedi-lhe que crescesse forte e sábio, que aproveitasse as dificuldades para aprender e que não desistisse nunca do caminho que traçasse e sonhasse para a sua vida.
Nunca mais ouvi nada do Piet’a. Não faço ideia se está vivo. Não faço ideia se está em Benguela dos seus antepassados ou noutro sítio da imensa Angola.
Gosto de pensar que ele hoje está bem. Que anda na escola, que à tarde depois de ajudar os pais, brinca com os aros de alguma bicicleta que já não exista. Gosto de o imaginar a brincar com os carros feitos de latas de salsichas, o que é um sinal de que ele comerá talvez salsichas.
Gosto de imaginar que a escola dele tem um quadro e giz e que ele não precisa de escrever com um pau na areia do chão. Gosto de o imaginar a ler o meu papel e a fazer dele caminho, a tornar-se num cidadão de pensamento livre, lutador para a construção de uma Angola mais justa, mais pacífica, onde os filhos dele não tenham de passar jamais aquilo que os pais dele passaram.
Um abraço menino, onde quer que tu estejas.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 5 de março de 2008

O homem que estava preso ao crescimento...

Vive-se contemporaneamente a obsessão do crescimento económico. A vida é medida por ele. O PIB tem de aumentar. O PNB tem de aumentar. Os investimentos têm de aumentar e eles só aumentam se o consumo também aumentar. A capacidade produtiva tem de aumentar para o país e o mundo ‘irem bem’. O mercado é para crescer sempre para ‘tu-comprares-sempre-mais-dos-meus-produtos-para-eu-poder-comprar-mais-produtos-também’ e assim ser mais rico ou ter mais riqueza… a dicotomia dos verbos abre a ambiguidade do progresso.

Desde há séculos que o homem deposita uma confiança cega num progresso renovado e sem cessar que o liberte das suas necessidades e pressões sociais. No entanto, alguns profetas verificam já que caminhamos para um ponto sem retorno em que a produção cessará porque a matéria prima acabará um dia. O planeta não é inesgotável. E depois… depois não se sabe.

Alterações climáticas, que dão em crescentes numéricas de catástrofes naturais. A concorrência entregue a si mesma que tende a comprometer a justiça, quer local, quer global. A injustiça que é a fonte principal da intolerância, da incompreensão que leva à guerra, ao fundamentalismo do terrorismo e ao desespero dos que são vítimas dele, quer por o colocar em acção ao nível mais básico, quer por vitimização casual do mesmo… local errado à hora errada.

O Desenvolvimento é o novo nome da Paz. O pensamento de Paulo VI é hoje actual como nunca. Teremos de, enquanto humanidade, encontrar um novo sistema económico que faça a gestão dos recursos do mundo com justiça, equilíbrio, sustentabilidade e renovado em si mesmo. Temos de perceber que a competitividade desenfreada não é o caminho a seguir. Pode dar riqueza a uma minoria hoje, mas no futuro levará à miséria de todos. Será que os nossos filhos poderão ter o nível de vida que hoje temos?
Em 1960 o economista Lebret já tinha percebido que o conta é o Homem, cada Homem até chegarmos à humanidade inteira. A economia deve existir para ele e não o contrário. O horizonte de prosperidade deve ser esse.
O Desenvolvimento deve ser integral, porque aumentar a produção, o consumo, a riqueza e os números das estatísticas dos PIB, PNB e outros índices só terá sentido em função do caminhar do Homem para um mundo sem gente que perde a vida por causa de petróleo, sem crianças desvalidas, não mais que ossos frágeis, incapazes de comer já pela fragilidade provocada pela fome incoerente, sem pessoas à procura de uma leira de terra para cultivar ou de um tecto para dormir, sem famílias refugiadas, incompletas por guerras e fracassos de diplomacias vazias… mas abastadas.
Que paradoxo este o do crescimento! “Apenas” precisamos de uma nova ordem económica que saiba partilhar e distribuir.