Para o jornal O Ponto, com o mote "Em dez anos tudo muda" pelo 10º aniversário do jornal

Vivemos no tempo dos extremos.
Muda-se tudo, ou não se muda nada, muda-se de uma vez, ou não se mexe em nada.
Em dez anos o mundo começou a viver o medo do terrorismo,
A guerra foi justificada com ele,
Começámos a descalçar-nos nos aeroportos,
Continuámos a descalçar os mais pobres,
Acabámos com a fome no Brasil (acabámos?)
Continuámos com a fome na China.
Paradoxalmente, a China ficou mais rica.
O país do comunismo é dono do capital dos capitalistas.
Os extremos estão com mais voz.
Em dez anos saíram do armário,
E como se não lhes dessem voz,
Entraram de novo para dentro, como se estivessem num relicário.
Com cobardia matam pela calada,
Em dez anos foi em Nova Iorque, foi no Iraque, no Afeganistão, na Indonésia, em Londres, em Cabul, e Madrid aqui tão perto.
Em dez anos os nossos políticos (alguns) ficaram mais fortes (gordos).
De bolsos mais pesados,
De esquemas mais acertados,
De jeitos mais intrincados,
Com a certeza do voto cada vez mais incerta
E os nervos a subir-lhes pela certa.
Porque o povo começa a estar farto, de covardes às escondidas,
Sejam eles terroristas, empresários exploradores, ou operários aproveitadores,
Porque o povo começa a estar farto, de gente por de trás da gravata, sejam eles políticos de grande lata,
Dos que ainda batem o peito pelo 25 de Abril como se lhe tivessem feito algo estanque no tempo,
ou dos outros que vieram a seguir e que aprenderam nas carteiras das jotas.
Porque o povo está farto, em dez anos teve tempo disso.
As pessoas querem equilíbrio, justiça, paz, desenvolvimento.
Querem, e querem ser parte, participar e mobilizar.
Porque já que ninguém muda o mundo por elas, apesar das promessas,
Elas arregaçam-se e fazem-no elas, podem não fazer tudo,
Mas vão fazer a parte delas,
Houvesse essa mudança em dez anos.
E daqui a outros dez, haja esperança,
Que as estradas que hoje estão esburacadas (as de alcatrão e as da vida),
Amanhã serão libertadas,
Dos nossos carros às pancadas.
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