É num olhar a dentro que respondo ao Ponto, neste desafio de uma vez por mês escrever sobre assuntos locais. Ao Ponto, renovado nesta edição, agradeço o desafio e a confiança, que espero cumprir com o brio e a responsabilidade que todo e qualquer cidadão tem perante a sua comunidade.
Na minha terra, andam pessoas descalças. Foi uma coisa que ouvi, não muito longe de Vagos, sobre Vagos, mas já noutro concelho. Dei por mim a pensar-me culpado, eu e mais alguns que não fazemos nada, ou não fazemos, por maior que seja o esforço, o suficiente para acabar com o que aquela frase significava: vivem pessoas no meu concelho que não têm garantidos os Direitos que todo o ser humano devia ter.Noutra ocasião, ouvi o Nobel da Paz, D. Ximenes Belo, dizer que a Política é o caminho, por excelência da Paz e do Desenvolvimento. Quando existem estas duas, a pobreza dá lugar ao bem estar das pessoas e da comunidade.
Fazem os políticos que nós elegemos (por delegação, fazemos nós através deles?) tudo o que está ao alcance da Boa Governação que construa um mundo melhor a partir do Local?
Existe transparência financeira dos dinheiros públicos, de todos nós contribuintes, quando se fazem protocolos que mudam mãos de dinheiro entre público e privado para serviços públicos e assim pagamos duas vezes?
Faz sentido na boa transparência que existam adjudicações ou contratações por ajuste directo, sem concursos que promovam a escolha do melhor a cada situação da causa pública, do bem comum e da nobreza do que é (ou devia ser) a política?
Haverá boa governação local quando as obrigações e atribuições admnistrativas públicas não funcionam com a celeridade devida e são interrompidas por forças que parecem ocultas mas que toda a gente parece conhecer?
Haverá justiça com todos os membros da comunidade quando o Desenvolvimento Económico responde a interesses especiais ou a calendários eleitorais que provocam gastos desnecessários do ponto de vista do bem comum, obrigando as pessoas a financiarem projectos que elas não desejam ou mesmo de que desconhecem o custo de oportunidade?
Na fuga para a frente de nos edificarmos em altura não estaremos a perder uma identidade cultural específica que faz de nós únicos no país e que pode potenciar um cluster para um turismo que hoje apenas tem expressão nas obras da Barra e Costa Nova?
Estaremos a integrar o Desenvolvimento Económico e Humano, o Planeamento do Espaço em função disso? Estaremos a sonhar o suficiente ou estaremos resignados ao que há e ao que temos?
Nas minhas dúvidas, ficam as certezas de que todos nascemos iguais e de que se o meu semelhante vive na pobreza, então eu também sou mais pobre. E por isso, não podemos viver a nossa vida com indiferença à injustiça social e económica, seja em África, na Amazónia ou aqui ao lado.Não podemos não correr a fundo na entrega, na honestidade, no espírito de trabalho e de sacrifício, nas motivações, nos sonhos, nos projectos mas, sobretudo na consciência de que nenhum de nós devia deitar tranquilamente a cabeça na almofada todas as noites sabendo que não fizemos tudo o que está ao nosso alcance para fazer da nossa terra um sítio de justiça, direito e prosperidade.
Não podemos permitir que a Política, na sua nobreza mais profunda possa ser aproveitada para outras coisas que não o bem comum e que possa ser sub-aproveitada no que concerne ao caminho para a Paz, uma Paz que se estende por Desenvolvimento sustentado.
Vem aí tempo de eleições. Que ele não seja tempo perdido ou tempo de divisão, mas que seja sobretudo tempo de reflexão e balanço para um melhor caminho, sempre, porque esse é único e une-nos a todos, mesmo que as ideologias nacionais sejam diferentes.
Se pudermos responder imediata e espontaneamente “não” a todas as questões acima, então as nossas terras e o nosso país serão um óptimo sítio para se viver...
... e além disso, não haverá pessoas descalças.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Na minha Terra andam pessoas descalças
:: O Ponto ::
ed. de 09.07.2009
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por isso é que se andássemos na guerra... era contigo que eu queria ir para a frente de combate.
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