Aula Inaugural do XI Curso de Pós-Graduação em Direitos Humanos
Faculdade de Direito - Universidade de Coimbra
Faculdade de Direito - Universidade de Coimbra

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(Aproximadamente isto... sem papéis lidos, foi neste "papel" que se preparou antes.
Na hora, saiu o que tinha de sair, talvez melhor, talvez pior...)
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Caros auditores do XI curso de Pós-Graduação em Direitos Humanos,
Exmos Srs Professores Vital Moreira e Jónatas Machado,
Professora Carla,
Dr. Eurico,
Agradecer-vos o convite para estar aqui hoje a falar-vos da importância crescente dos Direitos Humanos como ferramenta, por excelência, do Direito para a construção de um mundo melhor e como tem sido, nessa qualidade utilizado para isso na minha vida e nas funções que exerço entre os meus pares.
A Faculdade de Direito de Coimbra tem lugar cativo na História, esta mesma sala onde decorre a PG assistiu a centenas de debates sobre Direitos Humanos. É um orgulho enorme poder estar desse lado como estive enquanto aluno. É uma honra gigantesca poder estar aqui deste lado.. por todas estas razões e porque... (quem estave cá o ano passado com o papel desta parte foi a Embaixadora Ana Gomes!!!)
A escolha dos DH começou a desenhar-se nas minhas opções em 2004 quando estive em Angola, a trabalhar como voluntário num campo de refugiados, neste caso de retornados, porque se tratavam de pessoas que vinham da Zâmbia onde foram refugiadas durante cerca de 20 anos que durou a guerra civil em Angola.
Terminada em 2002, os comboios das Nações Unidas eram frequentes, e em Lwena, onde eu estava, era o segundo campo que encontravam do lado de cá da fronteira e era onde se registavam como cidadãos regressados, era onde tinham a primeira refeição quente desde há tempos que eu nem sequer imagino.
Estas pessoas não tinham nada de seu a não ser a roupa vestida, um saco ou dois das Nações Unidas (ACNUR) com alguns haveres, alguma galinha ou cabrito.
As crianças diziam-se angolanas, mas todas elas tinham nascido na Zâmbia, nos campos de refugiados, mas mesmo assim... Angolanas...
No ano seguinte, em 2005 passei algum tempo a viver numa comunidade do movimento dos sem terra em Belém do Pará na Amazónia, onde está neste momento a começar o Fórum Social Mundial, eram pessoas que por uma razão ou outra eram expulsas daquilo que tinham por suas casas, fossem expropriadas pelos grandes fazendeiros e pelas cumplicidades políticas locais ou fossem em fuga da pobreza, a correr para as cidades à procura de melhor vida.
Mas gente cuja sabedoria era a da terra... não tinham meios de subir os degraus do desenvolvimento por si mesmas e arranjar um emprego numa fábrica ou numa caixa de supermercado, nem os mais novos iam à escola, a integração não era fácil....
O que mais mexeu comigo naquelas pessoas foi a postura perante a vida. Nada de culpar ninguém, não queriam saber dos senhores da guerra, não queria lamentar terem perdido casas pela violência da guerra ou pela burocracia dos registos de propriedade...
Queriam apenas avançar com a vida, aproveitar o amanhã, construir, reconstruir para os filhos que carregavam atrás de si.
O olhar delas. O olhar delas atemorizava, cheio de esperança em mim e nos que estavam comigo, como se as fossemos tirar do desespero e abrir-lhes portas.
E eu a saber que pouco ou nada podia fazer.
Nos anos seguintes mais algumas Missões e sempre a mesma sensação de vontade de amanha, sempre a impotência e a esperança, e o medo de não estar à altura das necessidades daquela gente.
Em 2007 candidatei-me a esta PG, em 2008, no dia 25 de Janeiro, a aula inaugural.
A porta férrea, a biblioteca joanina, a torre, a praça..... Alguns dos nomes que construíram e constróem o nosso país passaram por aqui a estudar e a ensinar. Muitas soluções e caminhos foram aqui sonhados e pensados.
Nas primeiras aulas passei algum tempo pasmado a olhar para os tectos, os frescos, as esculturas, os livros, as pessoas, as paredes. São muito pesadas as paredes, com uma herança bastante grande.
A constelação de professores no programa da Pós-Graduação era impresssionante, desde figuras da vida política, académica, de organizações da sociedade civil.
Todos com histórias de vida e trabalho impressionantes.
