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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Um professor muito conhecido... (ou nem por isso)
Hoje soube que na próxima semana começo a dar aulas a duas turmas de... crianças de 6 anos!
Confesso que a ideia me entusiasma tanto quanto me assusta: MUITO!
Já dei aulas ao 2º ciclo, ao 3º ciclo. Agora ao secundário, ao superior... e.... pequenitates... eles têm uma visão tão clara e desconcertante de tudo, fazem perguntas que mais parecem respostas com conteúdo para ficarmos a pensar durante pelo menos 10 minutos naquela abrangência e sentido todo...
Vai ser bonito...
Fica um texto enviado por um colega professor e que me faz ter algum optimismo e sobretudo esperança... este professor muito conhecido... era de Aveiro também...
Aqui fica o texto... motivador... sobre a memória de uma primeira aula...
Barreiro, 4 de Outubro de 1967
(Quarta-feira)
"Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar
beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram
3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com
saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar
e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser
mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém
de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º
34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é
o lugar dos mais altos.
Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos
um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal,
dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e
contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente
uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não
sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês
contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo
revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz
que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser
comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando
entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite
da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine
na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui
parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também
não vos vou chatear
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada
com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as
primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam
a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que
já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o
rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes
não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um
homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter
uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das
primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto,
rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em
silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala,
impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar
uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo
conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma
algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer
professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas
ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se
importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto
esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se,
efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em
pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:
- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo
dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano
passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.
- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas
disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não
tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma
matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui
desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em
palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele
ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto,
calmo, simpático.
- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas
absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem
interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha
passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse,
como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de
pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de
falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que
nos governa é uma ditadura desumana e cruel.
Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o
sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e
nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que
ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as
devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se
sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo
branco, que se sente mas não se apalpa.
- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho
leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.
Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque,
no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º
ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um
onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria
e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que
lutar por um novo país.
Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,
basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale
nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida,
mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão
ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que
nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão,
educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os
privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela
nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país,
carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou
abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou
ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses
de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e
cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm
que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do
vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma
falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem
os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é
com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem
trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que
devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim
porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais
velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que
mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos
com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar
princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e
mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que
fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de
(Quarta-feira)
"Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar
beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram
3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com
saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar
e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser
mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém
de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º
34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é
o lugar dos mais altos.
Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos
um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal,
dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e
contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente
uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não
sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês
contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo
revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz
que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser
comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando
entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite
da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine
na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui
parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também
não vos vou chatear
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada
com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as
primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam
a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que
já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o
rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes
não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um
homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter
uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das
primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto,
rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em
silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala,
impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar
uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo
conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma
algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer
professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas
ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se
importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto
esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se,
efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em
pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:
- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo
dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano
passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.
- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas
disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não
tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma
matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui
desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em
palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele
ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto,
calmo, simpático.
- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas
absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem
interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha
passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse,
como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de
pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de
falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que
nos governa é uma ditadura desumana e cruel.
Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o
sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e
nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que
ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as
devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se
sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo
branco, que se sente mas não se apalpa.
- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho
leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.
Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque,
no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º
ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um
onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria
e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que
lutar por um novo país.
Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,
basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale
nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida,
mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão
ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que
nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão,
educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os
privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela
nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país,
carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou
abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou
ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses
de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e
cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm
que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do
vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma
falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem
os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é
com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem
trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que
devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim
porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais
velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que
mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos
com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar
princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e
mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que
fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de
Organização Política, chama-se Zeca Afonso.
domingo, 20 de novembro de 2011
sábado, 19 de novembro de 2011
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
William Kamkwamba...
Este rapaz é um rapaz como todos os menos afortunados que por uma razão de injustiça social planetária passou fome. Vivia numa aldeia que passava fome, a família passava fome: Isto foi no Malawi, em África (mas podia ser na América, na Europa, na Ásia, na Oceânia, na Antárctida... em qualquer lado, até aqui ao lado).
Esta ideia já nem nos diz nada. Ainda mais agora que temos uma crise (há dez anos que andamos de crise em crise) e é mais frequente a resposta, sem sequer ter havido pergunta antes de que "ai que temos de ajudar os nossos pobrezinhos que isto está tudo muito mau e é tudo muito complicado".
