Não é verdadeiro este título, mas faz-nos pensar. Imaginemos que ontem, neste continente politica e administrativamente unido pelo Tratado que se assina no próximo mês em Lisboa, teriam falecido dez mil pessoas devido à fome.
Na Europa teríamos de nos esforçar por pensar tal coisa inimaginável, mas se acontecesse, sem dúvida seria chocante.
A verdade é que números bem acima dos dez mil, morrem em África todos os dias por, imagine-se, não terem o que nós todos temos por garantido: a possibilidade de uma refeição. Não são números que morrem, são pessoas.
Dez mil pessoas na Europa morreram… Dez mil pessoas em África morreram. As duas frases têm pesos diferentes. Apesar disso, uma é fictícia, a outra é real.
Na vida chegamos a certos momentos que são reveladores, não pela análise de estatísticas, mas pelo que vivemos e vemos. Há meses estive longe desta nossa realidade segura. Retorno a esses dias em que ao longe ouvia, batuques furiosos que iluminam os espíritos da noite, junto com grilos e outros rugidos. Olho ao meu redor e através da malha fina de um mosquiteiro da UNICEF observo um lavatório onde não corre água, uma torneira de duche que apenas pinga. Sinto que estou bem, tenho um tecto agora e aguento-me apesar do estômago pouco composto.
Três dias antes dessa noite de silêncio barulhento não era assim. Perdido, mas encontrado, numa qualquer aldeia da África de Moçambique onde estive de visita com o propósito de ouvir, perceber a vida das pessoas, compreender-lhes as necessidades mais prementes para as combater com futuros projectos de ajuda. Passei alguns dias no mato, com as gentes sem pecado, do interior, vivendo da sua generosidade e acolhimento, da sua simplicidade, como o mundo era no princípio, quando as sociedades eram comunidades no sentido lato e nobre do termo.
Ao fim da primeira manhã dessa saída do meu mundo, tive fome, pensei eu. Senti, que queria comer!
E a comida veio. Uns bagos de arroz, um pouco de frango, a cortesia de um garfo, a companhia tímida primeiro.
Comi, recusar seria ofensa e o meu estômago pedia, um banquete que apenas ocupava um pouquinho da tigela de madeira.
Continuei com fome, pensei eu, mas nunca seria capaz de pedir mais. Aguentaria um pouco, como os ‘Sem Nome’ do hemisfério sul deste planeta aguentam a vida toda.
Aguentei até ao fim do dia, e depois até ao fim da manhã. Comi a “shima” e mais algumas coisas não próprias de se dizerem alto. Sempre em pequenas quantidades, mas sempre do melhor que tinham para dar, pois a Graça do acolhimento dos pobres é maior que a riqueza dos ricos.
O meu estômago, queixou-se, doeu e fraquejou… mas não foi Fome…
Quando se tem fome, o tempo passa devagar, a Terra não gira, o Sol não se põe e o sono não descansa.
Quando se tem Fome, o Mundo parece outro sítio porque o apetite que sentimos fica diferente. É uma fome mas de um tipo que não conhecemos porque nunca estivemos no chão sem força para nos levantarmos, sujeitos a tudo e à espera de nada.
Ter fome, não sei o que é, só os meus olhos lá passaram uns dias… e hoje estou aqui a escrever e alguém a ler. Ao mesmo tempo que a cada minuto alguém parte para a eternidade, porque não teve que comer… é isto, dia após dia, bem longe dos nossos olhos europeus bem abastados de excessos.
Estes momentos, são reveladores, toldam-nos a vista e enchem-nos as mãos de força para em conjunto, mudarmos o mundo… ficar parado não é opção, não enquanto isto acontecer!
A todos nós urge a acção de contrariar esta realidade sem sentido, de um mundo que permite a subida do preço dos cereais porque mais procurados para combustíveis… enquanto que quem precisa deles para se alimentar já não os pode comprar. Não, não podemos tolerar isto num mundo civilizado, dinâmico e evoluído, onde semeamos o valor da paz e da justiça e morra a cada três segundo uma pessoa como nós… de fome…
Sabe o que é isso? Sabe quantas pessoas morreram disso desde que me começou a ler?
