sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Milagres de Natal em todo o mundo!


(…) Lembro-me do mundo que eles representam. Penso na delicadeza da vida de muitas pessoas que mereciam o calor do menino, talvez um Pai Natal que levasse esperança, porque o menino não pode sair da manjedoura quentinha.
Este Natal vamos fazer isso.
A ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento dá início na noite de 24 de Dezembro a um projecto que vem sendo preparado há muito tempo com cuidado. O chamado apadrinhamento à distância – a que daremos o nome de ‘ONE CHILD, ONE FUTURE.
Sabemos que a altura não será a melhor pela má publicidade que a suposta “Arca de Zoé” trouxe aos que andam verdadeiramente nestas causas. Mas mesmo assim, vamos com coragem e limparemos as feridas que esses possam ter feito.

A ideia consiste em ajudar a sério, permitindo o empowerment necessário às crianças que hoje vivem em pobreza extrema, mas que se hoje tiverem alimento e escola, poderão vir um dia a viver bem.
Necessitam apenas de uma refeição certa e adequada por dia, e de escola. Aprendendo hoje, poderão amanhã ter uma vida boa, saudável, sem fome e dando sustento aos seus.
Como se conseguirá isso? Na Diocese de Aveiro acolheremos todos aqueles que com o seu compromisso sério, atempado e continuado “adoptem” um afilhado na América Latina, África ou Timor. Os padrinhos ou madrinhas darão o necessário por mês para proporcionar educação e alimento às crianças que os missionários nossos parceiros atendem. Pela diferente cotação económica dos países de destino comparados com o nosso, falamos de quantias entre os 15 e 30 euros por mês. Não chega a um euro por dia!
Com tão pouco faremos milagres neste Natal! Daremos futuro às crianças! Não é para as trazer para cá em caso algum, não é para as conhecermos pessoalmente, não é para que elas sintam que têm um padrinho na Europa por isso não têm que se esforçar na vida… Nada disso! É tão-somente o milagre da multiplicação, em que um pouco de esforço para nós dá alimento e estudo a alguém na sua terra e no seio meio, junto com a sua família ou junto com os missionários se for órfão.
Damos as condições devidas às crianças de hoje, para que amanhã por si, possam subir os degraus do seu desenvolvimento, além de que tornamos no imediato a sua vida dura de criança um bocadinho mais suave!
É mesmo este o sentido do Natal, não é?!...
(…)

Informações:
ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento
www.orbiscooperation.org
one.child@orbiscooperation.org
Tel.: 96 496 2259

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CORREIO DO VOUGA, dezembro de 2007


sábado, 20 de outubro de 2007

Manchas que custam a lavar... arca de zoe, uma coisa que se fez passar por ONG

“Sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário.”

Enquadrada no seu contexto, este é um bonito pensamento, dos tempos de juventude de Guevara, quando o cansaço ainda não lhe tinha toldado o entendimento e fazer mal em nome do bem maior que ele pensava procurar. Não pretendo julgar a pessoa, nem as suas acções. Não o faço porque o meu juízo seria o do ano 2007 na Europa e a realidade dele era outra, com outras condicionantes. É de facto uma figura que admiro imenso, até certo momento da sua vida. Sinto-me em sintonia com a força que viveu intensamente.

1. Sentir profundamente uma injustiça não foi com certeza o que levou a Arca de Zoe, uma suposta ONG francesa a ‘salvar’ crianças supostamente órfãs (não o eram), supostamente do Darfur (também não o eram). Se todas as suposições fossem verdade, levá-las-iam sim para o campo de refugiados mais próximo e com melhores condições, não tratariam de as levar para França, a mesma França que há pouco tempo fez avançar legislação difícil a qualquer imigrante.
Das duas uma: ou asnos de caridadezinha e com muito dinheiro (frete de um avião?!) ou criminosos que mais não queriam que fazer negócio, como negreiros do século XXI (segundo o L’Expréssion, um diário de Argel).