Assim como também alguns colegas da P-G... a Áua, da Guiné Bissau que era advogada e trabalhava no Ministério da Educação. Começou a perceber a certa altura que as bolsas de estudantes eram encaminhadas para os relacionados com as forças políticas.
Denunciou isso à justiça, mas não teve hipótese e acabou por se demitir do Ministério.
Começou a trabalhar por conta própria e o trabalho dela era defender cidadãos particulares que tivessem sido vítimas, de alguma forma do governo.
Como imaginam, não teve de novo, muito sucesso na justiça nacional.
Veio até Portugal para estudar Direitos Humanos e levar o seu trabalho até às últimas consequências e instâncias internacionais.
Hoje, está em Harvard a continuar os seus estudos.
Outro colega, o Francisco, era Timorense, fazia parte do histórico grupo de estudantes que se refugiou na embaixada da Holanda em Jacarta e acabaram refugiados em Portugal.
Caros auditores do XI curso de Pós-Graduação em Direitos Humanos,
Exmos Srs Professores Vital Moreira e Jónatas Machado,
Professora Carla,
Dr. Eurico,
Agradecer-vos o convite para estar aqui hoje a falar-vos da importância crescente dos Direitos Humanos como ferramenta, por excelência, do Direito para a construção de um mundo melhor e como tem sido, nessa qualidade utilizado para isso na minha vida e nas funções que exerço entre os meus pares.
A Faculdade de Direito de Coimbra tem lugar cativo na História, esta mesma sala onde decorre a PG assistiu a centenas de debates sobre Direitos Humanos. É um orgulho enorme poder estar desse lado como estive enquanto aluno. É uma honra gigantesca poder estar aqui deste lado.. por todas estas razões e porque... (quem estave cá o ano passado com o papel desta parte foi a Embaixadora Ana Gomes!!!)
A escolha dos DH começou a desenhar-se nas minhas opções em 2004 quando estive em Angola, a trabalhar como voluntário num campo de refugiados, neste caso de retornados, porque se tratavam de pessoas que vinham da Zâmbia onde foram refugiadas durante cerca de 20 anos que durou a guerra civil em Angola.
Terminada em 2002, os comboios das Nações Unidas eram frequentes, e em Lwena, onde eu estava, era o segundo campo que encontravam do lado de cá da fronteira e era onde se registavam como cidadãos regressados, era onde tinham a primeira refeição quente desde há tempos que eu nem sequer imagino.
Estas pessoas não tinham nada de seu a não ser a roupa vestida, um saco ou dois das Nações Unidas (ACNUR) com alguns haveres, alguma galinha ou cabrito.
As crianças diziam-se angolanas, mas todas elas tinham nascido na Zâmbia, nos campos de refugiados, mas mesmo assim... Angolanas...
No ano seguinte, em 2005 passei algum tempo a viver numa comunidade do movimento dos sem terra em Belém do Pará na Amazónia, onde está neste momento a começar o Fórum Social Mundial, eram pessoas que por uma razão ou outra eram expulsas daquilo que tinham por suas casas, fossem expropriadas pelos grandes fazendeiros e pelas cumplicidades políticas locais ou fossem em fuga da pobreza, a correr para as cidades à procura de melhor vida.
Mas gente cuja sabedoria era a da terra... não tinham meios de subir os degraus do desenvolvimento por si mesmas e arranjar um emprego numa fábrica ou numa caixa de supermercado, nem os mais novos iam à escola, a integração não era fácil....
O que mais mexeu comigo naquelas pessoas foi a postura perante a vida. Nada de culpar ninguém, não queriam saber dos senhores da guerra, não queria lamentar terem perdido casas pela violência da guerra ou pela burocracia dos registos de propriedade...
Queriam apenas avançar com a vida, aproveitar o amanhã, construir, reconstruir para os filhos que carregavam atrás de si.
O olhar delas. O olhar delas atemorizava, cheio de esperança em mim e nos que estavam comigo, como se as fossemos tirar do desespero e abrir-lhes portas.
E eu a saber que pouco ou nada podia fazer.
Nos anos seguintes mais algumas Missões e sempre a mesma sensação de vontade de amanha, sempre a impotência e a esperança, e o medo de não estar à altura das necessidades daquela gente.
Em 2007 candidatei-me a esta PG, em 2008, no dia 25 de Janeiro, a aula inaugural.
A porta férrea, a biblioteca joanina, a torre, a praça..... Alguns dos nomes que construíram e constróem o nosso país passaram por aqui a estudar e a ensinar. Muitas soluções e caminhos foram aqui sonhados e pensados.
