domingo, 14 de setembro de 2008

Uma fé inquieta... V

A religão que era dos brancos


Foi numa manhã quente, como o são as do Inverno austral. Não se levava muita água pois não sabiamos ao que íamos.
Era uma aldeia distante, para lá do cemitério do Savimbi, onde ele tem a lápide mas não tem o corpo que foi levado para Luanda, dizem, porque os do partido do governo, o outro lado da guerrilha, tinham medo que ele ressuscitasse de novo, pela sexta ou sétima vez e voltasse a dar trabalho. Não é que ele fosse pior ou melhor que o outro... eram iguais, um deles ainda é. Só que as sortes dividiram-se pelo que continua vivo.
Depois do cemitério, anda-se mais um pedaço. Há uma cortada para uma picada de terra batida e à frente, mesmo antes do rio há um enorme campo minado. De um lado as placas, do outro campos extensos de milho, já seco. Um rio ao fundo, que acompanhamos sempre até a picada terminar.
A partir daí, cerca de 7 quilometros a pé, depois de passar um pequeno campo anormalmente aplanado que mais não era que uma pequena pista para as avionetas norueguesas dos diamantes aterrarem, carregarem de água e outras pedras que matam mais que as dos rins e que se passeiam por aí nos pescoços ou nos dedos com a inocência e o brilho de quem não sabe o mal que faz.
Depois dos sete quilometros de calor, sem água, até em rio infestado de jacarés se vai beber, sempre com os pés prontos para arrancar caso haja algum movimento suspeito na água. A sede é tanta que desafia o risco. É um pouco assim a fé dos Homens. Têm sede, arriscam-se.
Chega-se à aldeia, longe de tudo. Começa-se a reunião com os mais velhos, enquanto os pequenos vão para as brincadeiras e os doentes aguardam vez para o curativo.
A discussão é solene, pese embora alguns risos. Os rostos são pesados, enrugados pelo tempo, pela malária, pela guerra. São vozes também assim, enrugadas pela vida. Falam das necessidades: um professor para a escola. A escola ainda não existe, mas a UNICEF só a constrói depois de haver um professor e o que havia o governo transferiu-o. É preciso um médico o uum enfermeiro, um posto de saúde que não os faça ir ao feiticeiro. É preciso fé, religação.
Religião significa isso, religar, voltar a ligar o que antes estava ligado, depois desligou-se e é preciso ligar de novo. Deus e o Homem, é preciso religá-los.
Vai-se falando em Chokwé, em Português, traduzindo, falando. Dizem que a fé é dos brancos e quando eles se forem embora, a fé deles também se vai embora. Riem...
Estão a brincar comigo porque sou branco. Mas fazem-me pensar na velha história da fé à força mal pintada na História. Então era verdade o que laicistas mais ressabiados com as frustrações da sua vida dizem! Fomos para lá impôr-nos?!
Pergunto-lhes do que é que mais tinham medo? - “Da morte” – respondem à primeira. Digo-lhes que há brancos que não acreditam em Deus.
A cara que fiz antes incrédula estava agora nos rostos mais velhos da aldeia que me observavam admirados. Há brancos que não acreditam, mas como pode ser isso?!
Digo-lhes que Cristo venceu esse maior medo e se estamos com Ele, já não temos de ter esse medo. Claro que foi muito inteligente e não deixou maneira que ninguém conseguisse provar o que eu estava a dizer Dele, inequivocamente.
Portanto, ou se acreditava, ou não se acreditava. Era tudo uma questão de Amor e liberdade e opção. Todos éramos convidados, ninguém forçado.
De facto assim foi, naquele dia. Testemunhei a opção da liberdade libertadora de Cristo e da força dos que nele acreditam. Gente ali de uma aldeia longínqua, perto do nada, longe de tudo o que conhecemos, até do português oficial da república onde se estava.
Aconteceu Religião, aconteceu a celebração do Amor. Ali e em todos os sítios onde alguém ou alguma coisa se religou, aconteceu religião, mesmo que os sítios ou as ocasiões não fossem oficiais. Aconteceu que Deus estendeu a mão ao Homem e o homem, ao celebrar a comunhão com os outros, seja uma comunidade inteira ou duas pessoas que se gostam e caminham juntas, estendeu-a a Deus.
Em qualquer destas situações, acontece Igreja, acontece re-ligião.
Foi um dia grande, aquele 16 de Agosto, um dia em que o sol brilhou intenso na minha cabeça ao longo dos sete quilómetros de regresso, por caminhos de carga de diamantes.
Naquele dia foram outras coisas a brilhar... a certeza de comunidades e famílias que em Deus vêm um Amor que é eternidade religada, como sempre devia ter estado!
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CORREIO DO VOUGA
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Angola e a falácia do processo democrático


Vi a campanha pessoalmente, li o dia das eleições pelo relato clandestino que me chegou de lá, dos mais diversos locais do país. Li também, na generalidade da imprensa, algumas notícias que pareciam falar de outro país que não Angola, exceptuando raros e meritosos casos que com coragem falaram a verdade, arriscando o seu trabalho futuro. Alguns periódicos portugueses já saborearam agora algumas dessas consequências, integrando o vasto leque de títulos não autorizados a trabalhar em Angola na cobertura desta palhaçada a que o governo angolano chamou de eleições.

A nível nacional, os noticiários dos canais públicos e o privado (sendo que este pertence à filha do presidente) eram integralmente a cobertura das actividades do Presidente da República, cognominado de ‘o arquitecto da paz’ e da campanha do MPLA. Nas últimas duas semanas o tal da paz deixou de aparecer nas câmaras e comícios no habitual fato vincado e gravata para aparecer de camisa destrilhada comprida, tentando colar a sua imagem ao incomparável Nelson Mandela.
Não satisfeitos com todo o domínio, no tempo de publicidade entre programas e pequenos tempos de antena de outros partidos, passavam verdadeiras peças de arte do marketing em homenagem e agradecimento à figura ignominiosa de José Eduardo dos Santos.

