in Jornal Correio do Vouga, 12 de Fevereiro de 2014.
Esta é uma história fictícia, a primeira. Uma grande empresa vendia lenços de papel. Como estava a vender poucos e porque era pouco conhecida, resolveu fazer uma campanha em que daria 10% dos lucros das vendas dos lenços a uma campanha de causar sorrisos, num país distante de África.
Todo o
mote público da empresa estava focado nesses 10% dos lucros e nos sorrisos que
causavam. Ninguém falava nos outros 90% dos lucros. De repente, 10% valia
muito, muito mais que 90%.
O que esta
empresa fez, chama-se de ‘framing’.
Enquadra a atenção naquilo que quer que as pessoas enquadrem a sua atenção e
baralha assim a matemática de que 10 é muito menos que 90.
Há algum
tempo, um deputado levou a votação no Parlamento, considerar um mesmo referendo
sobre dois assuntos diferentes, o framing.
A co-adoção e a adoção. Completamente extemporâneo, o político conseguiu levar
a efeito um fenómeno que se designa por ‘agenda
building’. Tentar marcar a atualidade com um assunto e levar a que esse
assunto se torne viral, que a imprensa e as pessoas falem dele, quase só dele.
Acendeu o rastilho a um assunto de que não se falava, não com verdadeira
intenção de referendar, discutir, iluminar, mas de chutar para canto, de matar
reflexão serena e de desviar assunto.
A imprensa
foi atrás do isco e começou, alguma dela, a falar em exclusivo de co-adoção e
da praxe. Continuando a classificar fenómenos sociais, designa-se isto de ‘agenda setting’: a capacidade da
imprensa de influenciar e marcar os assuntos públicos que quer na ordem do dia.
E nós
caímos todos nisto, que nem patinhos. De repente, começamos a receber e-mails com
pedidos de petições de católicos mais fechados e de ativistas mais liberais, tudo a clamar grande desgraça
porque se o outro tiver liberdade, eu vou ser perseguido; porque eu não tenho
liberdade, e os outros têm, porque eu tenho direito e os outros também têm.
Parece um jogo de futebol em que só ganha um lado, nunca os dois.
Errado. Em
sociedade, melhor ainda, em comunidade, o desafio é encontrar modo de todos
ganharmos e de todos vivermos bem, em paz, tranquilos, a buscar a felicidade
como acreditarmos nela e dentro dos limites de razoabilidade da felicidade do
outro.
A co-adoção
é fértil em casos. E como cada caso é um caso, há casos para um lado e casos
para o outro. Há casos em que o pai faleceu, os filhos ficam com o companheiro
e já não podem ver os avós. Há casos em que a mãe faleceu e os filhos que só
conhecem a companheira desta, mas como não lhe são legalmente ligados têm de ir
para o orfanato. Há casos para tudo, aproveitados para todos, se não formos serenos
na análise.
A lei tem
de ser cega, mas felizmente, a justiça e os seus oficiais são humanos.
O que me
preocupa como cristão é perceber: quando é que deixámos de lutar pelos direitos
das pessoas, para nos tornarmos lutadores contra as pessoas que pensam
diferente de nós? Quando é que, na História da Igreja, deixámos de ser como
Cristo a quem levam a mulher adúltera, já julgada, para ser apedrejada e para
entalar o Mestre? Quando começámos, na História do Cristianismo, a ter as
certezas e a razão toda? A excluir em vez de incluir?
Quem sou
eu para julgar? É medo? É status quo?
É acharmos mesmo que somos os bons, que temos todos os inputs para analisar e decidir tudo em absoluto e não há mais
ninguém tão capaz disso como nós?
Madeleine
L’engle, foi escritora. Nasceu nos Estados Unidos e viveu na Europa. Uma
americana de oportunidades e liberdade e europeia de serenidade no pensamento
conciliatório. Filha de pais episcopalianos muito trabalhadores, não recebeu a
educação cristã por falta de tempo dos pais. Não teve a comum desgraça na vida
e a e a epifania que a converteu de imediato. Acontece a muitos cristãos
daquele lado do Atlântico.
Converteu-se
devagar, com o passo do tempo, o tempo de Deus e a ideia crescente nela
própria, do Divino. Julgo que será próprio dos grandes pensadores e escritores.
Disse um
dia que cativamos as pessoas para Cristo, não por gritarmos bem alto o
descrédito naquilo em que elas acreditam e naquilo que elas são, dizendo-lhes o
quão erradas estão e como tão certos estamos nós. Cativamo-las para Cristo
mostrando-lhes uma luz em nós, que tão cheia de Amor fá-las querer, com toda a
sua alma, saber de onde ela vem e procurá-la, connosco. Connosco.
Quem sou
eu para julgar o outro que procura Deus honestamente? – dizia o Papa Francisco.
Quem sou
eu para julgar, eu que me deixo moldar tão facilmente por fenómenos sociais de framing’s, priming’s, agenda building’s
e agenda setting’s? Quem sou eu que
me engano e que falho tantas vezes, fazendo disso o desenho de humanidade
bonita que Deus cria?

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