Apesar do espaço schengen as fronteiras continuam nos olhos e na cabeça de muita gente. E insistimos em fazer compartimentos estanques onde nem sequer existem compartimentos.
As questões da pobreza, do desenvolvimento... são universais, manifestam-se localmente, mas são universais. A solução é também universal, apesar de ter de ser aplicada local a local... localmente.
O nosso trabalho não faz sentido se fôr sempre no âmbito do tapa buraco que só se justifica nos casos de emergência. De facto, não se dá uma cana a uma pessoa com fome ou doente. Nem conseguiria ir à pesca e talvez a nossa cana ocidental, nem servisse para pescar no "rio" da terra e cultura dele.
Mas ficamo-nos por aí, porque aquece o coraçãozinho, as pessoas sentem-se bem em "ajudar os outros" (esta expressão já me mete impressão... talvez seja por ouvi-la tanto) e o resto, fazer mais... não, fazer mais não seria necessário... fazer MELHOR... é um problema e é muito complicado.
Este rapaz... mostra-nos que não, não é...
Em vez de ajudar, experimentemos capacitar...
... o resto acontece a seguir e nem somos precisos nessa parte!
... o resto acontece a seguir e nem somos precisos nessa parte!
"Where was this Google all this time?!"
Olhar para a frente e por cima da poeira..
Há dois tipos 'do meu tempo' que quando os vejo em acção, quando converso com eles, quando jantamos por aí anonimamente em "dia de folga" e dizemos asneiras e disparates à discrição, me fazem pensar na minha vida e no que ela podia ter sido... descansam-me a consciência e inspiram-me.
Fazem-me pensar naqueles que gostariam (algumas vezes a pressão não era de todo saudável.. tempo que já lá vai) que eu lá tivesse chegado e da vontade que lhes tinha de dizer que... "pá... o que eu talvez fosse fazer, eles estão a fazê-lo e têm-nos no sítio para o fazer. São uma promessa a cumprir-se. Não bonzinhos, cristãozinhos, eunucos frustrados. São uma promessa a cumprir-se! Eu vou cumprir a minha de outra maneira.
Tenho orgulho neles. O resto... que se... (lixe).. O mundo está a mudar, mesmo que eu não faça nenhum. É com estas pessoas, com esta atitude, com gestos e visões acima da poeira, gestos que a maior parte das vezes são invisíveis mas nem por isso menos significantes."
ARK... Acts of Random Kindness... como dizia o Morgan Freeman.
in: jornal boa nova. especial semana dos seminários
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Síndrome da carneirice aguda
Our lives begin to end the day we become silent about things that matter.
Martin Luther King Jr.
Tenho um amigo que é padre.
O rapaz é das minhas idades, não se perdeu. Pensa e fala, sobretudo ouve, todas as pessoas independente da fé, da côr, do clube, da orientação sexual, do género... entre outras coisas.
Procura inculcar na comunidade que anima como pároco esse saber pensar, ver tudo, sob todas as perspectivas. Acredita numa Igreja pouco de formas, mais de fundamento centrado no Amor e no caminho para lá chegar.
Não sei se foi por termos a mesma escola que gosto de o ouvir, que me identifico, que gosto de conversar com ele. Vou partilhando os meus podres, muitos deles muito, mesmo muito podres e maus.. os pecados, fenómeno a que chamo em exclusivo de "magoar alguém"... e nunca tive nada dele a menos que acolhimento. É isto!...
Ele dinamiza... e a prova de que está a fazer um bom trabalho, com uma boa liderança, é a carta enviada a um jornal de Coimbra sobre o trabalho dele.
A carta é de alguém que se intitula de ovelha. Nada a discordar portanto... nessa parte.
Tenho um receio... é que as pessoas que teimam em pensar, se desinstalam e se incomodam ainda estando por aí, se cansem destes balidos de esquizofrenia colectiva e os mandem pastar de uma vez... a igreja aí, será uma seca maior.
Mas talvez não... estas idiotices também podem motivar a continuar, e a dar mais uma humilde e respeitadora gargalhada (apesar de dar pena perceber o mundo de medo e de castigo em que o ovídeo vive e que foi extinto em Trento já há alguns séculos.. o senhor ainda não percebeu isso)!
Senhoras e senhores.... voz às ovelhas, salvo seja...
"Rev.do senhor Director do Correio de Coimbra,
Foi com admiração e preocupação que soube, pelo jornal Boa Nova, da paróquia de Cantanhede, que, a convite do pároco, em meados de Outubro, veio falar aos fiéis daquela freguesia um teólogo espanhol, Andrés Torres Queiruga, ilustre pelos erros dos ensinamentos que transmite, a tal ponto que está proibido de ensinar pela Igreja.
