quinta-feira, 29 de maio de 2008

Angolas de promessas adiadas…

Uma grande fortuna é uma grande servidão.
(Séneca)

1. Há alguns meses li num diário económico português uma entrevista do Presidente da Sonangol, que detém a exploração do petróleo em Angola, afirmar que a empresa tinha uma liquidez muito grande, ou seja, excesso de lucros, e por isso ia investir os rendimentos em empresas europeias. Que problema grave o deste senhor que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro que o petróleo dá…
Mais tarde, numa disputa entre a Sonangol e a Galp pela Enacol, de Cabo Verde, o mesmo senhor diz que não havia disputa nenhuma porque quem manda é a Sonangol (que é dona de parte da Galp). E se queriam o dinheiro angolano tinham que se sujeitar às regras que eles impusessem.
2. Há já algum tempo, esteve em Lisboa, bastante publicitado pelos media partner’s do evento, o activista e músico Bob Geldof. Como é sabido, na sua conferência bem paga por quem o ouviu em Lisboa, disse que “Angola é gerida por criminosos”. Grande escândalo! Apesar de todos sabermos que é a mais pura verdade, os patrocinadores e promotores apressaram-se a resolver o incidente diplomático em honra das relações comerciais que se podiam afectar. Também podemos chamar-lhe subserviência ou mesmo cumplicidade, ou mesmo didiotice… mas seria pouco delicado da nossa parte.
3. Na semana passada o presidente francês, Nicholas Sarkozy, em visita estratégica a Angola proporcionou um discurso triste e engasgado do seu homólogo anfitrião, José Eduardo dos Santos, que pedia à França ajuda para combater a pobreza do seu país! Espanto!
4. Será que alguém podia dizer ao presidente angolano que a empresa estatal (Sonangol) anda com excesso de lucros? Será que alguém explica a esses senhores que o petróleo, os diamantes, toda a riqueza do país é do país e não das pessoas que o senhor Bob Geldof dizia que geriam Angola, e que é esse dinheiro o que deve combater as desigualdades?
5. Homenagem ao povo Angolano, aqueles que por cidadania são soberanos em Angola, aqueles que sendo donos das riquezas naturais do país, não têm que comer, não têm acesso a cuidados de saúde, não têm acesso à educação, não têm acesso a nada… apenas à terra que os há-de acolher depois de morrerem de fome.
6. Homenagem a quem fala, a’O Aveiro inclusive que em 2004 publicou relatos do estado do país, com verdade e correndo todos os riscos e ameaças de quem dá voz a quem não a tem… em todas as Angolas deste mundo, promessas sempre adiadas por causa dos (…) que as gerem.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Pão para a boca e pão para o carro. Definir prioridades como um Direito Humano

Josett Sheeran, directora do PAM (UN), chamou-lhe o Tsunami Silencioso, pela morte que causa. Foi feliz no que disse ao catalogar a infelicidade do que está a acontecer no mundo do Sul… perdão, também já se estendeu ao hemisfério Norte.
Reportava na semana passada a organização ONE, que o preço combinado dos géneros que alimentam o mundo - o trigo, o arroz e o milho - aumentaram 83% nos últimos três anos.
Para as pessoas que vivem nos países economicamente menos desenvolvidos, ter como adquirir alimentação suficiente é uma luta diária. O New york Times referiu recentemente que no Haiti (o mesmo Haiti que temos por paraíso tropical de férias), as pessoas fazem bolos com lama, misturados com açúcares e óleo, tentando enganar assim a dor da fome. No Brasil do Nordeste e da Amazónia, as pessoas Sem Terra não têm onde cultivar suficiente para alimentarem a sua família. Com a subida descomunal dos preços, a vida torna-se muito mais difícil.
Pela primeira vez, o crescimento demográfico mundial é maior que a capacidade de produção alimentar. A maioria da população é urbana não agrária e o que parecia ser uma solução ecológica sustentável e capaz de quebrar a dependência do petróleo, os biocombustíveis, revela-se uma aposta falhada: a produção intensiva de cereais para combustíveis fez duas coisas: o nosso sistema económico fez disparar os seus preços, sejam os cereais para alimentação ou não. E a necessidade de produção acelerou a desflorestação.
Nas aldeias rodeadas de minas, de antigas (e mesmo actuais) guerras, o exercício da agricultura, ao menos de consumo é impossível a curto prazo.
Até aqui tínhamos a fome devido à guerra, a catástrofes naturais… a situações de emergência humanitária. Com esta crise temos uma triste novidade: a possibilidade bem real de não haver no mundo alimento suficiente para todos nós.
Quando referimos nós, é mesmo isso: nós humanidade, a África sempre referida pelos média, mas também a Europa, os EUA… o mundo ocidental que vive num grau de conforto óptimo! Com efeito, algumas das cadeias de hipermercados norte americanos na semana passada, racionaram a oferta e limitaram a compra de quantidades de arroz. Alguns países deste nosso continente e da Ásia cancelaram as exportações de arroz. Em mais de 80 países aconteceram protestos na rua pelo direito à alimentação.
Chega a hora em que o mundo tem de definir prioridades, tem de se ouvir e de se observar. O que salvaguardarmos hoje com algum esforço, poderá evitar o colapso de vidas, até aqui anónimas, mas não sabemos quanto tempo faltará para lhes podermos dar nomes…
O que podemos fazer do nosso canto não é muito mas é válido: poupar, utilizar e consumir com responsabilidade, educar os nossos a isso. Exercer pressão em grupos de influência que podem fazer algo de significativo, faz parte do Direito de Manifestação que democraticamente possuímos! Isto passa por exemplo, por assinar uma petição! Em www.one.org/hungercrisis pode-o fazer, tendo a certeza que a sua expressão de manifesto contra a fome e a especulação vai direita aos líderes do G8.
Junte-se à força de pessoas comuns… e juntos, teremos força para fazer coisas extraordinárias… por nós, pela nossa humanidade!
Bastam pouco mais que gestos para fazer a diferença! Só precisamos de nos desinstalar!
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O AVEIRO
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