quarta-feira, 19 de outubro de 2016

António Guterres na ONU

Um mundo melhor, mais justo e mais brilhante em que toda a humanidade possa viver e usufruir de Direitos Humanos em plenitude pode parecer uma visão inalcançável ou um caminho não possível de percorrer.
O caminho para lá chegar é de facto gigantesco, mas inspira e é esse o foco e são esses os desafios que António Guterres, um dos homens ao leme desta tarefa de mudar o mundo, terá pela frente quando no início de Janeiro iniciar as suas funções de serviço como secretário-geral das Nações Unidas. Eis alguns deles:

1.     Novo acordo para os refugiados – assunto de que o próprio é muito experiente. António Guterres terá nas mãos a urgência do agora da vida de pelo menos 21 milhões de pessoas. Mais de duas vezes o número de habitantes de Portugal.
São vários os focos de conflito no mundo, destacando aqui aquele que nos é mais próximo geograficamente: a Síria.

2.     Prevenir e pôr termo a crimes e atrocidades em larga escala que vão acontecendo no mundo num desrespeito inacreditável pelo direito à vida. As Nações Unidas têm ferramentas de prevenção e resolução de conflitos, tem a carta das Nações Unidas e legislação internacional humanitária. Do mesmo modo, combater a impunidade de quem comete esses crimes, utilizando o Tribunal Penal Internacional para que seja feita justiça a todas as vítimas.

3.     Defender a sociedade civil. É ela o garante da Democracia, da pluralidade da liberdade. A sociedade civil, a comunicação social com enfoque nos jornalistas que atravessam a vida para denunciar a verdade por mais dolorosa que seja, devem ser apoiados. A sociedade civil é o garante do equilíbrio de forças que não deixará nunca a tirania do poder sobrepor-se aos Direitos Humanos.

4.     Defender os direitos das pessoas marginalizadas, defender todas as pessoas que por virtude de guerras, catástrofes naturais, crises económicas se tornam vulneráveis. A pobreza extrema é um mal de má gestão dos recursos que a Terra tem. Há que chegue para todos.

5.     Garantir a igualdade de género. Garantir o respeito, garantir que todos, sejam o que são e como são: iguais! Seres humanos em plenitude, com os mesmos direitos e com os mesmos deveres.

6.     Acabar com a pena de morte. Um desafio histórico e uma meta dourada. Chegarmos ao dia em que no mundo já não se mate em nome da Justiça. A pena de morte não é justiça. Tirar a vida a alguém não será nunca justo nem sinónimo de justiça. Será luminoso o dia em que pudermos celebrar um mundo onde nenhuma nação tenha a pena de morte como forma penal.


Finalmente, o desafio interno e um dos maiores, o que permitirá que todos os outros aconteçam. A reforma, por dentro, da própria organização, das suas centenas de agências e das relações de governança com as nações com vista a (7.) Fortalecer o impacto das Nações Unidas nos Direitos Humanos.


in jornal "O Ponto" 

segunda-feira, 28 de março de 2016

É Páscoa em Lahore.



Dia de Páscoa de 2016, um atentado suicida de ideias extremas, mata quase uma centena de mulheres e crianças que brincavam na rua em Lahore.

De olhar perdido, é no entanto Páscoa, quase como um paradoxo, a esperança teima em ser ação. A Vida sobrepõe-se, sempre, sempre e no meio do desconhecimento que faz a intolerância, que faz os mundos criticarem-se, porque temos sempre medo do que não conhecemos e o que não conhecemos pode ser uma ameaça. Destruir é mais fácil, mais urgente do que caminhar ao encontro do outro, desse não conhecimento em quem assentamos todas as culpas.
Não conhecemos a vida dos outros nem aquilo em que acreditam, não fazemos pontes, não construímos concórdia. É mais fácil o barulho, o estrondo.
É mais fácil rebentar bombas e culpar religiões, estão a jeito, culpar a injustiça e o mal. É mais fácil apontar o dedo que compreender.

Nada na Religião, nada, fala de ódio e de causar morte a outro. Passa-me pela memória o rosto de amigos muçulmanos, uns xiitas, outros sunitas, o rosto de amigos cristãos onde ser cristão é ser minoria, ali mesmo em Lahore, no Paquistão. Passam-me o rosto de amigos hindus e budistas e tantos outros, longe e perto e tão semelhantes no seu carinho e na sua bondade. São eles o modelo de religamento, do religar, do religião.

Nada explica uma coisa destas. Tento apenas perceber como chegámos aqui enquanto civilização. Um ser vivo, mata-se para matar uma centena de seres vivos da sua espécie. Nada explica isto, apenas conforta a esperança que persiste.

É dia de Páscoa. É dia de Vida.