Quando eu era mais pequeno, fiquei uma vez na sala lá de casa, adormecido perto do quente da lareira. Era por alturas do Natal. A árvore mais alta do que eu dava abrigo e luz ao presépio de musgo e caminhos de areia que sempre tomava parte do meu tempo a fazer, e do da minha mãe a limpar.
Recordo-me que acordei estremunhado certa noite, mas depressa envolvido e protegido pelo calor das luzes da árvore de Natal e das brasas já esquecidas. Fiquei-me por lá mais um tempo antes de subir para o quarto e fiquei a olhar, meio perdido para o musgo, para os caminhos feitos de areia, para o pastor, para os reis a caminho, para a cabaninha sem o menino ainda e para uma figura que guardava todo o cenário e ao mesmo tempo encerrava em si um silêncio profundo, um certo ar de paz. Era José, um carpinteiro, o pai do menino Jesus. Era como ainda é hoje aqui ao meu lado. Como agora também na altura a luz discreta da árvore dava um certo encanto a todo o silêncio do presépio.
Mais crescido foram contando-me coisas sobre o pai de Jesus, fui lendo as partes em que ele aparece, sempre silencioso no Novo Testamento, porém sempre decisivo.
Quando se fala em sonho nos evangelhos, a maior parte é em referência a S. José. Sempre que era preciso, José fazia o impossível. Aceitou casar com uma mulher já grávida, noite tarde e longe de Nazaré deve ter procurado um sítio para a sua esposa, mulher judia grávida, e por isso impura, poder ficar e dar à luz. Com a sua vida estabelecida, foi para o Egipto por causa do sonho. Depois de lá se estabelecer, voltou de novo, por causa do sonho…
Estes Homens que buscam incessantemente aquilo a que os seus ‘sonhos’ chamam são espantosos. Deixam de lado a sua vida, os seus projectos, porque têm uma Missão. Eles são os que não se acomodam, são os que lutam, os que acreditam. A maior parte das vezes, são Homens de silêncio, de acção, de olhares profundos e contemplação. Falam quando têm de falar e não muito mais que isso. Ensinam através do exemplo.
Às vezes ouço aquelas ideias da ciência de que os quarenta dias de Jesus no deserto foram passados com os Essénios… pode até ter sido, pode nem ter sido. Continuo a achar que a grande escola de Jesus era José e a sua oficina, as mesas, as cadeiras, o torneador de madeira e os formões, a aperfeiçoar pacientemente com a contemplação necessária para fazer de um pedaço de madeira uma peça de serviço. A vida aprende-se com a vida e nas coisas comuns Deus ensina-nos tudo o que precisamos de saber para na vida, nas tarefas do dia colocarmos um pedaço de sonho. Juntando uma porção de Amor e suor do rosto a tudo o que fazemos, desde protocolos que assinamos até ao aperto de uma mangueira do quintal, os milagres acontecem, com as coisas simples, com o exemplo dos Josés anónimos que tanto fazem por cada um de nós, com humildade e trabalho.
Eu tive e tenho Josés na minha vida, mestres que da tarefa vulgar fazem um ofício sagrado, tornando a vida um conjunto de momentos de perfeição e dedicação, sempre em silêncio.
Vi um uma vez num campo de refugiados. O olhar atento e assustado de um pai refugiado que chega ao campo, sem conhecer nada, com alguns filhos em redor. A sua postura assustada, de quem tem medo não por si mas pelos seus filhos... de quem receia, mas não o pode mostrar porque tem de dar a protecção aos seus, tem de lhes sussurrar a cada momento que está tudo bem... Medo, e não mostrá-lo... protecção para dar, sem a ter...
Tive um José que se chamava Francisco. Era meu avô e eu ainda não tinha nascido. Um dia em sonhos e sem precisar para ele, decidiu partir para uma terra desconhecida. Ia abrir caminho aos seus, dizia ele, forte e possante, mas silencioso no seu ofício. Anos mais tarde, já comigo criança, era junto ao pinheiro de natal que dava abrigo ao presépio que me ensinava a ler e a escrever no calor do borralho que aquecia a sopa do frio da rua das canas. No Natal era dele a prenda maior, porque eu fazia anos lá perto e ele nunca misturava os afectos. Tudo ele fez para abrir caminho aos seus.