Nas primeiras aulas passei algum tempo pasmado a olhar para os tectos, os frescos, as esculturas, os livros, as pessoas, as paredes. São muito pesadas as paredes, com uma herança bastante grande.
A constelação de professores no programa da Pós-Graduação era impresssionante, desde figuras da vida política, académica, de organizações da sociedade civil.
Todos com histórias de vida e trabalho impressionantes.
Assim como também alguns colegas da P-G... a Áua, da Guiné Bissau que era advogada e trabalhava no Ministério da Educação. Começou a perceber a certa altura que as bolsas de estudantes eram encaminhadas para os relacionados com as forças políticas.
Denunciou isso à justiça, mas não teve hipótese e acabou por se demitir do Ministério.
Começou a trabalhar por conta própria e o trabalho dela era defender cidadãos particulares que tivessem sido vítimas, de alguma forma do governo.
Como imaginam, não teve de novo, muito sucesso na justiça nacional.
Veio até Portugal para estudar Direitos Humanos e levar o seu trabalho até às últimas consequências e instâncias internacionais.
Hoje, está em Harvard a continuar os seus estudos.
Outro colega, o Francisco, era Timorense, fazia parte do histórico grupo de estudantes que se refugiou na embaixada da Holanda em Jacarta e acabaram refugiados em Portugal.
Ou a Joana que nas cadeiras da Academia tenta dar algum sentido de regra às guerras de hoje que se imiscuem com empresas e civis...
Tantos e tantas histórias!
Havia brasileiros, cabo-verdianos, portugueses, italianos, holandese, suecos. À sexta e ao sábado a nossa sala parecisa uma cimeira da ONU.
Muitos de nós tinham histórias destas e o espaço de aprendizagem de ferramentas e armas de paz, não de guerra, foram tempo de partilha, de crescimento humano.
Para mim que não sou advogado foi a descoberta do mundo vivo e cheio de espírito. O mundo do Direito e da Política como as ferramentas mais nobres e o caminho para uma civilização de direito humano, onde todos tenham voz e oportunidade, liberdade de lutar pela felicidade, não sozinhos mas em conjunto. O Homem é um ser em relação, existe com os outros.
E foi assim que deixei de ter medo de defraudar a esperança daquelas pessoas de África ou da Amazónia ou de qualquer outro sítio do mundo.
Deixei de ter medo porque aprendi. Aprendi o que significa que ... Todos os Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade (art. 1º, DUDH), aprendi o que são os direitos civis, políticos, económicos, sociais e culturais. Aprendi os mecanismos de os defender, aprendi os corredores em que eles circulam e os campos a que eles ainda não chegaram.
Aprendi que eu sozinho não vou fazer nada de especial por quem mais precisa, mas aprendi que juntos iriamos fazer muito.
E não tenho dúvidas de que alguns de nós daqui a uns anos estarão mesmo em cimeiras da ONU, serão mesmo líderes políticos, que muitos os vou ver nas notícias e que, seja em trabalho discreto e invisível, seja em trabalho de dar a cara e de liderar processos, cada um no seu canto e na sua frente vamos fazer a diferença porque andaremos por aí com a bandeira essencial do mundo do futuro: os Direitos Humanos.
Ficar parado por medo de não ser capaz de fazer nada?
Isso não pode ser... não deve ser opção!
O sentido, o receio de não ser capaz de cumprir com a promessa de esperança àquela gente, tornou-se em sonho. Depois da PG e das ferramentas com que esta caminhada me capacitou... o lugar do medo foi ocupado por outra coisa...
Isso não pode ser... não deve ser opção!
O sentido, o receio de não ser capaz de cumprir com a promessa de esperança àquela gente, tornou-se em sonho. Depois da PG e das ferramentas com que esta caminhada me capacitou... o lugar do medo foi ocupado por outra coisa...
... o desafio!
.
Não fazemos a menor ideia da grandeza daquilo que somos capazes de fazer se ousarmos tentar, depois deste momento em que o caminho das nossas vidas se cruzaram numa pós-graduação em Direitos Humanos, na histórica Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com as ferramentas e o saber que viémos buscar e partilhar aqui.
Subestimamos sempre a força do Direito, a força das assinaturas, a força da Declaração de 1948, dos Pactos sobre os direitos civis e políticos, sobre os direitos económicos, sociais e culturais!
Subestimamos as Convenções sobre os direitos da criança, sobre a eliminação de todas as formas de discriminação.
Subestimaos todos os documentos consequentes que lhes dão jurisprudência!
