sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um bebé na Palestina

A história repete-se, ano a ano, o Natal não é apenas recordação [lembrar] é uma representação, um fazer em memória de [voltar a tornar Presente; atualizar] um evento discreto e humilde, de uma família comum de gente migrante não por sua vontade, mas por imposição do contexto político de então.
A família de Nazaré não era dali. Consta-se que a origem de José seja Belém, bastante mais a sul. Não sabemos as razões concretas, mas José, carpinteiro viva em Nazaré. Sabemos que Maria sim, era de lá. José era de Belém, pensa-se. Foi esse o contexto em que os evangelhos colocam Jesus a nascer em Belém.

"José e Maria" - Banksy


Naquele tempo, a preocupação dos evangelhos não era o relato histórico, mas o da fé, o de demonstrar que o menino era o Messias esperado. Por isso não chegaram até nós mais dados senão este de colocar a família, chegada a hora do Natal, na cidade de Belém.
A história que se repete hoje, ano após ano, é esta, a dos pobres e humildes que têm de sair de sua casa, pela guerra ou pela pobreza extrema. Famílias inteiras, que em desespero ou com maior serenidade migram e se movimentam para outras paragens. Desde a pré-história, desde a antiguidade. Hoje continua esse fluxo de esperança e desespero.

A família de nazaré teve de ir para Belém, na Palestina. Mais de 170km em estradas de hoje. Naquela altura a viagem não teria as facilidades de deslocação de hoje, mas seria certamente difícil - como hoje - ainda que por razões diferentes. Naquele tempo, seria feita a pé numa jornada de vários dias, contornando montanhas e caminhos pedregosos. Um homem, uma mulher grávida, os seus haveres de viagem, um jumento.
Hoje, poderia até ser feita de carro, mas com paragem obrigatória em vários checkpoints militarizados. À entrada da Palestina, um muro, altíssimo, intransponível para uma família comum. Em Gaza, uma faixa-prisão, os muros são ainda mais evidentes, maiores e intransponíveis.

Naquele tempo, à chegada a Belém, não havia lugar para uma mulher grávida, impura pelo nascimento breve do bebé.
E hoje, tantos preconceitos e generalizações sem sentido continuam a vigorar. Refugiados da síria, do Afeganistão, do Iraque, da Eritreia, da Etiópia, muçulmanos, rohinghya, ou cristãos, até mesmo judeus, pessoas LGBTI, pobres nas Filipinas assassinados a mando de Duterte. Todos grupos perseguidos em algum lado do mundo hoje com as mais variadas generalizações que não fazem sentido.
Hoje aquele bebé nascido na palestina, nem passaporte poderia ter.

Contam as escrituras que poucas semanas depois do nascimento, mais uma viagem forçada, desta feita para o Egito. Pela história escrita, as razões são de asilo político. Umo bebé pequenino faz com o o rei de então se sinta ameaçado no seu poder. Tantos defensores e defensoras de direitos humanos na América Latina, em África e na Turquia, por todo o mundo. Hoje. Perseguidos, presos, sequestrados, assassinados porque o poder se sente ameaçado por eles. Desde 1998 quando as Nações Unidas adotaram a declaração de obrigação de proteger os direitos humanos e os seus defensores já foram assassinadas cerca de 3500 pessoas por defenderem os direitos dos mais frágeis.

De regresso a Nazaré, anos mais tarde, o menino crescia em Graça. Fez-se homem, ganhou consciência de quem era e tornou-se ele um Homem de ação, um homem de Paz, de tanto Amor. Um Deus-feito-Homem – para quem acreditar livremente nisso - que passou por todas as dificuldades de todas as pessoas de ontem e de hoje, desde o início da humanidade e até ao fim dela.
Desafiou a ordem das coisas, a do poder e disse ao mundo que todos somos iguais em dignidade. Todos somos Filhos. Incomodou tanto os poderosos que foi levado à cruz, com pena de morte.

Passaste por tudo menino Deus. Estiveste no mundo, sem ser do mundo, para transformar o mundo.
Passaste por tudo o que tantos passam hoje e continuamos a não te reconhecer neles: nos refugiados, nos afogados neste mar de esperança e de morte, nos pobres, em todas as crianças que não têm alimento ou escola, nas pessoas LGBTI, nos Rohingya, nos palestinianos, nos presos, nos defensores de direitos humanos, nas religiões perseguidas porque os poderosos as invocam em nome de ambições pessoais, nos migrantes, nas vítimas do clima e da ambição de ganância, nos sem abrigo, nos condenados à pena de morte.
Hoje o Natal continua a acontecer, todos os anos, a cada dia e em tantos sítios do mundo. Hoje continuamos a não te reconhecer, continuamos a não te perceber o sentido.
Por vezes o pessimismo parece ser inteligente, mas não. A história deste menino mudou o mundo e acaba em Vida.
Naquele tempo; e hoje também.