2. Um dos crimes pelo qual não serão julgados foi a desconfiança que lançaram a todas as ONG’s. A comunicação social africana brada aos céus a culpa delas, o Presidente do Chade Idriss Itno aproveita para atingir franceses e as ONG’s que se julgam acima das leis locais. Lança-se a desconfiança geral em relação às Missões e Projectos que elas desenvolvem. Desconfia-se de tudo… porque uns senhores se resolveram a fazer-se passar por uma ONG e enriquecer criminosa ou ingenuamente à custa disso.

3. Muitas Organizações vivem bem. Com bons jipes (a Comissão Europeia não permite a utilização em projectos humanitários financiados por si, de viaturas com mais de 2 anos). Muitas outras, à custa das despesas de deslocação, lá vão ganhando bem com cada uma que fazem, seja ela de 170 kms a Lisboa, seja ela de 8000 kms a bem mais longe.

4. Muitos dos grandes acusam os pequenos de amadorismo, de voluntarismo, no sentido pejorativo da palavra, enquanto os primeiros esbanjam orçamentos, os pequenos põem do bolso e não é porque queiram.

6. Muitas vezes, chegam às Organizações pessoas para o voluntariado, muito bem mascaradas de boas intenções. Avançam mundos e fundos mas em pouco tempo vem à superfície a verdadeira motivação: ou lavar pecados do passado pessoal, ou construir um bom currículo social ou outras coisas menos dignas. O que no início era “só para ajudar” acaba por causar mais trabalhos do que o trabalho que inicialmente renderia.

5. Conclui-se que para ajudar é preciso saber fazê-lo. É preciso trabalhar para a causa, para a ajuda, para o desenvolvimento adequado e autónomo das populações. Antes de se dar roupas, livros, fundos monetários, o que quer que seja, saiba sempre com quem está a lidar, peça sempre feedback daquilo em que investe o seu esforço.
Geralmente, as organizações da Igreja Católica são sempre eficientes e de confiança, por isto mesmo: mantém a garra do Amor cristão ao próximo e reúnem a competência de uma organização estruturada.
Não deixe de ajudar, só porque alguém se faz passar pelo que não é. Muitas vidas já foram verdadeiramente salvas e sem saírem das suas terras. Esse trabalho pode continuar… se soubermos como e quisermos ajudar e fazê-lo bem.
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CORREIO DO VOUGA, Novembro de 2007
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domingo, 14 de outubro de 2007

Uma fé inquieta... II

Como vamos mudar o Hoje?

A medida dos nossos sonhos é a medida das nossas realizações
J. Kentenich

A oportunidade de fazer melhor está por todo o lado, basta escolhermos agir. Fazer melhor é ver um espaço e preenchê-lo, ouvir um pedido de ajuda e atendê-lo, pegar numa coisa errada e fazê-la correcta. Pegar num canteiro cheio de ervas e limpá-lo, guardar um papel no bolso e esperar por um cesto onde o depositar. Fazer melhor é pagar ordenados aos empregados por tempo de serviço num bem, construir uma casa, pintar uma escola, entusiasmar a juventude, dar alimento aos pobres, revitalizar uma comunidade, ter atitudes irreverentes, desinstaladas, andar de t-shirt no meio de ‘doutorzinhos’ porque o que conta é o que se faz. Fazer melhor é partir para a acção, sem medo de ocupar charneiras porque todo o espaço já está ocupado. É percorrer o caminho sem medo, com determinação, focado no horizonte. Fazer melhor é fazer com paixão, o estar ligado, aventurando-nos para o meio da tempestade e fazê-lo com um propósito.
Li algumas destas ideias, imagine-se, numa caixa de sapatos.
A intenção do marketing era criar o espírito da marca, a identificação destas ideias com quem lhes calça o calçado para poder ir mais longe. Diz-se de facto, que uma pessoa diz muito de onde quer ir pelo calçado que pode ter. Faz sentido!
É gente desta garra, deste género acima descrito que costuma ser laureada com o Prémio Nobel da Paz.
A maior parte de nós, não será agraciada algum dia por tão nobre distinção, mas há que ter presente que a avaliação dos nossos desempenhos é sempre condicionada por quem nos avalia.
Portanto, sem ligar demasiado a planos, é importante que saibamos agir hoje, mudando o presente, fazendo melhor… desde o pequeno-almoço até ao descanso da noite.
São pequenos gestos, alguns são pouco mais que símbolos, a maioria deles completamente invisíveis mas ninguém lhes nega a importância! Imaginemos que amanhã nenhum padeiro faz pão?...
Imaginemos que amanhã a Igreja encerra todos os Centros Paroquiais e Sociais, todas as Organizações Humanitárias que criou, imaginemos que amanhã o padre já não pode entrar no hospital, imaginemos que amanhã a senhora anónima já não visita o doente que está sozinho, imaginemos que amanhã todos os missionários regressam a casa, imaginemos que amanhã toda e qualquer confissão ou convicção era impedida de entrar na escola…
Muito se perdia. Muito testemunho de fé dado pela acção se apagaria. Muita seria a falta que se sentiria.
Chegou portanto a hora de no ano de atenção aos pobres, trabalharmos de cabeça erguida como quem sabe que não faz favores, como quem sabe que vê oportunidades de fazer melhor e o faz sem ter de pedir licença, nem a ministros nem outros que tais que ameaçam sem saber muito bem a amplitude do que estão a dizer.
Cada um de nós, como ser único e como Igreja, tem um lugar no mundo, e seja lá onde isso for, o importante é preencher o vazio e fazê-lo melhor que o nada que ele seria sem nós… sem nunca ofender ou desrespeitar as liberdades, mas com a audácia e o empenho de quem sabe o que está a fazer e o faz bem, sem medos ou silêncios que nos levem como Igreja, ou como pessoas, à impertinente insignificância.

