sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Framing e a informação que (de)forma - jornal Correio do Vouga


in Jornal Correio do Vouga, 12 de Fevereiro de 2014.


Esta é uma história fictícia, a primeira. Uma grande empresa vendia lenços de papel. Como estava a vender poucos e porque era pouco conhecida, resolveu fazer uma campanha em que daria 10% dos lucros das vendas dos lenços a uma campanha de causar sorrisos, num país distante de África.
Todo o mote público da empresa estava focado nesses 10% dos lucros e nos sorrisos que causavam. Ninguém falava nos outros 90% dos lucros. De repente, 10% valia muito, muito mais que 90%.
O que esta empresa fez, chama-se de ‘framing’. Enquadra a atenção naquilo que quer que as pessoas enquadrem a sua atenção e baralha assim a matemática de que 10 é muito menos que 90.

Há algum tempo, um deputado levou a votação no Parlamento, considerar um mesmo referendo sobre dois assuntos diferentes, o framing. A co-adoção e a adoção. Completamente extemporâneo, o político conseguiu levar a efeito um fenómeno que se designa por ‘agenda building’. Tentar marcar a atualidade com um assunto e levar a que esse assunto se torne viral, que a imprensa e as pessoas falem dele, quase só dele. Acendeu o rastilho a um assunto de que não se falava, não com verdadeira intenção de referendar, discutir, iluminar, mas de chutar para canto, de matar reflexão serena e de desviar assunto.

A imprensa foi atrás do isco e começou, alguma dela, a falar em exclusivo de co-adoção e da praxe. Continuando a classificar fenómenos sociais, designa-se isto de ‘agenda setting’: a capacidade da imprensa de influenciar e marcar os assuntos públicos que quer na ordem do dia.

E nós caímos todos nisto, que nem patinhos. De repente, começamos a receber e-mails com pedidos de petições de católicos mais fechados e de ativistas  mais liberais, tudo a clamar grande desgraça porque se o outro tiver liberdade, eu vou ser perseguido; porque eu não tenho liberdade, e os outros têm, porque eu tenho direito e os outros também têm. Parece um jogo de futebol em que só ganha um lado, nunca os dois.

Errado. Em sociedade, melhor ainda, em comunidade, o desafio é encontrar modo de todos ganharmos e de todos vivermos bem, em paz, tranquilos, a buscar a felicidade como acreditarmos nela e dentro dos limites de razoabilidade da felicidade do outro.

A co-adoção é fértil em casos. E como cada caso é um caso, há casos para um lado e casos para o outro. Há casos em que o pai faleceu, os filhos ficam com o companheiro e já não podem ver os avós. Há casos em que a mãe faleceu e os filhos que só conhecem a companheira desta, mas como não lhe são legalmente ligados têm de ir para o orfanato. Há casos para tudo, aproveitados para todos, se não formos serenos na análise.
A lei tem de ser cega, mas felizmente, a justiça e os seus oficiais são humanos.
O que me preocupa como cristão é perceber: quando é que deixámos de lutar pelos direitos das pessoas, para nos tornarmos lutadores contra as pessoas que pensam diferente de nós? Quando é que, na História da Igreja, deixámos de ser como Cristo a quem levam a mulher adúltera, já julgada, para ser apedrejada e para entalar o Mestre? Quando começámos, na História do Cristianismo, a ter as certezas e a razão toda? A excluir em vez de incluir?

Quem sou eu para julgar? É medo? É status quo? É acharmos mesmo que somos os bons, que temos todos os inputs para analisar e decidir tudo em absoluto e não há mais ninguém tão capaz disso como nós?

Madeleine L’engle, foi escritora. Nasceu nos Estados Unidos e viveu na Europa. Uma americana de oportunidades e liberdade e europeia de serenidade no pensamento conciliatório. Filha de pais episcopalianos muito trabalhadores, não recebeu a educação cristã por falta de tempo dos pais. Não teve a comum desgraça na vida e a e a epifania que a converteu de imediato. Acontece a muitos cristãos daquele lado do Atlântico.

Converteu-se devagar, com o passo do tempo, o tempo de Deus e a ideia crescente nela própria, do Divino. Julgo que será próprio dos grandes pensadores e escritores.
Disse um dia que cativamos as pessoas para Cristo, não por gritarmos bem alto o descrédito naquilo em que elas acreditam e naquilo que elas são, dizendo-lhes o quão erradas estão e como tão certos estamos nós. Cativamo-las para Cristo mostrando-lhes uma luz em nós, que tão cheia de Amor fá-las querer, com toda a sua alma, saber de onde ela vem e procurá-la, connosco. Connosco.

Quem sou eu para julgar o outro que procura Deus honestamente? – dizia o Papa Francisco.
Quem sou eu para julgar, eu que me deixo moldar tão facilmente por fenómenos sociais de framing’s, priming’s, agenda building’s e agenda setting’s? Quem sou eu que me engano e que falho tantas vezes, fazendo disso o desenho de humanidade bonita que Deus cria?




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