Não tenho nada contra o debate de ideias, contudo, a situação não me parece ter sido de um debate onde se confrontasse a doutrina da Igreja com a desse teólogo. Parece que todo o encontro tenha sido direccionado para apresentar as ideias erradas desse senhor como as ideias certas e de futuro, aquelas que profeticamente nós, Igreja, ainda não conseguimos atingir, mas que são as verdadeiras.
A minha preocupação tornou-se ainda maior, quando li que alguns dos fiéis participantes dessa conferência, saíram com dúvidas e confusos, dizendo que aquela forma de ver os temas abordados não se coadunava com o que sempre lhes foi ensinado pela Igreja.
Vamos lá ver o que responderiam os nossos pastores a estas interrogações:
Qual é a Fé que professo: a da Igreja, ou outra construída e interpretada à minha maneira? Acredito verdadeiramente em tudo o que Deus revelou e a Santa Igreja nos ensina?
O Inferno e o Purgatório existem? O homem salva-se imperativamente e obrigatoriamente, ainda que o não queira, que o recuse em liberdade? A criação de Deus é imperfeita? O mal é intrínseco às próprias criaturas, criadas à imagem e semelhança de Deus? Se sim, então, será Deus a fonte primeira do mal, posto que nos criou «contigentes»?
Estou em crer, com grande dor na minha alma, que teríamos muitos apóstatas entre os que acreditamos serem os defensores da Fé.
Tenho a convicção que há uma vontade de se mudar a Igreja a partir de dentro, de fazer umas espécies de Igrejas autocéfalas, com uma fé apóstata. Parece que há mais do que uma Igreja dentro da própria Igreja!
Ninguém foi coagido a ser presbítero da Igreja Católica! Quem não quer pregar o Evangelho e o restante Depósito da Fé tal como eles são, não se sinta obrigado a permanecer unido a nós (a exclusão já existe ipso facto). Tenho de reconhecer que é mais fácil e cómodo espalhar a desordem estando dentro. Porém, nós, fiéis, é que não podemos continuar a deixar-nos reger por quem nem a si se rege, continuarmos a deixar que nos preguem heresias e mentiras como se fossem a mais santa das verdades. Mercenários é o que são!
Estando esse senhor proibido de ensinar pela Igreja, é inadmissível que seja convidado por um servidor dessa mesma Igreja, o pároco, para vir ensinar os seus erros dentro de casas que são nossas, e que a mesma Igreja local, na pessoa do nosso Pastor, não se tenha pronunciado publicamente em defesa das ovelhas, contra esses lobos.
Fica claro, por estas e por muitas outras que agora não convém aqui enumerar, que os lobos não nos atacam apenas de fora. Há lobos encobertos em peles de cordeiros dentro da própria Igreja e que a vão dilacerando onde lhes é permitido morder, sem que se oiçam os gritos, e bem mais temíveis do que os que uivam de fora da cerca. Pior ainda, esses lobos sãos, nalguns casos, os nossos próprios párocos.
O Pastor não tem apenas o múnus de encaminhar as ovelhas, ele tem de as proteger e defender dos ataques dos lobos, sob pena de elas não só serem desencaminhadas, mas também arrebatadas irremediavelmente pelas feras.
Consta-me, também, pela página do Amicor, que para hoje à noite (4.11) foi convidado um deputado abortista do Bloco de Esquerda, Dr. João Semedo, para dar uma conferência, com um sugestivo título afirmativo "Morte - vazio, inevitabilidade ou sentido" (podiam ao menos ter colocado um ponto de interrogação!!).
O ano passado tiveram, por esta altura, Fr. Bento Domingues que lhes veio tirar a fé no estado intermédio do Purgatório. Desta feita, devem perder o sentido total da eternidade. Esperemos que o prior, neste mês dedicado às almas, esclareça bem os fiéis da integralidade da fé da Igreja na eternidade.
E já agora, uma última pergunta: Se não acreditam no Purgatório e na expiação da pena causada pelos pecados, porque continuam a receber os estipêndios das missas por essas almas!?
J. D. - Coimbra"
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Houve um tempo em que o mundo era lá dentro..
Há muitos anos que não ouvia este clássico. A par com o "Let it Be", do Beatles, marca um tempo. O tempo em que o mundo aqui de fora não existia, porque estavamos dentro de um abrigo...