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CORREIO DO VOUGA

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sábado, 11 de agosto de 2007

Educar o sonho de um mundo melhor…

A educação é muito próxima ao sonho. Podemos sonhar com um mundo melhor, podemos sonhar com um mundo da paz, onde todos têm o que necessitam para viver com dignidade. Podemos sonhar com um mundo onde todas as crianças possam ser crianças, os jovens possam ser jovens, os adultos, adultos e os idosos, idosos. Podemos sonhar com uma sociedade que assenta na solidariedade e na fraternidade, podemos sonhar com um mundo onde todos actuem com coerência e todos compartilhemos da necessidade de justiça social[1].
Podemos sonhar…
Educar provém do termo latino ‘ducere’. Etimologicamente tem vários sentidos: ‘conduzir’, ‘guiar’, ‘atrair a si’. Educar é de facto um caminho, que alguém guia e conduz, que alguém propõe, uma imensa viagem interior, que se faz em conjunto e onde se aprende a mudar o mundo, aos poucos, para um estádio melhor!
Educar é não apenas sonhar, mas lutar por esse sonho, na prática, construí-lo com todos os que me rodeiam.
São vários os intervenientes desta educação. Todos nos guiamos e conduzimos uns aos outros. Não são apenas os professores ou os catequistas ou os animadores ou os padres ou os pais ou os filhos ou quem quer que seja! Somos todos, até os educandos e outros nomes acabados em ‘andos’ e todos esses do primeiro ao último se completam uns aos outros!
Há algum tempo atrás conheci um ‘educador’, um senhor de que não sei o nome, dos seus oitenta e tais anos e com quem me cruzei uns dez minutos na minha vida. Foi numa visita de estudo para lá do Douro em que parámos por momentos no silêncio cristalino de uma aldeia transmontana, escondida como um tesouro por detrás das montanhas. Houve um senhor (aquele de que falava há instantes) com rugas de experiência e calmia na voz experimentada que perguntou a um dos meus amigos professores-educadores que guiávamos os nossos alunos:
- És tu o professor desta gente toda?!
- Sou sim senhor – respondeu o meu Amigo.
Ouvimos então, num tom de voz sereno de quem tem a lição para dizer desde sempre e que apesar da idade longa abraça o futuro com carinho:
- Educa-os bem pois eles são o futuro de nós mesmos. A marca que deixaremos no mundo não serão palácios de pedra, serão palácios humanos!