É só fazer as contas… mas não são números, são pessoas.
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'O Aveiro', Fevereiro de 2008Na Europa teríamos de nos esforçar por pensar tal coisa inimaginável, mas se acontecesse, sem dúvida seria chocante.
A verdade é que números bem acima dos dez mil, morrem em África todos os dias por, imagine-se, não terem o que nós todos temos por garantido: a possibilidade de uma refeição. Não são números que morrem, são pessoas.
Dez mil pessoas na Europa morreram… Dez mil pessoas em África morreram. As duas frases têm pesos diferentes. Apesar disso, uma é fictícia, a outra é real.
Na vida chegamos a certos momentos que são reveladores, não pela análise de estatísticas, mas pelo que vivemos e vemos. Há meses estive longe desta nossa realidade segura. Retorno a esses dias em que ao longe ouvia, batuques furiosos que iluminam os espíritos da noite, junto com grilos e outros rugidos. Olho ao meu redor e através da malha fina de um mosquiteiro da UNICEF observo um lavatório onde não corre água, uma torneira de duche que apenas pinga. Sinto que estou bem, tenho um tecto agora e aguento-me apesar do estômago pouco composto.
Três dias antes dessa noite de silêncio barulhento não era assim. Perdido, mas encontrado, numa qualquer aldeia da África de Moçambique onde estive de visita com o propósito de ouvir, perceber a vida das pessoas, compreender-lhes as necessidades mais prementes para as combater com futuros projectos de ajuda. Passei alguns dias no mato, com as gentes sem pecado, do interior, vivendo da sua generosidade e acolhimento, da sua simplicidade, como o mundo era no princípio, quando as sociedades eram comunidades no sentido lato e nobre do termo.
Ao fim da primeira manhã dessa saída do meu mundo, tive fome, pensei eu. Senti, que queria comer!
E a comida veio. Uns bagos de arroz, um pouco de frango, a cortesia de um garfo, a companhia tímida primeiro.
Comi, recusar seria ofensa e o meu estômago pedia, um banquete que apenas ocupava um pouquinho da tigela de madeira.
Continuei com fome, pensei eu, mas nunca seria capaz de pedir mais. Aguentaria um pouco, como os ‘Sem Nome’ do hemisfério sul deste planeta aguentam a vida toda.
Aguentei até ao fim do dia, e depois até ao fim da manhã. Comi a “shima” e mais algumas coisas não próprias de se dizerem alto. Sempre em pequenas quantidades, mas sempre do melhor que tinham para dar, pois a Graça do acolhimento dos pobres é maior que a riqueza dos ricos.
O meu estômago, queixou-se, doeu e fraquejou… mas não foi Fome…
Quando se tem fome, o tempo passa devagar, a Terra não gira, o Sol não se põe e o sono não descansa.
Quando se tem Fome, o Mundo parece outro sítio porque o apetite que sentimos fica diferente. É uma fome mas de um tipo que não conhecemos porque nunca estivemos no chão sem força para nos levantarmos, sujeitos a tudo e à espera de nada.
Ter fome, não sei o que é, só os meus olhos lá passaram uns dias… e hoje estou aqui a escrever e alguém a ler. Ao mesmo tempo que a cada minuto alguém parte para a eternidade, porque não teve que comer… é isto, dia após dia, bem longe dos nossos olhos europeus bem abastados de excessos.
Estes momentos, são reveladores, toldam-nos a vista e enchem-nos as mãos de força para em conjunto, mudarmos o mundo… ficar parado não é opção, não enquanto isto acontecer!
A todos nós urge a acção de contrariar esta realidade sem sentido, de um mundo que permite a subida do preço dos cereais porque mais procurados para combustíveis… enquanto que quem precisa deles para se alimentar já não os pode comprar. Não, não podemos tolerar isto num mundo civilizado, dinâmico e evoluído, onde semeamos o valor da paz e da justiça e morra a cada três segundo uma pessoa como nós… de fome…
Sabe o que é isso? Sabe quantas pessoas morreram disso desde que me começou a ler?
É só fazer as contas… mas não são números, são pessoas.
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