sexta-feira, 6 de março de 2009

Declaração de Intenções

Em tempos de crise, há sempre os que se deixam para trás. Prioridades que deixam de o ser, projectos e sonhos que se desvanecem.
Quando nós ficamos pobres, começamos sempre a tratar de nós e esquecemos os outros o que mostra que antes, de facto, estávamos errados porque tratar dos pobres ou da pobreza extrema, ou dos direitos cívicos, políticos, sociais econónmicos e culturais nunca foi uma questão de trabalhar para os outros. Nunca. Este trabalho é trabalhar para nós, humanidade. Não nos podemos separar, nem olhar de cima, nem sequer de baixo para o mundo e quem nele vive seja a cinco minutos a pé ou a sete horas de avião.
Neste tempo de esquecimento e barulhos faço uma declaração de intenções do que quero ser a cada dia de trabalho e de esperança, mesmo em tempo de crise.


‘Quero ser um negro na África profunda, um asiático na Europa, um hispânico em San Isidro e um anarquista de paz na Espanha de Franco, um gay em São Francisco, um palestiniano em Israel e um colono na Palestina, quero ser indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, um judeu na Alemanha, um feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria e um capitalista no desemprego, um pacifista no Iraque e uma criança no Afeganistão, um artista sem galeria e sem portfólio, quero ser dona de casa num sábado à tarde, um jornalista nas páginas interiores do jornal, um operário à porta da fábrica e um bom empresário em busca de encomendas. Quero ser uma mulher no metropolitano depois das vinte e quatro horas, um camponês sem terra, um indígena da amazónia, um pobre do Darfur, um editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores, um dono de supermercado na Venezuela, quero ser um órfão no Zimbabwé. Quero ser um refugiado sem cobertores e sem pão, sem lugar para onde ir".[i]


Quero ser todas as minorias, todos os discriminados e todos os seres humanos que não têm voz ou expressão e que sofrem apenas porque estão vivos e porque incomodam, porque não cabem dentro da bacia que nós somos na nossa sociedade, intolerantes e indiferentes, com muitos afazeres para tratar da nossa crise, que não é nossa, é de toda a humanidade e só de forma sistémica, integrada e com todos será, em definitivo, ultrapassada.





[i] Recuperação e adaptação de um texto de Subcomandante Marcos
:: in O Aveiro ::

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