Neste caminho, já não há professores que ensinam e berram para manter a ordem na sala, não há catequistas que falam de doutrinas e fazem joguinhos, não há pais que ralham ou castigam, não há crianças frágeis ou violentas, não há paróquias indiferentes à escola, nem há escolas que não ligam ao ambiente lá de casa (quando ela existe ou quando são várias – dependendo da semana a quem calha ficar os filhos), não há cristãos isolados ou desinteressados, não há distinção nos intervenientes., pois de facto, todos somos, desde o mais pequenino ao mais velho, duas coisas muito simples:
EDUCADORES, porque nos conduzimos uns aos outros neste caminho maravilhoso que é a vida e COMPANHEIROS, não noutros sentidos que o original da palavra: aqueles que compartilham o pão!
Para formarmos a civilização do Amor, da Igualdade, da fraternidade temos de crescer em valores, todos actores do sonho da educação teremos de ser à imagem de Jesus, o educador por excelência, pessoas atentas aos outros, pessoas firmes, mas cheias de ternura!
Jesus é a fonte inesgotável de estímulos e critérios permanentes de como devemos entrar em relação com o outro: no ensino, na aprendizagem, no discernimento, na correcção, no conflito, na intervenção, na crise, na dor, na alegria, na festa, nas circunstâncias de pressão social-institucional-cultural-religiosa, etc. A sua excelência está na sua atitude educativa, na metodologia, no conteúdo, na linguagem, sempre acessível a quem o ouvia. Ele sempre teve a preocupação de ser entendido! A sintonia da linguagem é fundamental!
Jesus foi educador diante dos seus discípulos, no encontro com as pessoas, com as massas, diante dos adversários, nos discursos aos seguidores, com seus parentes... Diante de todos!
Foi educador na rua, na festa, na praia, no deserto, na estrada, no monte, no poço, na casa dos amigos, no tribunal, na cruz. Em todos os lugares!
Foi educador no conflito, na tensão, na fome, na solidão, na angustia, na dor, no cansaço, na serenidade... Sem stress e em todas as circunstâncias, convivendo, acolhendo, motivando, aproximando-se, perdoando, ensinando, libertando, corrigindo, escutando, esclarecendo, desafiando, alertando... sempre ao ritmo dos seus educandos, sempre pela positiva, dando prioridade à pessoa, às pessoas e ao infinito que elas comportam dentro de si!
Profundamente humano, Jesus envolveu-se, foi capaz de sentir compaixão por quem se encontrava numa situação indigna. Não resolveu problemas sozinho... Ele envolve, desperta a motivação, sensibiliza, organiza, implora a bênção do Pai e… os milagres aconteciam e podem continuar a acontecer hoje!
É muito simples mesmo que aconteçam, basta partilharmos o pão da vida, basta guiar-mo-nos uns aos outros, termos compaixão e sabermos que nem todos nascemos na realidade iguais em direitos, mas que é preciso indignar-nos, ouvir, acompanhar, “bater à porta do coração e perguntar: pode-se entrar?”
[2]… Lá dentro, por baixo da capa do irrequieto barulhento, animado e maluco está um ser humano com um potencial que junto com o nosso… vai mudar o mundo e o tornar naquele dos sonhos, o da solidariedade, o da fraternidade, o da partilha e o do Amor…
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[1] Luís Sepúlveda, in: “O poder dos Sonhos” pp.10 e 11
[2] Pedro Strecht
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CORREIO DO VOUGA, Agosto de 2007