Subestimamo-nos a nós, que em primeira análise elegêmos os nossos governantes que assinaram esses documentos.
Agentes dos Direitos Humanos devem pegar nos medos e transformá-los em desafios. O único medo que nos pode subsistir é o de algum dia escolhermos o caminho errado – o do não fazer.
O grande desafio é o oposto desse, é tentar descobrir o bem que somos capazes de fazer, e o bem que podemos deixar de fazer.
Como anunciava Gandhi é pior o que os bons deixam de fazer do que o que os maus fazem. E nós, sem presunção seremos todos os dias porta-vozes desse mundo de Direitos Humanos que sonhamos ser parte e construir. Temos a obrigação de o ser. Porque outra razão estariamos aqui?
Essa é a maior e a mais importante tarefa: a fidelidade de um guerreiro que coloca na acção o sonho que o move, o sonho que hoje nos trouxe aqui: O Direito a ser Humano.
Cada um veio com o seu “para”. Cada um com uma motivação. Saibam que neste lugar, nesta sala por onde passaram tantos, esta é a vossa vez, a vossa herança e o vosso legado de continuar o trabalho. Receberão aqui fundamentos, ferramentas... poderão descobrir uma imensa capacidade... e fica nas nossas mãos o tesouro, o grande desafio, de fazer ou não fazer.
Escolham o vosso caminho e juntem-se a tantos que trabalham, cada qual no seu lugar e na sua frente, para dar voz às pessoas e aos seus direitos... O medo da incapacidade desaparecerá e surgirá o desafio da capacidade, do fazer acontecer.
No início falava-vos da História, do peso institucional desta casa de valores, no testemunho destas paredes robustas sustentadas pelo Direito. Mas agora digo-vos que apesar desse legado e dessa importância ritual... Não são elas o mais importante que aqui está....
O mais importante é aquilo em que toda a História desta Faculdade desemboca.
E isso hoje...
... são vocês.
Bom trabalho,
Obrigado.
Não fazemos a menor ideia da grandeza daquilo que somos capazes de fazer se ousarmos tentar, depois deste momento em que o caminho das nossas vidas se cruzaram numa pós-graduação em Direitos Humanos, na histórica Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com as ferramentas e o saber que viémos buscar e partilhar aqui.
Subestimamos sempre a força do Direito, a força das assinaturas, a força da Declaração de 1948, dos Pactos sobre os direitos civis e políticos, sobre os direitos económicos, sociais e culturais!
Subestimamos as Convenções sobre os direitos da criança, sobre a eliminação de todas as formas de discriminação.
Subestimaos todos os documentos consequentes que lhes dão jurisprudência!
Subestimamo-nos a nós, que em primeira análise elegêmos os nossos governantes que assinaram esses documentos.
Agentes dos Direitos Humanos devem pegar nos medos e transformá-los em desafios. O único medo que nos pode subsistir é o de algum dia escolhermos o caminho errado – o do não fazer.
O grande desafio é o oposto desse, é tentar descobrir o bem que somos capazes de fazer, e o bem que podemos deixar de fazer.
Como anunciava Gandhi é pior o que os bons deixam de fazer do que o que os maus fazem. E nós, sem presunção seremos todos os dias porta-vozes desse mundo de Direitos Humanos que sonhamos ser parte e construir. Temos a obrigação de o ser. Porque outra razão estariamos aqui?
Essa é a maior e a mais importante tarefa: a fidelidade de um guerreiro que coloca na acção o sonho que o move, o sonho que hoje nos trouxe aqui: O Direito a ser Humano.
Cada um veio com o seu “para”. Cada um com uma motivação. Saibam que neste lugar, nesta sala por onde passaram tantos, esta é a vossa vez, a vossa herança e o vosso legado de continuar o trabalho. Receberão aqui fundamentos, ferramentas... poderão descobrir uma imensa capacidade... e fica nas nossas mãos o tesouro, o grande desafio, de fazer ou não fazer.
Escolham o vosso caminho e juntem-se a tantos que trabalham, cada qual no seu lugar e na sua frente, para dar voz às pessoas e aos seus direitos... O medo da incapacidade desaparecerá e surgirá o desafio da capacidade, do fazer acontecer.
No início falava-vos da História, do peso institucional desta casa de valores, no testemunho destas paredes robustas sustentadas pelo Direito. Mas agora digo-vos que apesar desse legado e dessa importância ritual... Não são elas o mais importante que aqui está....
O mais importante é aquilo em que toda a História desta Faculdade desemboca.
E isso hoje...
... são vocês.
Bom trabalho,
Obrigado.