A semana passada foi a designada pela instituição de um sítio qualquer que não sei se é Roma, se é Lisboa, por semana dos seminários.
Vivi num quando tinha 14 anos, até aos 18 anos. Aprendi muita coisa. Formei uma personalidade, para o bem e para o mal, uma maneira de pensar, de agir, de falar, de sentir. Descobri o que é a camaradagem que dá o corpo às balas pelos outros se for necessário. Descobri, porque o fariam por mim e o faria por eles. Não se explica a amizade e os valores que se formam ali.
Muitos como eu, nunca se ordenaram padres. Mas vou vendo com carinho as famílias que começaram, as frentes de trabalho e da vida em que estão. São lutadores e estão a tentar fazer o que aprenderam lá...
Poucos, deram padres. Vejo-os com orgulho a lutar por aquilo em que acreditam, mesmo que sigam contra a corrente, mesmo que aguentem com alguns insultos de gente mais fechada. São lutadores e estão a tentar fazer o que aprenderam lá...
Foram anos em que o mundo era simples, mas desafiante. Sereno, onde se pode crescer e aprender a voar... ou a tocar guitarra, como esta música, oração funda, foi dedilhada e sentida muitas vezes...
Obrigado seminário e já agora... parabéns... fazes hoje 60 anos e marcaste a minha vida a tinta permanente.
Entre o céu e o inferno - Vagos FM
"Entre o Céu e o Inferno" é um programa da Vagos FM (88.8 MHz) que vai para o ar de segunda a sexta às 09h40, com reposição às 17h20. Cinco pessoas, rotativamente e uma vez por semana, seleccionam e comentam os acontecimentos positivos e negativos da semana.
11 de Novembro de 2011
04 de Novembro de 2011
Pensar Global - Vagos FM
O Pensar GLobal é um programa da Vagos FM (88.8 MHz) que vai para o ar todas as sextas-feiras às 14h30.
Edição de 11 de Novembro de 2011
Edição de 04 de Novembro de 2011
Edição de 11 de Novembro de 2011
Edição de 04 de Novembro de 2011
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Apesar da esmagadora proporção...
... nem sempre (ou nunca mesmo) é fácil mudar o que quer que seja, nem em nós, nem nas realidades em que intervimos, que são, a maior parte das vezes, tão pesadas quanto a estruturas, tão eficazes no controlo, e isso acontece também onde somos nós a liderança.. às vezes até penso que mais aí, porque quanto mais "decisiva" a posição, parece que mais de mãos atadas nos vemos.
A tentação de arrumar para o lado e deixar ir, deixar andar é grande... ultimamente tem sido cada vez maior, confesso-me. No pouco tempo que ando no mundo ainda, naquilo que já estive e vou estando envolvido, tenho visto do melhor e do pior. Tenho-me visto a mim próprio a fazer e a integrar do melhor, e a ser, também, do pior.
Em todas as coisas vou vendo potencial enorme para proporcionar bem e vou vendo também muito desse potencial por aproveitar. Este artigo não tem propostas de soluções. Se as procura, não leia mais. Hoje só se levantam questões de facto.
Há algum tempo, ouvi dizer num congresso que produtividade é quando tornamos a vida das pessoas melhor... ficou-me. e tenho visto coisas enormes desse ponto de vista. Mas também tenho visto desperdício de tempo na mesma proporção.
Outra ocasião ouvi o Nobel da Paz, D. Ximenes Belo, dizer que a Política é a ferramenta mais eficaz para construir a Paz e um mundo melhor.
Nesse tempo não entendi a afirmação que me pareceu ir muito para o lado, dada a perspectiva podre do que via na política e nos chatos da política.
Mais tarde comecei a ver as coisas de outro modo, graças aos mestres Mandela, Kenniata, Lincoln, Gandhi, Churchill, Roosevelt's, R. Kennedy... e alguns mais... gente que inspira.
Olhando para a política ao de leve... não vemos nada disso. Vê-la por dentro, analisar-lhe o xadrez... também não se vê nada disso. Mas apesar dessa evidência, a cada desilusão, continuo a acreditar que sim, que um dia seremos nobres e a ferramenta funcionará. Aqueles mestres ali acima, e outros, geralmente anónimos, locais, ou mesmo mundiais (a eleição de Obama foi histórica.. o resto mais tarde se verá) provaram-nos isso e mudaram um bocadinho mais o que os rodeia e a si próprios também.
