Lwena, interior de Angola. Em 2004 trabalhei num campo de refugiados. Trabalhar não é bem o termo, mas não sei o verbo adequado ao sentimento da compaixão.
Compaixão não é ter pena de alguém. Longe disso. É viver paixão com, é sofrer com, é alegrar-se com, é cuidar com, é brincar com… Foi isto tudo que fiz com os refugiados daquele campo no meio de África, entregue a pessoas que tentavam dar a volta à História todos os dias, desde manhã até à noite, há um sem número de anos.
No campo de refugiados estava uma família que era de Benguela, antes das guerras. Para fugir delas percorreram caminhos sinuosos até conseguirem chegar à fronteira e atravessá-la para a Zâmbia.
O exílio naquele país foi de cerca de vinte anos, um quarto de vida, longe de tudo o que é seu.
Naquela família havia uma criança, o Piet’a. Tinha três ou quatro anos. Nasceu num campo de refugiados na Zâmbia e em 2004 cruzou-se com a minha vida, em Lwena.
Era um miúdo esperto, muito dado, mas seguro. Falava Chokwé e Inglês. Tinha aprendido nos campos de refugiados onde a sua família esteve, por ouvir falar os trabalhadores do ACNUR.
Não foi difícil conquistá-lo. Bastou mostrar-lhe a cara dele na máquina fotográfica e a brincadeira sucedeu-se.
Houve um dia em que cheguei bem cedo ao campo. Encontrei-o no largo de areia e troncos onde ficava a cantina. A cantina era o espaço, não eram infra-estruturas… era um sítio com troncos e lume sempre brando.
Estava a tomar um prato de papa de milho, invariavelmente o pequeno-almoço de todos os dias para enganar a barriga inchada. Insistiu que comesse também.
Sabia que ele comeria o prato todo sem se queixar, mas não aceitar não era opção para ele. A partilha valia mais e um amigo não pode ser amigo se não comer do mesmo prato.
Algum dias depois, cheguei de novo ao campo e ouvi um bom dia bem português. Em tão pouco tempo em Angola e já tinha conversas simples em três línguas.
Quando vim embora, não me despedi dele. Fiquei a vê-lo com a bola de futebol de longe. Deixei-lhe um papel para um dia ler, quando soubesse. Pedi-lhe que crescesse forte e sábio, que aproveitasse as dificuldades para aprender e que não desistisse nunca do caminho que traçasse e sonhasse para a sua vida.
Nunca mais ouvi nada do Piet’a. Não faço ideia se está vivo. Não faço ideia se está em Benguela dos seus antepassados ou noutro sítio da imensa Angola.
Gosto de pensar que ele hoje está bem. Que anda na escola, que à tarde depois de ajudar os pais, brinca com os aros de alguma bicicleta que já não exista. Gosto de o imaginar a brincar com os carros feitos de latas de salsichas, o que é um sinal de que ele comerá talvez salsichas.
Gosto de imaginar que a escola dele tem um quadro e giz e que ele não precisa de escrever com um pau na areia do chão. Gosto de o imaginar a ler o meu papel e a fazer dele caminho, a tornar-se num cidadão de pensamento livre, lutador para a construção de uma Angola mais justa, mais pacífica, onde os filhos dele não tenham de passar jamais aquilo que os pais dele passaram.
Um abraço menino, onde quer que tu estejas.
Compaixão não é ter pena de alguém. Longe disso. É viver paixão com, é sofrer com, é alegrar-se com, é cuidar com, é brincar com… Foi isto tudo que fiz com os refugiados daquele campo no meio de África, entregue a pessoas que tentavam dar a volta à História todos os dias, desde manhã até à noite, há um sem número de anos.
No campo de refugiados estava uma família que era de Benguela, antes das guerras. Para fugir delas percorreram caminhos sinuosos até conseguirem chegar à fronteira e atravessá-la para a Zâmbia.
O exílio naquele país foi de cerca de vinte anos, um quarto de vida, longe de tudo o que é seu.
Naquela família havia uma criança, o Piet’a. Tinha três ou quatro anos. Nasceu num campo de refugiados na Zâmbia e em 2004 cruzou-se com a minha vida, em Lwena.
Era um miúdo esperto, muito dado, mas seguro. Falava Chokwé e Inglês. Tinha aprendido nos campos de refugiados onde a sua família esteve, por ouvir falar os trabalhadores do ACNUR.
Não foi difícil conquistá-lo. Bastou mostrar-lhe a cara dele na máquina fotográfica e a brincadeira sucedeu-se.
Houve um dia em que cheguei bem cedo ao campo. Encontrei-o no largo de areia e troncos onde ficava a cantina. A cantina era o espaço, não eram infra-estruturas… era um sítio com troncos e lume sempre brando.
Estava a tomar um prato de papa de milho, invariavelmente o pequeno-almoço de todos os dias para enganar a barriga inchada. Insistiu que comesse também.
Sabia que ele comeria o prato todo sem se queixar, mas não aceitar não era opção para ele. A partilha valia mais e um amigo não pode ser amigo se não comer do mesmo prato.
Algum dias depois, cheguei de novo ao campo e ouvi um bom dia bem português. Em tão pouco tempo em Angola e já tinha conversas simples em três línguas.
Quando vim embora, não me despedi dele. Fiquei a vê-lo com a bola de futebol de longe. Deixei-lhe um papel para um dia ler, quando soubesse. Pedi-lhe que crescesse forte e sábio, que aproveitasse as dificuldades para aprender e que não desistisse nunca do caminho que traçasse e sonhasse para a sua vida.
Nunca mais ouvi nada do Piet’a. Não faço ideia se está vivo. Não faço ideia se está em Benguela dos seus antepassados ou noutro sítio da imensa Angola.
Gosto de pensar que ele hoje está bem. Que anda na escola, que à tarde depois de ajudar os pais, brinca com os aros de alguma bicicleta que já não exista. Gosto de o imaginar a brincar com os carros feitos de latas de salsichas, o que é um sinal de que ele comerá talvez salsichas.
Gosto de imaginar que a escola dele tem um quadro e giz e que ele não precisa de escrever com um pau na areia do chão. Gosto de o imaginar a ler o meu papel e a fazer dele caminho, a tornar-se num cidadão de pensamento livre, lutador para a construção de uma Angola mais justa, mais pacífica, onde os filhos dele não tenham de passar jamais aquilo que os pais dele passaram.
Um abraço menino, onde quer que tu estejas.
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O AVEIRO
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