sábado, 17 de dezembro de 2011

O diário de um pastor de Belém





in: jornal Correio do Vouga, edição especial de Natal 2011

Uma vida doce, mas dura. Era assim que vivia naqueles dias, sem poisos fixos, sem rotinas certas, sem horas para o que fosse mais do que o nascer do sol, o pôr do sol, o frio enganado pelo crepitar de uma fogueira noite adentro, a frescura da sombra dia alto.
Não se pertence a nada, nada nos pertence, apenas o dia e aquilo que estamos a ser, a fazer.

Era temente a Àquele de quem não se podia dizer o nome, como qualquer outro judeu. Os meus sacrifícios eram feitos do altar da terra prometida, não nos templos. O vestir e o comer era o nosso de cada dia. Nada mais, nada menos.

As paredes do meu quarto estavam forradas a flores do campo, o chão a erva fresca e doce de orvalho. As copas das árvores, baixas nestas terras davam-me o tecto necessário junto do estábulo.
A minha língua era a do silêncio, a de quem vê o mundo e aprende a cada passagem, uma lição que não se percebeu na anterior.

A minha família estava distante, quase como se não tivesse raízes, era assim que o mundo me via.
O judaísmo preza as origens, a linhagem, a família, a terra, a que nos foi dada em promessa e que teimamos não partilhar com os outros, delimitando nomes e espaços.
Era por isso que não nos viam com bons olhos. Pastores são vagabundos que correm a terra por onde alcança o verde para as suas ovelhas, que dariam a lã que os fariseus e sacerdotes do templo haviam de vestir.

Seriamos os últimos a ver um Rei, seja qual ele fosse que viesse.

Nisso estranhei o vento tranquilo de uma noite, fria e estranha por isso àquela altura amena do ano. Vento e luzes, cintilantes no céu por cima do meu leito de sono e silêncio.  Aquele silêncio que se sente quando somos abandonados da sociedade, os últimos em tudo, até nos que nos pregam em primeiro.
Ouvimos a notícia de uma criança que acabara de nascer num dos estábulos dos nossos.
Não havia lugar na estalagem para uma mulher prestes a dar à luz. Eram oito, os dias de impureza nela e em quem quer que lhe tocasse.
Ficou no calor do abrigo de um dos meus. O pobre acolher o pobre, o rejeitado acolhe o rejeitado e é assim que ele o deixa de ser, porque afinal, foi acolhido.

A luz cintilante saía do abrigo. Foi curioso, mas com medo que me cheguei perto e entrei. Levei comigo o cordeiro mais pequeno, com a lã mais limpa e macia. O pequenino bebé sentir-se-ia seguro e quente, envolvido pela sua mãe, com esta lã, como se o próprio Deus o pegasse no colo. Não são estes meus cordeiros amados de Deus que os criou?...

Fui de mansinho, como quando se vê uma criança... Há sempre um certo brilho ao redor dela quando dorme. Uma solenidade própria de quem está a ver a criação a acontecer naquele instante, Deus e o sopro suave de Amor que acontece a cada respirar tranquilo do sono da criança, das novas células que nascem e se transformam, no sentido de todo o presépios encerrado naquele estábulo de menino que dorme tranquilo nos seus momentos primeiros de chegada à terra.
A mãe descansava, enquanto o pai nos deu as boas vindas interrompendo o alimento do borralho onde se aquecia alguma comida que trouxemos.
A paz imensa que todas as crianças recém nascidas pintam de cores o que as rodeia era o que me inundava.

Silêncio e contemplação. Ser frágil, de pele macia, envolto em panos e palhas de onde os animais comem.

O que nos dirá Ele quando crescer? Que arte será? Pastor excluído como eu? Carpinteiro? Médico? Pedagogo? Será ele um homem de palavras ou de palavra? Será feliz? Terá as suas origens demarcadas? Deixará descendência?

Quem será e o que fará deste tempo que corre desde agora até que parta deste mundo? O que ficará diferente por causa Dele?

Quantos trilhos terá de correr, ele que começa aqui tão debaixo, tão invisível, rejeitado pela tradição, que tradição começará Ele? O que farão em nome Dele?

Nasceu humilde, sem promessas ou luzes de benvindo ao mundo. Mas como dizem noutras paragens por onde já andei, procurando os melhores pastos, cada vez que nasce uma criança, é Jeová Deus que diz aos Homem que acredita na humanidade.

Glória a Ele e paz na terra aos homens de boa vontade.
Naquele noite doce e feliz... eu tive paz, um pastor sem nome da Palestina com pouco mais que boa vontade.


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