sábado, 20 de outubro de 2007

Manchas que custam a lavar... arca de zoe, uma coisa que se fez passar por ONG

“Sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário.”

Enquadrada no seu contexto, este é um bonito pensamento, dos tempos de juventude de Guevara, quando o cansaço ainda não lhe tinha toldado o entendimento e fazer mal em nome do bem maior que ele pensava procurar. Não pretendo julgar a pessoa, nem as suas acções. Não o faço porque o meu juízo seria o do ano 2007 na Europa e a realidade dele era outra, com outras condicionantes. É de facto uma figura que admiro imenso, até certo momento da sua vida. Sinto-me em sintonia com a força que viveu intensamente.

1. Sentir profundamente uma injustiça não foi com certeza o que levou a Arca de Zoe, uma suposta ONG francesa a ‘salvar’ crianças supostamente órfãs (não o eram), supostamente do Darfur (também não o eram). Se todas as suposições fossem verdade, levá-las-iam sim para o campo de refugiados mais próximo e com melhores condições, não tratariam de as levar para França, a mesma França que há pouco tempo fez avançar legislação difícil a qualquer imigrante.
Das duas uma: ou asnos de caridadezinha e com muito dinheiro (frete de um avião?!) ou criminosos que mais não queriam que fazer negócio, como negreiros do século XXI (segundo o L’Expréssion, um diário de Argel).

2. Um dos crimes pelo qual não serão julgados foi a desconfiança que lançaram a todas as ONG’s. A comunicação social africana brada aos céus a culpa delas, o Presidente do Chade Idriss Itno aproveita para atingir franceses e as ONG’s que se julgam acima das leis locais. Lança-se a desconfiança geral em relação às Missões e Projectos que elas desenvolvem. Desconfia-se de tudo… porque uns senhores se resolveram a fazer-se passar por uma ONG e enriquecer criminosa ou ingenuamente à custa disso.

3. Muitas Organizações vivem bem. Com bons jipes (a Comissão Europeia não permite a utilização em projectos humanitários financiados por si, de viaturas com mais de 2 anos). Muitas outras, à custa das despesas de deslocação, lá vão ganhando bem com cada uma que fazem, seja ela de 170 kms a Lisboa, seja ela de 8000 kms a bem mais longe.

4. Muitos dos grandes acusam os pequenos de amadorismo, de voluntarismo, no sentido pejorativo da palavra, enquanto os primeiros esbanjam orçamentos, os pequenos põem do bolso e não é porque queiram.

6. Muitas vezes, chegam às Organizações pessoas para o voluntariado, muito bem mascaradas de boas intenções. Avançam mundos e fundos mas em pouco tempo vem à superfície a verdadeira motivação: ou lavar pecados do passado pessoal, ou construir um bom currículo social ou outras coisas menos dignas. O que no início era “só para ajudar” acaba por causar mais trabalhos do que o trabalho que inicialmente renderia.

5. Conclui-se que para ajudar é preciso saber fazê-lo. É preciso trabalhar para a causa, para a ajuda, para o desenvolvimento adequado e autónomo das populações. Antes de se dar roupas, livros, fundos monetários, o que quer que seja, saiba sempre com quem está a lidar, peça sempre feedback daquilo em que investe o seu esforço.
Geralmente, as organizações da Igreja Católica são sempre eficientes e de confiança, por isto mesmo: mantém a garra do Amor cristão ao próximo e reúnem a competência de uma organização estruturada.
Não deixe de ajudar, só porque alguém se faz passar pelo que não é. Muitas vidas já foram verdadeiramente salvas e sem saírem das suas terras. Esse trabalho pode continuar… se soubermos como e quisermos ajudar e fazê-lo bem.
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CORREIO DO VOUGA, Novembro de 2007
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domingo, 14 de outubro de 2007

Uma fé inquieta... II

Como vamos mudar o Hoje?

A medida dos nossos sonhos é a medida das nossas realizações
J. Kentenich

A oportunidade de fazer melhor está por todo o lado, basta escolhermos agir. Fazer melhor é ver um espaço e preenchê-lo, ouvir um pedido de ajuda e atendê-lo, pegar numa coisa errada e fazê-la correcta. Pegar num canteiro cheio de ervas e limpá-lo, guardar um papel no bolso e esperar por um cesto onde o depositar. Fazer melhor é pagar ordenados aos empregados por tempo de serviço num bem, construir uma casa, pintar uma escola, entusiasmar a juventude, dar alimento aos pobres, revitalizar uma comunidade, ter atitudes irreverentes, desinstaladas, andar de t-shirt no meio de ‘doutorzinhos’ porque o que conta é o que se faz. Fazer melhor é partir para a acção, sem medo de ocupar charneiras porque todo o espaço já está ocupado. É percorrer o caminho sem medo, com determinação, focado no horizonte. Fazer melhor é fazer com paixão, o estar ligado, aventurando-nos para o meio da tempestade e fazê-lo com um propósito.
Li algumas destas ideias, imagine-se, numa caixa de sapatos.
A intenção do marketing era criar o espírito da marca, a identificação destas ideias com quem lhes calça o calçado para poder ir mais longe. Diz-se de facto, que uma pessoa diz muito de onde quer ir pelo calçado que pode ter. Faz sentido!
É gente desta garra, deste género acima descrito que costuma ser laureada com o Prémio Nobel da Paz.
A maior parte de nós, não será agraciada algum dia por tão nobre distinção, mas há que ter presente que a avaliação dos nossos desempenhos é sempre condicionada por quem nos avalia.
Portanto, sem ligar demasiado a planos, é importante que saibamos agir hoje, mudando o presente, fazendo melhor… desde o pequeno-almoço até ao descanso da noite.
São pequenos gestos, alguns são pouco mais que símbolos, a maioria deles completamente invisíveis mas ninguém lhes nega a importância! Imaginemos que amanhã nenhum padeiro faz pão?...
Imaginemos que amanhã a Igreja encerra todos os Centros Paroquiais e Sociais, todas as Organizações Humanitárias que criou, imaginemos que amanhã o padre já não pode entrar no hospital, imaginemos que amanhã a senhora anónima já não visita o doente que está sozinho, imaginemos que amanhã todos os missionários regressam a casa, imaginemos que amanhã toda e qualquer confissão ou convicção era impedida de entrar na escola…
Muito se perdia. Muito testemunho de fé dado pela acção se apagaria. Muita seria a falta que se sentiria.
Chegou portanto a hora de no ano de atenção aos pobres, trabalharmos de cabeça erguida como quem sabe que não faz favores, como quem sabe que vê oportunidades de fazer melhor e o faz sem ter de pedir licença, nem a ministros nem outros que tais que ameaçam sem saber muito bem a amplitude do que estão a dizer.
Cada um de nós, como ser único e como Igreja, tem um lugar no mundo, e seja lá onde isso for, o importante é preencher o vazio e fazê-lo melhor que o nada que ele seria sem nós… sem nunca ofender ou desrespeitar as liberdades, mas com a audácia e o empenho de quem sabe o que está a fazer e o faz bem, sem medos ou silêncios que nos levem como Igreja, ou como pessoas, à impertinente insignificância.

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CORREIO DO VOUGA

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