Na altura em que escrevo estas linhas ainda não sei o resultado do jogo de Portugal com a Coreia do Norte. Mas sei o resultado do último jogo entre estas duas selecções, no mundial de 1966 na Inglaterra.
Como agora, naquele tempo, ninguém sabia nada da Coreia do Norte e era mesmo o único país da Ásia a participar naquele Mundial.
Antes de jogar com Portugal, a Coreia do Norte eliminou a Itália. A estrondosa Itália! A Selecção do calccio estava tão segura da vitória sobre a Coreia que já tinha reservado estadia no Seminário Jesuíta, em Liverpool, onde jogariam contra Portugal.
Correu-lhes mal... e acabaram por ceder a reserva para a selecção da Coreia. Os jogadores nunca tinham visto uma imagem de um homem pregado na cruz, com uma coroa de espinhos. Não sabiam quem era ou o que significava aquele objecto pendurado em todos os quartos.
Esses jogadores, já heróis, cedo fizeram 3 – 0 no marcador. No fim do jogo, o Eusébio e o José Augusto tinham dado a volta ao marcador e Portugal venceu o jogo.
Voltaram depois à Coreia do Norte... Nunca mais se soube nada deles até à pouco tempo. Uma tragédia contra os Direitos Humanos.
Conta-se que foi por terem perdido contra Portugal, conta-se que foi porque tiveram conduta não própria nos festejos de Itália desonrando a Coreia. O que se sabe ao certo é que alguns dos heróis da selecção foram condenados a trabalhos forçados como lenhadores, outros condenados ao longo e solitário exílio.
Desses, hoje restam vivos sete. Gosto de os pensar com a vida refeita. Gosto de imaginar que vão ver / viram o jogo de Portugal – Coreia do Norte num sofá confortável e sem preocupação de que os que jogam nestes dias pela sua selecção não passarão, seja qual for o resultado por outra história parecida.
De facto, Kim Jong Il, quando subiu ao poder libertou a maioria dos jogadores por ser fã de futebol. Oxalá fosse fã também do seu país e o libertasse também finalmente de outras coisas a que o prende!
AVEIRO, 20 DE JUNHO DE 2010
:: CORREIO DO VOUGA - Edição de 23 de Junho de 2010 ::
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