domingo, 13 de dezembro de 2015

O pacto das catacumbas ou o tratado sobre a simplicidade


Foi há cerca de 50 anos, perto do fim dos trabalhos do concílio vaticano II, um encontro mundial de representantes de uma das maiores organizações do mundo, que nasceu a partir de um carpinteiro e alguns pescadores e outros, de profissões duvidosas, que Ele acolheu e guiou, formou com uma visão e um sonho de paz, harmonia, em que a lei que comanda tudo seria o Amor.
Um Homem fantástico, que propôs ao mundo, um outro mundo!

Alguns, há 50 anos, juntaram-se e fizeram um pacto, o Pacto da simplicidade. Retomaram a Igreja, essa organização milenar nascida à beira do lago tiberiades, àquilo que ela devia ser: Amor e simplicidade.

Deixo uma vénia a esses senhores. Deixo uma vénia ao outro, o visionário que começou isto a assar peixe na praia para os amigos.

Transcrição em língua portuguesa do compromisso do Pacto das Catacumbas abaixo.

Catacumbas de Domitila, Roma.

"Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quer evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue: 
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. 
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Nem ouro nem prata. 
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. 
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e conscientes do seu papel apostólico, para não sermos mais administradores do que pastores e apóstolos. 
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. 
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). 
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. 
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. 
9) Conscientes das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. 
10) Colocaremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham na prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmónico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, para o advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. 
11) Achando a colegialidade dos bispos a sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

- a participarmos, conforme os nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

- a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas económicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem da sua miséria. 
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

- esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;

- suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;

- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;

- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião.
13) Ao voltarmos às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, pedindo que nos ajudem com a sua compreensão, e as suas preces.

Que nos ajude Deus à fidelidade."
* O documento foi assinado inicialmente por 42 Bispos. Posteriormente, o Pacto foi assumido por cerca de 500 dos 2.500 bispos do Concílio. As primeiras 42 assinaturas reuniam bispos de 25 países: 8 da África, 1 da América do Norte, 9 da América Latina e Caribe,  12 da Ásia, 8 da Europa e 1 do Oriente Médio.

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