Outro José na minha vida, chamava-se Artur, era carpinteiro também. Construiu a casa do meu Pai, a fonte, os móveis… todos os gestos diários de casa eram auxiliados por algum objecto feito por ele, em silêncio. Homem calmo, silencioso, um sorriso discreto de contemplação… é a imagem que tenho do meu outro avô, ténue pois partiu comigo criança. A imagem que tenho dele é de um Homem sempre seguro, agarrava as situações, sempre sereno, sempre protector e acolhedor, com uma calma carinhosa. Não dizia muito muitas vezes, pois quando se faz algo de sagrado, fazemos silencio para respeitar, assim também quando vemos o absoluto, calamos e olhamos só. É o que basta.
Hoje, o meu Pai, um José com outro nome, comigo perto ou comigo longe, durante alguns anos, com um mar a separar-nos, tudo ele fazia em silêncio e com um sorriso sereno parecido ao do Pai dele, talvez até com sacrifício, mas um sacrifício de Amor, fazendo o que fosse necessário, correndo, sonhando, partindo e cortando, arriscando os ganhos para construir tudo de início, com trabalho de manhã até ao fim do dia, havendo ainda tempo para me fazer o pão para levar para a escola, tantas coisas silenciosas, tantas para me abrigar e educar, me abrir caminhos e me proporcionar uma vida plena de sonhos.
Vida que eu hoje, contemplo, com a árvore de Natal ao meu lado, com o presépio debaixo. Observo o silêncio dos ‘José’ que contraria o destino dando-lhe a volta, porque o sonho de Deus para nós é muito grande e é na vida de todos os dias, do trabalho suado, comum e pleno de Amor que os milagres se cumprem e as promessas de Deus têm lugar…
Sem José, o que seria de Jesus? Sem Josés, o que seria do mundo?
Recordo-me que acordei estremunhado certa noite, mas depressa envolvido e protegido pelo calor das luzes da árvore de Natal e das brasas já esquecidas. Fiquei-me por lá mais um tempo antes de subir para o quarto e fiquei a olhar, meio perdido para o musgo, para os caminhos feitos de areia, para o pastor, para os reis a caminho, para a cabaninha sem o menino ainda e para uma figura que guardava todo o cenário e ao mesmo tempo encerrava em si um silêncio profundo, um certo ar de paz. Era José, um carpinteiro, o pai do menino Jesus. Era como ainda é hoje aqui ao meu lado. Como agora também na altura a luz discreta da árvore dava um certo encanto a todo o silêncio do presépio.
Mais crescido foram contando-me coisas sobre o pai de Jesus, fui lendo as partes em que ele aparece, sempre silencioso no Novo Testamento, porém sempre decisivo.
Quando se fala em sonho nos evangelhos, a maior parte é em referência a S. José. Sempre que era preciso, José fazia o impossível. Aceitou casar com uma mulher já grávida, noite tarde e longe de Nazaré deve ter procurado um sítio para a sua esposa, mulher judia grávida, e por isso impura, poder ficar e dar à luz. Com a sua vida estabelecida, foi para o Egipto por causa do sonho. Depois de lá se estabelecer, voltou de novo, por causa do sonho…
Estes Homens que buscam incessantemente aquilo a que os seus ‘sonhos’ chamam são espantosos. Deixam de lado a sua vida, os seus projectos, porque têm uma Missão. Eles são os que não se acomodam, são os que lutam, os que acreditam. A maior parte das vezes, são Homens de silêncio, de acção, de olhares profundos e contemplação. Falam quando têm de falar e não muito mais que isso. Ensinam através do exemplo.