Província do Moxico, interior de Angola. Grande boliço da máquina partidária do MPLA e governo (ninguém distinguia o que era um e o outro). Os voos militares transportavam duas coisas durante este mês: o material da comissão nacional de eleições e material de propaganda do MPLA, o partido do governo.
Os comícios, as festas, os bonés, as bandeiras, as t-shirts que todos usavam ou por medo de não usar ou por ser uma peça de roupa nova e única… era tudo da estrela do MPLA.
Até aqui, merchandising normal aos olhos europeus diriamos.
O que não será muito normal é a explosão, literal de um dia para o outro de centenas de motorizadas novas, dezenas de carros, distribuição de bicicletas, de televisões e antenas parabólicas em aldeias do interior onde as pessoas vivem em cubatas e a electricidade não existe.
Até aqui, propaganda, comprada com dinheiro do Estado, que é de todos. Crime de peculato, grave… apenas.

Mais próximo às eleições, um dos comícios que fonte de confiança que me pede o favor enorme de não ser identificada descreveu-me o ambiente como algo mais que muito intimidatório. Em chokwé, no município de Luau, junto à fronteira com a Zâmbia, o palestrante tentava cativar assim o povo ao voto no partido do poder: “Lá em cima, muito alto no céu, está um satélite que vocês não podem ver mas que vê tudo em todo o lado e vai ver em quem vocês vão votar. Se não votarem no MPLA, irão sofrer graves consequências”.
Já não é apenas grave.

Chegado o grande dia das eleições, o medo das pessoas tomou proporções que ainda não tinha tido durante a campanha.
Antes, era um medo surdina, ninguém falava muito nisso. Numa reunião em que os observadores da EU foram falar a representantes das comunidades, todos responderam que tudo estava a correr bem. Só depois, timidamente e em particular lhes disseram mais alguma coisa do que se passava.
O clima de vigilância era presente, sempre. Os observadores eram os mais observados! Sabiam disso e sabiam da pouca utilidade do seu trabalho uma vez que os políticos para quem trabalhavam pareciam ter por vezes relações de vassalagem para os políticos que eram os donos daquela terra.
Apesar disso, a tensão para com os observadores era evidente. A uma semana das eleições a polícia foi ao encontro deles para lhes oferecer ‘impostamente’ escolta permanente. Naquela altura observar os observadores já não era suficiente. Havia também que controlar o que eles observavam…
O medo, sempre companheiro de todo o processo cresceu no dia 5 de Setembro em alguns lugares.
“As pessoas não dormiram toda a noite do nervoso que estavam, com medo que o novo processo eleitoral desembocasse em guerra como da última vez. Em algumas assembleias de voto, as filas estavam grandes desde as 4h da manhã. A obsessão das pessoas era votar e ter o dedo manchado de negro para demonstrar que tinham cumprido as ordens do governo e dos sobas. A maior parte delas não sabia votar ou sequer dobrar o boletim de voto… Durante a contagem o clima foi de tensão, sem possibilidades de ninguém reclamar, os delegados da oposição nem abriam a boca e sim, o MPLA ganhou e por muito de avanço, como em todas as ditaduras onde se celebram eleições. O controlo do MPLA foi absoluto através do controlo dos membros das mesas eleitoras. De facto, os presidentes destas eram sempre funcionários do governo. O resto dos elementos, obedecia.”
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É estranho isto, tendo em conta muitos dos comentários que fomos ouvindo por cá, de respeito, de eficiência, de liberdade e justiça.
Já não é muito estranho se tivérmos em conta que houve casas e carros queimados durante a campanha… se tivérmos em conta que o governo comprou todo o combustível disponível nas bombas de revenda bloquando assim a mobilidade aos partidos em campanha… Já não é estranho se tivérmos em conta que cada grupo que se encontrava para debater ou explicar eleições era vigiado, tinha de falar com o cuidado próprio de quem não pode ser muito claro.

Nada disto é muito estranho tendo em conta todos os antecedentes do país até ao tempo em que o território pertencia ao colono, curiosamente, Portugal… e neles, nos antecedentes, recordo-me de um banco português no seu marketing institucional organizando palestras de bom ambiente e justiça humanitária convidou um activista que disse que “Angola era gerida por criminosos”. O banco promotor depressa se apressou a desculpar-se a bem dos interesses do dinheiro, demarcando-se das declarações mais que verdadeiras de que Angola é de facto gerida por criminosos.
Pena que na ORBIS temos também os nossos recursos financeiros, sempre em trânsito é certo, em caminho para os projectos de desenvolvimento em que trabalhamos, guardados nesse mesmo banco. Não será por muito mais tempo. É que criminosos são os que matam e os que se ajoelham perante eles. De certa maneira, todos ficam manchados.
Viva a democracia, os Direitos cívicos e políticos! Viva o povo de Angola, o que luta todos os dias numa batalha desigual por uma vida melhor, mais justa e mais livre!
Viva os que nunca desistirão de sonhar, mesmo sabendo que o satélite pode ver tudo… arranjaremos sempre uma maneira de entrar e fazer o nosso trabalho, o dos direitos da humanidade consagrados também por governos soberanos que hoje mais não são que criminosos corruptos, mas que um dia sairão e o poder será enfim, do Povo!
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[1] Citação de informador imparcial e de plena confiança, não identificado a seu pedido.
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O AVEIRO
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