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

José, um carpinteiro

Quando eu era mais pequeno, fiquei uma vez na sala lá de casa, adormecido perto do quente da lareira. Era por alturas do Natal. A árvore mais alta do que eu dava abrigo e luz ao presépio de musgo e caminhos de areia que sempre tomava parte do meu tempo a fazer, e do da minha mãe a limpar.
Recordo-me que acordei estremunhado certa noite, mas depressa envolvido e protegido pelo calor das luzes da árvore de Natal e das brasas já esquecidas. Fiquei-me por lá mais um tempo antes de subir para o quarto e fiquei a olhar, meio perdido para o musgo, para os caminhos feitos de areia, para o pastor, para os reis a caminho, para a cabaninha sem o menino ainda e para uma figura que guardava todo o cenário e ao mesmo tempo encerrava em si um silêncio profundo, um certo ar de paz. Era José, um carpinteiro, o pai do menino Jesus. Era como ainda é hoje aqui ao meu lado. Como agora também na altura a luz discreta da árvore dava um certo encanto a todo o silêncio do presépio.
Mais crescido foram contando-me coisas sobre o pai de Jesus, fui lendo as partes em que ele aparece, sempre silencioso no Novo Testamento, porém sempre decisivo.
Quando se fala em sonho nos evangelhos, a maior parte é em referência a S. José. Sempre que era preciso, José fazia o impossível. Aceitou casar com uma mulher já grávida, noite tarde e longe de Nazaré deve ter procurado um sítio para a sua esposa, mulher judia grávida, e por isso impura, poder ficar e dar à luz. Com a sua vida estabelecida, foi para o Egipto por causa do sonho. Depois de lá se estabelecer, voltou de novo, por causa do sonho…
Estes Homens que buscam incessantemente aquilo a que os seus ‘sonhos’ chamam são espantosos. Deixam de lado a sua vida, os seus projectos, porque têm uma Missão. Eles são os que não se acomodam, são os que lutam, os que acreditam. A maior parte das vezes, são Homens de silêncio, de acção, de olhares profundos e contemplação. Falam quando têm de falar e não muito mais que isso. Ensinam através do exemplo.
Às vezes ouço aquelas ideias da ciência de que os quarenta dias de Jesus no deserto foram passados com os Essénios… pode até ter sido, pode nem ter sido. Continuo a achar que a grande escola de Jesus era José e a sua oficina, as mesas, as cadeiras, o torneador de madeira e os formões, a aperfeiçoar pacientemente com a contemplação necessária para fazer de um pedaço de madeira uma peça de serviço. A vida aprende-se com a vida e nas coisas comuns Deus ensina-nos tudo o que precisamos de saber para na vida, nas tarefas do dia colocarmos um pedaço de sonho. Juntando uma porção de Amor e suor do rosto a tudo o que fazemos, desde protocolos que assinamos até ao aperto de uma mangueira do quintal, os milagres acontecem, com as coisas simples, com o exemplo dos Josés anónimos que tanto fazem por cada um de nós, com humildade e trabalho.
Eu tive e tenho Josés na minha vida, mestres que da tarefa vulgar fazem um ofício sagrado, tornando a vida um conjunto de momentos de perfeição e dedicação, sempre em silêncio.
Vi um uma vez num campo de refugiados. O olhar atento e assustado de um pai refugiado que chega ao campo, sem conhecer nada, com alguns filhos em redor. A sua postura assustada, de quem tem medo não por si mas pelos seus filhos... de quem receia, mas não o pode mostrar porque tem de dar a protecção aos seus, tem de lhes sussurrar a cada momento que está tudo bem... Medo, e não mostrá-lo... protecção para dar, sem a ter...
Tive um José que se chamava Francisco. Era meu avô e eu ainda não tinha nascido. Um dia em sonhos e sem precisar para ele, decidiu partir para uma terra desconhecida. Ia abrir caminho aos seus, dizia ele, forte e possante, mas silencioso no seu ofício. Anos mais tarde, já comigo criança, era junto ao pinheiro de natal que dava abrigo ao presépio que me ensinava a ler e a escrever no calor do borralho que aquecia a sopa do frio da rua das canas. No Natal era dele a prenda maior, porque eu fazia anos lá perto e ele nunca misturava os afectos. Tudo ele fez para abrir caminho aos seus.
Outro José na minha vida, chamava-se Artur, era carpinteiro também. Construiu a casa do meu Pai, a fonte, os móveis… todos os gestos diários de casa eram auxiliados por algum objecto feito por ele, em silêncio. Homem calmo, silencioso, um sorriso discreto de contemplação… é a imagem que tenho do meu outro avô, ténue pois partiu comigo criança. A imagem que tenho dele é de um Homem sempre seguro, agarrava as situações, sempre sereno, sempre protector e acolhedor, com uma calma carinhosa. Não dizia muito muitas vezes, pois quando se faz algo de sagrado, fazemos silencio para respeitar, assim também quando vemos o absoluto, calamos e olhamos só. É o que basta.
Hoje, o meu Pai, um José com outro nome, comigo perto ou comigo longe, durante alguns anos, com um mar a separar-nos, tudo ele fazia em silêncio e com um sorriso sereno parecido ao do Pai dele, talvez até com sacrifício, mas um sacrifício de Amor, fazendo o que fosse necessário, correndo, sonhando, partindo e cortando, arriscando os ganhos para construir tudo de início, com trabalho de manhã até ao fim do dia, havendo ainda tempo para me fazer o pão para levar para a escola, tantas coisas silenciosas, tantas para me abrigar e educar, me abrir caminhos e me proporcionar uma vida plena de sonhos.
Vida que eu hoje, contemplo, com a árvore de Natal ao meu lado, com o presépio debaixo. Observo o silêncio dos ‘José’ que contraria o destino dando-lhe a volta, porque o sonho de Deus para nós é muito grande e é na vida de todos os dias, do trabalho suado, comum e pleno de Amor que os milagres se cumprem e as promessas de Deus têm lugar…
Sem José, o que seria de Jesus? Sem Josés, o que seria do mundo?