Às vezes ouço aquelas ideias da ciência de que os quarenta dias de Jesus no deserto foram passados com os Essénios… pode até ter sido, pode nem ter sido. Continuo a achar que a grande escola de Jesus era José e a sua oficina, as mesas, as cadeiras, o torneador de madeira e os formões, a aperfeiçoar pacientemente com a contemplação necessária para fazer de um pedaço de madeira uma peça de serviço. A vida aprende-se com a vida e nas coisas comuns Deus ensina-nos tudo o que precisamos de saber para na vida, nas tarefas do dia colocarmos um pedaço de sonho. Juntando uma porção de Amor e suor do rosto a tudo o que fazemos, desde protocolos que assinamos até ao aperto de uma mangueira do quintal, os milagres acontecem, com as coisas simples, com o exemplo dos Josés anónimos que tanto fazem por cada um de nós, com humildade e trabalho.
Eu tive e tenho Josés na minha vida, mestres que da tarefa vulgar fazem um ofício sagrado, tornando a vida um conjunto de momentos de perfeição e dedicação, sempre em silêncio.
Vi um uma vez num campo de refugiados. O olhar atento e assustado de um pai refugiado que chega ao campo, sem conhecer nada, com alguns filhos em redor. A sua postura assustada, de quem tem medo não por si mas pelos seus filhos... de quem receia, mas não o pode mostrar porque tem de dar a protecção aos seus, tem de lhes sussurrar a cada momento que está tudo bem... Medo, e não mostrá-lo... protecção para dar, sem a ter...
Tive um José que se chamava Francisco. Era meu avô e eu ainda não tinha nascido. Um dia em sonhos e sem precisar para ele, decidiu partir para uma terra desconhecida. Ia abrir caminho aos seus, dizia ele, forte e possante, mas silencioso no seu ofício. Anos mais tarde, já comigo criança, era junto ao pinheiro de natal que dava abrigo ao presépio que me ensinava a ler e a escrever no calor do borralho que aquecia a sopa do frio da rua das canas. No Natal era dele a prenda maior, porque eu fazia anos lá perto e ele nunca misturava os afectos. Tudo ele fez para abrir caminho aos seus.
Outro José na minha vida, chamava-se Artur, era carpinteiro também. Construiu a casa do meu Pai, a fonte, os móveis… todos os gestos diários de casa eram auxiliados por algum objecto feito por ele, em silêncio. Homem calmo, silencioso, um sorriso discreto de contemplação… é a imagem que tenho do meu outro avô, ténue pois partiu comigo criança. A imagem que tenho dele é de um Homem sempre seguro, agarrava as situações, sempre sereno, sempre protector e acolhedor, com uma calma carinhosa. Não dizia muito muitas vezes, pois quando se faz algo de sagrado, fazemos silencio para respeitar, assim também quando vemos o absoluto, calamos e olhamos só. É o que basta.
Hoje, o meu Pai, um José com outro nome, comigo perto ou comigo longe, durante alguns anos, com um mar a separar-nos, tudo ele fazia em silêncio e com um sorriso sereno parecido ao do Pai dele, talvez até com sacrifício, mas um sacrifício de Amor, fazendo o que fosse necessário, correndo, sonhando, partindo e cortando, arriscando os ganhos para construir tudo de início, com trabalho de manhã até ao fim do dia, havendo ainda tempo para me fazer o pão para levar para a escola, tantas coisas silenciosas, tantas para me abrigar e educar, me abrir caminhos e me proporcionar uma vida plena de sonhos.
Vida que eu hoje, contemplo, com a árvore de Natal ao meu lado, com o presépio debaixo. Observo o silêncio dos ‘José’ que contraria o destino dando-lhe a volta, porque o sonho de Deus para nós é muito grande e é na vida de todos os dias, do trabalho suado, comum e pleno de Amor que os milagres se cumprem e as promessas de Deus têm lugar…
Sem José, o que seria de Jesus? Sem Josés, o que seria do mundo?
Pedro, aspirante a José…
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CORREIO DO VOUGA, Edição especial de Natal, 2006
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