Feliz Natal.


[Jornal Correio do Vouga, edição de Natal, 2017]

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Refugiados em nós


[Texto de Bárbara Alves da Costa, jornalista da SIC. Ouvi-o numa escola em Mangualde, lido pelos alunos antes de uma conferência sobre este mesmo assunto. Receio bem  - a seguir - nada de especial. Replico o texto a seguir, para se ler devagar, memorizar e interiorizar].

"Ela adormece ao meu lado. Tem três anos. Enquanto bebe o biberão, sorri e observa que estou a escrever. Alice, dorme! A mãe está a tentar trabalhar. Aqui mesmo ao lado.  A mãe precisa de escrever sobre outros meninos. Como tu. Descansa, princesa da mãe”.
Ela vira-se para o outro lado e fecha os olhos. Em Paz. “Que bom ter paz”. Penso.
Olhos de um azul hipnotizante, toda ela cheira a mar, a liberdade. Cheira a pés descalços e a uma vida cheia de histórias. Não tem um metro mas tem a altura de uma menina grande, mulher que se adivinha de garra. Já se percebe que fará a diferença – alguma coisa ando a fazer bem – sorrio. Loira, branca, que mais parece filha de imigrantes, de outro canto do mundo… mas não é. É minha. Esta e outra.  De dez anos. Igualmente loira. Igualmente  livre. De preconceitos. Respiram vida. Felizes. Respiram mundo. Poucas vezes se calam mas hoje foi o dia.  Hoje calaram-se ao pequeno-almoço. Foi assim que chegámos a este ponto. A mãe, morena, eu.  Aqui. À cama. A este texto.
Tem sido a conversa dos últimos dias. Assim começámos o dia, ao pequeno-almoço. A ver meninos, como elas, a fugir da guerra. Meninos que tinham escolas. Colégios. Falam inglês. Uns têm smartphones. Computadores. Como ela. A mais velha. O que os separa? Por que espera o mundo? O que responder, como mãe, às nossas crianças? O que contar? O que explicar? Por que razão uma mulher, que se diz repórter, lhes passa rasteiras? Por que têm de fugir? Por que gritam estas crianças? Precisam de paz.
Pára-me o pensamento. Nos últimos dias, demoro-me mais no olhar. Enquanto penteio uma, observo a outra a brincar. Consigo ouvir bombas e gritos. Quem me dera não pensar. Foram 16 anos na SIC. Como repórter. Foram viagens a África onde os meninos me abraçavam, sem largar, para embarcar comigo para Lisboa. Foram crianças que tentei salvar da morte certa. Corri. Muito. Bati a muitas portas. Fui muito feliz.  Chorei. Mais. E voltei a sorrir. Entretanto fui mãe. Mais mãe. Olhei mais para elas do que para o mundo. Viajei muito. Com Elas. Sem elas.







E nós e eu, entretanto, mudámo-nos. Este ano. Da cidade para o campo. De Cascais para Grândola.  Para um monte no Alentejo. Pai, mãe, crianças, avó. A vida assim o ditou. Começar de novo. Uma obrigação. Uma necessidade. Numa vida que é uma estrada cheia de surpresas.
Leio agora, tantas certezas nas redes sociais, questiono-me se estas pessoas vivem, de facto, ou se se limitam a abrir a boca, sem se ouvir.
“Temos medo de receber pessoas. Os outros que as recebam! Temos tanta pobreza na rua! Andamos armados em boa gente, quando não ajudamos quem cá está?! Somos hipócritas. Não queremos muçulmanos. Esses vêm para cá por bombas! Com os refugiados vêm os maus da fita. Não queremos saber”. Queremos saber. Temos medo. Apontamos o dedo porque nem sabemos o que queremos ou porque sabemos que não queremos perder a paz. De espírito. Perder a normalidade. Perder os dias pacatos de um país que gasta o dinheiro a resgatar bancos  e onde não se investe na educação. Onde é normal ficar sem música nas escolas… 