Pedro, aspirante a José…
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CORREIO DO VOUGA, Edição especial de Natal, 2006

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Carta de Natal a ti que chegaste agora…



Querida Maria, escrevo-te hoje, mesmo que não entendas ainda nada disto, pois só chegaste há dias, há oito meses! Este vai ser o teu primeiro Natal connosco, e sei que no olhar atento que dás a tudo o que te é novo, que é tudo, lanças a pergunta do que é que será e o que significa o mundo.
Há coisas Maria, que não se compreendem. Ando cá há alguns anos e muito do que vejo ainda não compreendo, mas sabes, o tempo que aí vem ensina-me que não temos de compreender tudo, às vezes temos só é de acreditar.
Vais ver neste lugar chamado mundo pessoas a discutir, pessoas a passar por cima de outras pessoas para ganharem mais dinheiro, ou se iludirem pensando que têm poder, apesar de não terem poder nenhum. Vais ver pessoas que abusam de outras, com autoridade assumida mas não dada, para se convencerem a si próprias de que são importantes, mas são é impotentes. Vais ver pessoas que arranjam desculpas para fazer guerras porque querem a paz, mas no fundo o que querem é petróleo ou coisas assim parecidas para poderem passear de carro e ter muitos brinquedos lá em casa. Vais ver pessoas que se matam, e consigo matam mais pessoas que não sabiam que iam morrer, só que apanharam o mesmo avião ou o mesmo comboio que os que levavam aquelas coisas que explodiam e fazem barulho, magoando muita gente.
Sabes, não compreendemos, mas essa gente diz que faz isso em nome de Deus. Usam Deus para justificar conforto financeiro. E depois, nós que estamos de fora começamos a julgar e a torcer por uns ou por outros como se de futebol se tratasse, Benfica ou Porto, Cristãos, Judeus ou Muçulmanos.
De facto há coisas que sei que nesses olhos grandes, tu procuras compreender. Ainda nem caminhas, nem coordenas bem os movimentos da tua cabeça, mas sei que já procuras… há coisas que não compreendes, nem eu, nem ninguém.
Mas há uma coisa que é mesmo inacreditável e incompreensível se pensares só com a nossa natureza humana. Sei que com oito mesinhos apenas, ainda tens muito de Deus em ti, pois saíste de perto Dele há pouquinho tempo, mas há uma coisa que não se compreende só com os olhos, pequena Maria, e que se sobrepõe a todas as perguntas e dúvidas que te contei acima. É uma coisa impressionante! É um menino, pequeno e frágil como tu, um dia nasceu de uma rapariga com o mesmo nome que tu. Não nasceu numa maternidade, nasceu num curral. Dizem que ele nem chorou quando nasceu, mas eu acho que chorou. Acho que sim, acho que fez birras como tu, acho que chorava quando queria colo como tu, acho que sorria quando lhe faziam a vontadinha e iam passear com ele, acho que tinha os olhitos tão abertos como tu tens os teus, a ver se percebia o mundo que ele ia mudar. Acho que acordava de noite como tu, acho que preferia fruta doce à sopa como tu, e acho que também levantava a cabecita como tu fazes a procura não sei de quê, mas tu deves saber o que seria.
O incrível é que ele, tão pequenino e frágil, tão pobre e pequeno, tinha tudo para ser poderoso, mas não quis assim. Escolheu nascer assim como tu. A única arma que ele utilizou foi o Amor, que espalhava à volta Dele, que contagiava com o sorriso dele, desde pequeno até ser crescido. Ele quando abria a boca para falar, irradiava Amor, irradiava esperança, irradiava calor, tal como tu quando começas a palrar. Era um menino pequeno e fez isso tudo. Um dia, uns senhores fizeram-lhe mal, mas ele mesmo assim, ressuscitou e venceu o nosso maior medo – o fim de tudo.
Já viste… isto é que é mesmo incompreensível! Um garotito como tu, pequeno e frágil, humilde e pobre... Venceu e libertou-nos dos nossos limites humanos! Ele que começou tão lá em baixo, num berço de palha e chegou até lá tão em cima, até ao lugar de onde tu desceste há dias e vieste ter connosco, para partilhares esta aventura chamada vida!
Sê bem-vinda à Terra Maria. Aproveita esta viagem e feliz primeiro Natal!