Também a Igreja, outra expressão de mega-associativismo muito interessante sociologicamente, é um espelho do ser humano. Cheia de defeitos, cheia de qualidades, cheia de potencial, cheia de extremos, conservadorismo e ideias mais liberais. Cheia de mal e de incoerência, de poder e de superioridade... que nada tem a ver com o Mestre da Galileia. Também cheia de pureza, de uma Fé de ideias, capaz de gestos de tão silenciosos que são, geradores de milagres, de partilha, de beleza. Cheia de discordância e de posições idiotas (as nossas e as dos outros, dependendo do ponto de vista) que temos de ouvir sempre, porque também nos ouvirão a nós (ou não, ou não...).
É preciso acreditar, tentar fazê-lo e tentar nunca perder a perspectiva. Esse é um desafio enorme, principalmente quando nos sabemos impedidos de entrar num sítio, de dar aulas noutro, de nos expressarmos ou de tomarmos posições, denunciar situações que entendemos injustas (mais não seja pelo quadro legal que vigora, pelos Direitos Humanos, entre outros códigos orientadores)... só porque pensamos de maneira diferente e nos catalogam com outras cores que não as suas...
Manter a perspectiva. Manter a perspectiva, mesmo que o que estamos a fazer pareça improdutivo porque não melhora a vida de ninguém. Manter a perspectiva, porque pode ser que se a perdermos, possamos não ver que vale a pena... porque isto é o que Democracia se parece... uma coisa que dá voz a todos, até aos silenciadores... os tais que passam a vida a falar de crises, sempre a sustentarem-se na ilusão de que controlam(os) alguma coisa.
in: jornal o ponto
Há algum tempo, ouvi dizer num congresso que produtividade é quando tornamos a vida das pessoas melhor... ficou-me. e tenho visto coisas enormes desse ponto de vista. Mas também tenho visto desperdício de tempo na mesma proporção.
Outra ocasião ouvi o Nobel da Paz, D. Ximenes Belo, dizer que a Política é a ferramenta mais eficaz para construir a Paz e um mundo melhor.
Nesse tempo não entendi a afirmação que me pareceu ir muito para o lado, dada a perspectiva podre do que via na política e nos chatos da política.
Mais tarde comecei a ver as coisas de outro modo, graças aos mestres Mandela, Kenniata, Lincoln, Gandhi, Churchill, Roosevelt's, R. Kennedy... e alguns mais... gente que inspira.
Olhando para a política ao de leve... não vemos nada disso. Vê-la por dentro, analisar-lhe o xadrez... também não se vê nada disso. Mas apesar dessa evidência, a cada desilusão, continuo a acreditar que sim, que um dia seremos nobres e a ferramenta funcionará. Aqueles mestres ali acima, e outros, geralmente anónimos, locais, ou mesmo mundiais (a eleição de Obama foi histórica.. o resto mais tarde se verá) provaram-nos isso e mudaram um bocadinho mais o que os rodeia e a si próprios também.
Também a Igreja, outra expressão de mega-associativismo muito interessante sociologicamente, é um espelho do ser humano. Cheia de defeitos, cheia de qualidades, cheia de potencial, cheia de extremos, conservadorismo e ideias mais liberais. Cheia de mal e de incoerência, de poder e de superioridade... que nada tem a ver com o Mestre da Galileia. Também cheia de pureza, de uma Fé de ideias, capaz de gestos de tão silenciosos que são, geradores de milagres, de partilha, de beleza. Cheia de discordância e de posições idiotas (as nossas e as dos outros, dependendo do ponto de vista) que temos de ouvir sempre, porque também nos ouvirão a nós (ou não, ou não...).
É preciso acreditar, tentar fazê-lo e tentar nunca perder a perspectiva. Esse é um desafio enorme, principalmente quando nos sabemos impedidos de entrar num sítio, de dar aulas noutro, de nos expressarmos ou de tomarmos posições, denunciar situações que entendemos injustas (mais não seja pelo quadro legal que vigora, pelos Direitos Humanos, entre outros códigos orientadores)... só porque pensamos de maneira diferente e nos catalogam com outras cores que não as suas...
Manter a perspectiva. Manter a perspectiva, mesmo que o que estamos a fazer pareça improdutivo porque não melhora a vida de ninguém. Manter a perspectiva, porque pode ser que se a perdermos, possamos não ver que vale a pena... porque isto é o que Democracia se parece... uma coisa que dá voz a todos, até aos silenciadores... os tais que passam a vida a falar de crises, sempre a sustentarem-se na ilusão de que controlam(os) alguma coisa.
in: jornal o ponto
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
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