Nunca estive em Moçambique por esta altura do ano. Talvez por isso me seja difícil imaginar como ele é agora. Talvez verde, as ervas amarelas do chão são verdes, as árvores e a floresta imperará com o verde da natureza.
Durante o período de seca, quando estive pelo Norte e Centro de Moçambique, a água era pouca, mesmo a que corria nos grandes rios do Zambeze e Limpopo. As torneiras comuns de água tinham sempre grande animação de mulheres e crianças à espera de vez para encherem os seus baldes e bacias de água para beber, cozinha e lavar. Os do governo, parece brincadeira, mas a canalização que existia foi feita em função das suas casas. Mas quando algum motor de puxar água do rio falhava, todos ficavam sem água. O serviço era remediado com cisternas móveis que se pagavam bem. Pelo que muitas pessoas tinham de passar a fazer quilómetros para ir ao rio.
Custa-me imaginar Moçambique agora, custa-me a imaginar este mundo de contrastes absolutos: seca, cheia…
As aldeias, por necessidade de localização das machamabas, as terras de cultivo, são o mais próximo do rio possível, muitas delas dentro do leito quaternário dele. Depois no Inverno austral, nem a barragem de Cahora Bassa consegue suster a água e evitar desastres.
Todos os anos, pelo mês de Janeiro. Repete-se o eco da desgraça, das inundações, da fome, dos desalojados. A pintura tem sempre cores muito carregadas e cinzentas.
Este ano já se conta 13 mil pessoas desalojadas, 56 mil afectadas. Os números não são pesados se não pensarmos que são pessoas, como nós. São vidas que vêem a sua dispensa: a machamba, coberta de água, as suas casas, tudo o que vão juntando.
Mas todos os anos, incompreensivelmente caímos no mesmo, todos os anos gasta-se mais dinheiro a resolver o mesmo problema, a tapar o mesmo buraco, até ao ciclo de cheias do ano seguinte.
Não é sustentável. Nem por razões económicas, em segundo lugar, nem por razões humanitárias… humanas, em primeiro.
Há o perigo de vida real das pessoas e depois a fome, a interminável e sofrida fome que fragiliza ainda mais quem já é muito frágil.
Depois do perigo, virá de novo o sol e a seca. Mais uma vez o negócio dos tijolos será bom, pois infelizmente há sempre muito a reconstruir.
Durante o período de seca, quando estive pelo Norte e Centro de Moçambique, a água era pouca, mesmo a que corria nos grandes rios do Zambeze e Limpopo. As torneiras comuns de água tinham sempre grande animação de mulheres e crianças à espera de vez para encherem os seus baldes e bacias de água para beber, cozinha e lavar. Os do governo, parece brincadeira, mas a canalização que existia foi feita em função das suas casas. Mas quando algum motor de puxar água do rio falhava, todos ficavam sem água. O serviço era remediado com cisternas móveis que se pagavam bem. Pelo que muitas pessoas tinham de passar a fazer quilómetros para ir ao rio.
Custa-me imaginar Moçambique agora, custa-me a imaginar este mundo de contrastes absolutos: seca, cheia…
As aldeias, por necessidade de localização das machamabas, as terras de cultivo, são o mais próximo do rio possível, muitas delas dentro do leito quaternário dele. Depois no Inverno austral, nem a barragem de Cahora Bassa consegue suster a água e evitar desastres.
Todos os anos, pelo mês de Janeiro. Repete-se o eco da desgraça, das inundações, da fome, dos desalojados. A pintura tem sempre cores muito carregadas e cinzentas.
Este ano já se conta 13 mil pessoas desalojadas, 56 mil afectadas. Os números não são pesados se não pensarmos que são pessoas, como nós. São vidas que vêem a sua dispensa: a machamba, coberta de água, as suas casas, tudo o que vão juntando.
Mas todos os anos, incompreensivelmente caímos no mesmo, todos os anos gasta-se mais dinheiro a resolver o mesmo problema, a tapar o mesmo buraco, até ao ciclo de cheias do ano seguinte.
Não é sustentável. Nem por razões económicas, em segundo lugar, nem por razões humanitárias… humanas, em primeiro.
Há o perigo de vida real das pessoas e depois a fome, a interminável e sofrida fome que fragiliza ainda mais quem já é muito frágil.
Depois do perigo, virá de novo o sol e a seca. Mais uma vez o negócio dos tijolos será bom, pois infelizmente há sempre muito a reconstruir.
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'O Aveiro', Janeiro de 2008
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