tio P.
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Correio do Vouga, Dezembro de 2005 – edição especial de Natal
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segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Educar, um acto Amor...


Esteve aí a Semana Nacional da Educação, altura para parar um pouco e pensar no estado da educação no nosso país, e que a nós nos diz respeito directamente, do ensino religioso.
Educar hoje, parece cada vez mais um engenho mecanizado e cada vez menos a relação de pessoas que se educam e crescem juntos, nos sonhos e propósitos de um mundo onde todos tenham um lugar digno e justo!

Os pais, pela lei, têm o direito de escolher a educação que querem dar aos seus filhos – é lógico isso - têm o Estado, do qual são “patrões” - e bons patrões porque o ordenado (impostos) que lhe pagam não é tão baixo quanto isso! É legítimo que se um Pai, pagador de impostos e educador supremo dos seus, sendo católico e desejando uma disciplina que eduque o filho nos valores em que ele acredita – o Estado (empregado), terá de o garantir! O mesmo acontece se o Pai fôr budista, protestante, hindú ou de qualquer outra confissão! Se assim não puder ser, não se cumpre a lei. Proponho então que deixemos de pagar o ordenado ao empregado Estado, já que ele não trabalha como deve ser.

Há dias o Primeiro Ministro espanhol disse, em Espanha que devia ser a Igreja a pagar aos professores de EMRC! Concordo plenamente! Aliás, até deviam ser os ingleses a pagar aos professores de inglês e os Romanos deviam voltar para virem pagar aos professores de Latim! Perdoe-se a ironia, mas é a melhor maneira de responder a este tipo de argumentação, demagógica por natureza, e que permite ao Estado esquivar-se de um papel que é também o dele – o de garantir uma educação plena, diversificada e abrangente do saber.

Nós temos direitos, garantidos pela Constituição e se a Escola cada vez fôr mais um autómato de transmissão de conhecimentos, sem alma e sem dinamismo, em que se ‘façam robots’ e apenas se debitem matérias, então que se mandem os professores todos para casa para pouparmos no orçamento do Estado!

Agora, se queremos um ensino com alma, de pessoas para pessoas, se queremos fazer dos nossos filhos Homens e Mulheres de valores, pessoas que saibam olhar para o Mundo e pensar sobre ele, que saibam parar e discernir que caminhos seguir, que caminhos abrir... vamos apostar numa educação como um acto de Amor, vamos educar com afectos, com vida! “Só uma relação de amor que envolva todos os intervenientes no processo educativo pode tornar fecunda a tarefa educativa” – é clara a nota pastoral para a semana da educação - “o Homem só no amor atinge a plenitude da realização e se torna semelhante ao próprio Deus”. Como diz S. Paulo, até podemos ter tudo, mas se não tivermos Amor, nada seremos!
A Escola é a semente do Amanhã, mas também de Hoje, a escola não é só o futuro, é o aqui e o agora. Se não se aprender a saber ser e a saber estar, caminhamos para um fim descontrolado, sem rumo, sem sonhos e sem projectos e se soubermos Amar, se educarmos no Amor, “um mundo novo pode surgir”.

Só temos de acreditar e trabalhar, fazer as ferramentas funcionarem... a EMRC é um grande veículo e é-o ainda mais quando se liga ao mundo, porque não somos do mundo, mas estamos aqui para o mudar! A educação é para isso e o Amor é o caminho! Afinal, que Escola queremos para os nossos filhos?
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'CORREIO DO VOUGA', Outubro de 2005

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Uma fé inquieta...

