in: jornal Correio do Vouga, edição especial de Natal 2011
Uma vida doce, mas dura. Era assim que
vivia naqueles dias, sem poisos fixos, sem rotinas certas, sem horas para o que
fosse mais do que o nascer do sol, o pôr do sol, o frio enganado pelo crepitar
de uma fogueira noite adentro, a frescura da sombra dia alto.
Não se pertence a nada, nada nos pertence,
apenas o dia e aquilo que estamos a ser, a fazer.
Era temente a Àquele de quem não se podia
dizer o nome, como qualquer outro judeu. Os meus sacrifícios eram feitos do
altar da terra prometida, não nos templos. O vestir e o comer era o nosso de
cada dia. Nada mais, nada menos.
As paredes do meu quarto estavam forradas
a flores do campo, o chão a erva fresca e doce de orvalho. As copas das
árvores, baixas nestas terras davam-me o tecto necessário junto do estábulo.
A minha língua era a do silêncio, a de
quem vê o mundo e aprende a cada passagem, uma lição que não se percebeu na
anterior.
A minha família estava distante, quase
como se não tivesse raízes, era assim que o mundo me via.
O judaísmo preza as origens, a linhagem, a
família, a terra, a que nos foi dada em promessa e que teimamos não partilhar
com os outros, delimitando nomes e espaços.
Era por isso que não nos viam com bons
olhos. Pastores são vagabundos que correm a terra por onde alcança o verde para
as suas ovelhas, que dariam a lã que os fariseus e sacerdotes do templo haviam
de vestir.
Seriamos os últimos a ver um Rei, seja
qual ele fosse que viesse.
Nisso estranhei o vento tranquilo de uma
noite, fria e estranha por isso àquela altura amena do ano. Vento e luzes,
cintilantes no céu por cima do meu leito de sono e silêncio. Aquele silêncio que se sente quando somos
abandonados da sociedade, os últimos em tudo, até nos que nos pregam em
primeiro.
Ouvimos a notícia de uma criança que
acabara de nascer num dos estábulos dos nossos.
Não havia lugar na estalagem para uma
mulher prestes a dar à luz. Eram oito, os dias de impureza nela e em quem quer
que lhe tocasse.
Ficou no calor do abrigo de um dos meus. O
pobre acolher o pobre, o rejeitado acolhe o rejeitado e é assim que ele o deixa
de ser, porque afinal, foi acolhido.
A luz cintilante saía do abrigo. Foi
curioso, mas com medo que me cheguei perto e entrei. Levei comigo o cordeiro
mais pequeno, com a lã mais limpa e macia. O pequenino bebé sentir-se-ia seguro
e quente, envolvido pela sua mãe, com esta lã, como se o próprio Deus o pegasse
no colo. Não são estes meus cordeiros amados de Deus que os criou?...
Fui de mansinho, como quando se vê uma
criança... Há sempre um certo brilho ao redor dela quando dorme. Uma solenidade
própria de quem está a ver a criação a acontecer naquele instante, Deus e o
sopro suave de Amor que acontece a cada respirar tranquilo do sono da criança,
das novas células que nascem e se transformam, no sentido de todo o presépios
encerrado naquele estábulo de menino que dorme tranquilo nos seus momentos
primeiros de chegada à terra.
A mãe descansava, enquanto o pai nos deu
as boas vindas interrompendo o alimento do borralho onde se aquecia alguma
comida que trouxemos.
A paz imensa que todas as crianças recém
nascidas pintam de cores o que as rodeia era o que me inundava.
Silêncio e contemplação. Ser frágil, de
pele macia, envolto em panos e palhas de onde os animais comem.
O que nos dirá Ele quando crescer? Que
arte será? Pastor excluído como eu? Carpinteiro? Médico? Pedagogo? Será ele um
homem de palavras ou de palavra? Será feliz? Terá as suas origens demarcadas?
Deixará descendência?
Quem será e o que fará deste tempo que
corre desde agora até que parta deste mundo? O que ficará diferente por causa
Dele?
Quantos trilhos terá de correr, ele que
começa aqui tão debaixo, tão invisível, rejeitado pela tradição, que tradição
começará Ele? O que farão em nome Dele?
Nasceu humilde, sem promessas ou luzes de
benvindo ao mundo. Mas como dizem noutras paragens por onde já andei,
procurando os melhores pastos, cada vez que nasce uma criança, é Jeová Deus que
diz aos Homem que acredita na humanidade.
Glória a Ele e paz na terra aos homens de
boa vontade.
Naquele noite doce e feliz... eu tive paz,
um pastor sem nome da Palestina com pouco mais que boa vontade.

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