domingo, 24 de fevereiro de 2008

Cimeira da Esperança, na África escondida...

Foi no passado fim-de-semana.
Lisboa engalanou-se, muito exotismo, muitas cores, a partilha de muitos costumes, culturas, diálogos em línguas diferentes, aromas e sabores intensos e distintos… No fundo, reuniu-se a beleza que permite o contacto entre todos, de todo o mundo. A parte boa da globalização.
Gestos… alguns apenas simbólicos, outros mais significantes, mas gestos.
Cimeiras de chefes de Estado, cimeiras alternativas entre grupos de interesses e objectivos nobres, mais, ou menos radicais, mais, ou menos exequíveis. Tanto na oficial como na alternativa. Uns discutiam economia, proteccionismos ou abertura de mercados, outros direitos, alertas e caminhos. Conversa, bater de portas e apertos de mão não faltaram.

Mas a verdadeira cimeira, aconteceu em Angola, longe de Luanda e dos gabinetes extravagantemente luxuosos com vista para a Baía.
Foi no Moxico, uma província junto à Zâmbia, e começou há algum tempo. Mais ou menos um ano. Não é importante a precisão neste caso.
Foi numa aldeia no meio da floresta daquele extenso planalto, isolada durante a guerra. Quase nenhum dos adultos sabe ler ou escrever, apesar de saberem de outras coisas muito importantes da vida como a partilha e o crescimento sustentado.
Há um ano e pouco uns missionários levaram um camião de mandioca para essa aldeia que vivia em fome generalizada e constante.
As pessoas da aldeia prepararam parte da mandioca para se alimentarem. Outra parte, cultivaram-na. Hoje vivem bem, pelo menos do ponto de vista da fome. Mandioca gerou mandioca e há alegria, pelo menos nessa aldeia.
Há bem pouco tempo, noutra visita, os missionários falaram às pessoas da aldeia que noutra aldeia ainda mais distante, as pessoas passavam fome. Precisavam de ajuda urgente para sobreviver.
As famílias contribuíram todas sem excepção, com uma determinação e missão de dever comovente.
Na volta, depressa se encheu de novo o velho camião que já ali tinha vindo descarregar à pouco mais de um ano a uma aldeia faminta. Agora carregava, carregava de novo até à parte mais Cimeira do estrado de carga.
O camião foi até à outra aldeia, seguindo caminhos difíceis e estreitos, por vezes cumprimentados pelas estacas que anunciam campos de minas. Seguiu e chegou ao destino.
O resto da história, adivinha-se! É assim que acontece o desenvolvimento e ele tem sucesso como já explicam conceituados economistas. Jeffrey Sachs é o mais sonante.
Acabam assim as justificações para regulações macro-económicas intermináveis e parcerias altaneiras.
O desenvolvimento acontecerá, concertadamente é certo, mas a partir das bases. É lá que estão os pobres e eles não precisam de pena ou dos milhões que se anunciam nos microfones de outras cimeiras que não as do camião. Precisam tão só de oportunidades, tão só do ‘Empowerment’ para subirem a escada da vida.
Isto é tão simples que até envergonha se a geração actual falhar o primeiro Objectivo do Desenvolvimento do Milénio (erradicar a pobreza extrema do mundo) assinado em 2000 por centena e meia de países, sendo Portugal um deles… Penso até que a assinatura foi feita também numa cimeira!
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'O Aveiro', Fevereiro de 2008

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