Sem médicos nas aldeias, sem apoio à terceira idade. País onde se abandonam tanto cães, no verão, como velhos nos hospitais. País onde se trabalha mais do que se vive para os filhos, país onde poucos se levantam para defender o próximo porque o emprego é seguro e precisamos dele. Seremos pouco solidários? Pouco corajosos? Pouco interventivos? Perdemos a espinha dorsal ou simplesmente adormecemos?
A silly season acabou. A terrível história da criança de 3 anos que manchou o Mediterrâneo acordou a Europa para uma objectiva notícia: somos todos culpados.
Somos nós que andamos à deriva, numa onda que não tem volta.  Nós, pessoas. Do mundo. Que nos perdemos em cores, em bandeiras. Faz-nos falta sonhar mais e olhar para os outros.
Aqui me fixei nos últimos dias. Enquanto olho para elas penso que perdi os últimos anos. Enganei-me. Iludi-me. Foi mais fácil esquecer o mundo e concentrar-me no futuro delas. Pensava eu. Na música que o Estado se esquece de pagar. Nos bons colégios. Na educação.
Perdi-me. Aqui. Quando deixei de olhar para o mundo e me esqueci que, sem mundo, elas crescem sozinhas. Que sem ideais, sem exemplos,  elas crescem iguais a um país de católicos onde se vai à missa e se esquece do resto.


Foi o meu marido que me acordou desta cegueira. Desta surdez. Bastou uma frase:
“Por que não acolhemos uma família de refugiados sírios?”
Olhei para ele sem saber o que dizer. Na verdade, sempre fui eu a justiceira, a audaz, a que atravessa o mundo, para fazer perguntas. Sempre fui eu a que mais quis mostrar que a vida não é apenas esta sorte. Que é preciso ajudar, apoiar, dar de nós. Fazer a diferença.
Estamos em mudança de vida. Sem certezas. Sem empregos certos. Sem dinheiro certo. Com a vida, aos 40 anos, por reconstruir. Estamos a re-desenhar. A re-escrever. A criar novos projectos. A tentar ser o exemplo dos nossos filhos. E estávamos a esquecer-nos de, tão simplesmente, olhar para o mundo.
Temos pouco para dar. Apenas a certeza que podemos ser o apoio e o abrigo de alguém, como nós. Com crianças.
Terminei de escrever. Desci a escada e tudo dorme. Sorrio. A vida pode ser assim mesmo. Recomeçar. Bastou uma frase.  É um caminho. E amanhã cá estaremos. Para mais notícias ao pequeno-almoço.


A Alice já dorme, entretanto. Passaram apenas estas linhas mas respirar paz tem o condão de uma varinha de fadas. Faz milagres. A Maria do Mar espera-me na sala para ver mais sobre o que se passa no mundo. Meninos da Síria, tal como ela. Estão em apuros.
O tempo passou. 10 anos passaram. E aqui estou. Em pausa. Lembrei-me do Domingos. Da Guiné. Que veio para Portugal para se salvar. Da morte. Fez anos esta semana. Foi a primeira vez que me mobilizei para mudar o mundo. Tinha ele 12 anos, na altura. Ia morrer naquele hospital. Da Guiné Bissau. Descansei quando o vi, deitado numa cama em Santa Maria.



O Domingos foi salvo. Tem hoje 22 anos. Vive em Portugal. Cresceu. Mexe em computadores, como ninguém. Imigrou. Chegou sem nada e deu-nos tudo. Nunca mais deixei de o seguir.
Temos o suficiente. Papel para escrever. Um smartphone. Um tablet. Internet. Eu escrevo. Ele desenha. Temos o mais importante: família, estrutura, amigos, e cérebro. Temos, acima de tudo, obrigação de ensinar aos nossos filhos que, se um dia precisarem de ajuda, alguém, como nós, há-de fazer a diferença.
Enviei hoje o email a oferecer-nos como família de acolhimento. Temos pouco para dar. Apenas a certeza que podemos ser o apoio e o abrigo de alguém, como nós. Com crianças.
Terminei de escrever. Desci a escada e tudo dorme. Sorrio. A vida pode ser assim mesmo. Recomeçar. Bastou uma frase.  É um caminho. E amanhã cá estaremos. Para mais notícias ao pequeno-almoço.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

The New Colossus

 [Texto gravado na base da Estátua da Liberdade. Nova Iorque. EUA.
Poema de Emma Lazarus].




Not like the brazen giant of Greek fame, 
With conquering limbs astride from land to land;

Here at our sea-washed, sunset gates shall stand 
A mighty woman with a torch, whose flame 
Is the imprisoned lightning, and her name 
Mother of Exiles. From her beacon-hand 
Glows world-wide welcome; her mild eyes command 
The air-bridged harbor that twin cities frame. 



"Keep, ancient lands, your storied pomp!” cries she 
With silent lips. “Give me your tired, your poor, 
Your huddled masses yearning to breathe free, 
The wretched refuse of your teeming shore. 
Send these, the homeless, tempest-tost to me, 
I lift my lamp beside the golden door!”