A “crise de Vocações” ou o caminho aberto para a Igreja de comunhão?

De quando em quando, ouvimos por aí falar de uma tal ‘crise de vocações’. O tema vem à baila principalmente nesta semana que me é muito querida – a semana de oração pelas vocações, todas elas e não só algumas - foi nesta semana que saí do seminário, há alguns anos atrás. Dei de facto um avanço significativo à minha vocação, com a gratidão enorme de ter vivido no seminário e ter sido seminarista -. Crise de Vocações? Mas qual crise...? Costuma-se dizer que Deus nunca nos dá nada sem nos dar a capacidade de no-la sustentar.


No último Verão, a Igreja de Aveiro permitiu-me ir em missão durante algum tempo. Nessa experiência tive muitas oportunidades de ver, de intervir, de espalhar um Homem que ressuscitou, e de aprender que com a simplicidade se recebe muito mais do que com a complicação. De facto foi muito mais o que trouxe dentro de mim do que o que lá deixei.
Estando em Lwena, o esforço de reconstrução depois da guerra é sempre presente e a Igreja, toma-lhe a dianteira. Assim, depois de aprender os caminhos, deslocava-me sozinho da missão, levando trabalhadores para as aldeias, isoladas até então por causa das minas. Ficávamos nessas aldeias perdidas do interior de África durante alguns dias, os necessários para soldar, pintar ou mesmo assentar pedra. Durante esse tempo, integrávamo-nos na aldeia. Uma das que nos acolheu ao trabalho de erguer uma escola chamava-se ‘Ermanalu’. Ficava distante, muito distante. A visita do padre era rara, a distância incrível e o número de aldeias muito grande para tão poucos sacerdotes. Nessa aldeia, a igreja era um telheiro que abrigava a todos por igual. Na vida dura que se levava, havia todos os dias um momento de céu debaixo do colmo protector da capela, onde Cristo se tornava presente sempre em acolhimento e fraternidade. Na aldeia havia um catequista, havia um pai Soba, haviam mulheres, crianças, homens, uns mais novos, outros mais velhos. Uns tinham mais que os outros, mas tudo era partilhado. Ninguém passava fome e não havia órfãos. Havia sempre alguém que tomava conta de alguém. Guardavam-se em Amor uns aos outros.
Todos os dias, se encontravam no tal abrigo, com uma cruz de dois ramos quaisquer e ali faziam festa. Faziam oração, liam a bíblia em chokwé, os pequenitos tinham catequese, a areia servia de quadro para escrever! Partilhavam ali os problemas humanos e eclesiais, comprometiam-se em comunhão. Dali de dentro levavam a força para o mundo, para actuar e transformar aquele espaço de mundo à sua volta. Vivam fundados em Cristo, partilhando a pobreza, lutando contra ela, pensando a justiça em comunhão, em Amor. Tudo em admiração profunda d’Aquele que viveu lá longe, no tempo dos seus antepassados, mas que continua vivo, porque venceu aquele temor da morte que havia antes!
Quando vinha o padre, ele era especial, porque era um deles, era igual, integrado, sem ilusões. Partilhava da vida comum quando estava. Se havia uma galinha, era para todos, se só havia mandioca, era para todos. O padre era um deles, em comunhão e alegria, em simplicidade. Fazia os sacramentos, a missa, a reconciliação, a festa que no meio daquele nada, aos olhos europeus, era na realidade, muito! Muito grande e muito próxima daquilo que Jesus partilhou connosco.
Acabando a reflexão, pergunto eu… Com uma Igreja assim, onde está a crise de vocações?... Com uma Igreja assim, com uma Igreja como a que o Vaticano II abriu portas, remato parafraseando um padre da nossa diocese, que muito estimo, na resposta dada por ele a alguém que o provocava acerca da tal “crise das vocações”.
Dizia-nos ele: “Ó meu amigo, com uma Igreja para onde caminha a nossa, ainda vamos ter é padres a mais!”
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CORREIO DO VOUGA, Abril de 2005
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