domingo, 20 de abril de 2008

Votar em Obama ou A atitude da Liderança

Um voto vale o que vale e, no mundo do ocidente, com o descrédito e a distância cada vez maior entre as pessoas comuns e os políticos, este exercício de cidadania é cada vez menos valorizado. Os políticos são todos iguais, vivem bem, mas em momentos de tensão perdem a cabeça, dizem disparates, não conduzem nada sem ser pela coacção e rudeza. Na maior parte das vezes falam sozinhos uns para os outros sobre assuntos que não interessam às pessoas comuns (parcerias público-privadas escolares com parques de estacionamento, campos de golfe e empreendimentos imobiliários com nome de resort turístico e outras empreitadas pessoais) ou então ainda pior, falam mal uns dos outros.
Vê-se pouca inteligência e muito menos humildade necessária ao poder dado pela responsabilidade do serviço público para melhoria de vida da comunidade.
As pessoas, fartam-se, mas têm esperança, sempre.
Nos Estados Unidos surge há alguns anos Barack Obama, um líder nato. Sóbrio nas alturas porventura mais difíceis, um homem que sabe ouvir as pessoas, os seus problemas e que mostra nisso sinceridade e honestidade, acima de tudo, um grande motivador. Por isso é que a sua força não é só dele, mas de todos os que se juntam a ele.
É por isso também que é seguido, merece confiança, vive no mundo das pessoas e coloca-se ao seu serviço, fá-lo com energia, esperança e envolvendo os cidadãos.
Foi por isso que, filho de emigrantes, nascido nos EUA, procurei pela primeira vez maneira de me registar e votar. Foi na terça-feira passada que o meu voto foi contado pela primeira vez, em Pennsylvania, onde vivíamos. À altura desta escrita, nem sei quem ganhou. Sei que, pela primeira vez, tive orgulho em fazer parte de um processo eleitoral.
A maioria dos senhores da causa pública cá deste Estado, perdoem-me: Os senhores não vivem no mesmo mundo que o resto de nós! É por isso que por vezes são ridículos, principalmente nas inverdades que dizem. Daí o desinteresse geral.
A política é a melhor e mais capaz arma para o Desenvolvimento do Mundo! Quem tem os meios, por favor, use-os para isso, com a responsabilidade que a confiança depositada de um voto significa!
Esperemos a Democracia, na sua verdade, o poder do povo!
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O AVEIRO
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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Um outro mundo para os meus alunos

Eu sou professor. Talvez isto já condicione a leitura, talvez já fique por aqui.
Se continua, obrigado pelo crédito e ao menos, o benefício da dúvida.
A Educação é assunto por excelência, de cooperação e de desenvolvimento. Enquadra-se neste espaço portanto.
À luz da convenção dos Direitos da Criança, o direito à educação é um dos grandes. Está directamente associado ao meta-direito humano do Desenvolvimento. Ele é, de facto, fundamental para o pleno desenvolvimento da personalidade humana enquanto indivíduo e enquanto ser que compõe a comunidade.
A escola de hoje não valoriza esse direito à educação. Ela é intelectualista e instrumentalista. Desvaloriza os saberes que constroem a personalidade da pessoa humana, remetendo-se às necessidades da economia e do mercado.
É ainda o espelho social da sua realidade, uma micro-sociedade, em si mesma e em cada sala de aula. Espelha o que traz da rua e de casa projectando o que será o futuro.
Tem os problemas sociais que a sociedade têm. Tem os avanços que a sociedade tem. Tem a dinâmica que a sua comunidade tem.
Não pertence a nenhum grupo específico. A escola também não é dos professores ou dos políticos que lhe querem dar rumo. A escola não é dos pais, não é dos alunos. Não há a escola dos ricos, dos pobres, dos teóricos que prosseguem estudos, não há a escola dos técnicos que vão para o profissional. Não há a escola do presidente da associação de pais, ou da mãe que sai cedo para a fábrica e regressa tarde depois do segundo emprego nas limpezas.
Há a escola da comunidade! De todos nós! Ninguém é culpado ou inocente das suas limitações porque todos somos implicados para as soluções.
Se houver um trabalho social forte, os problemas da disciplina são resolvidos. Se houver confiança, sentido de Estado e de Comunidade, perceberemos a educação como uma responsabilidade comum, como uma Missão de todos e deixaremos de perder tempo a preencher papéis que nos salvaguardem de possíveis ameaças futuras. Deixaremos o braço de ferro e passaremos de facto à Educação.
Frequentemente, nas aulas penso em qual será o mundo que deixarei aos que tenho à minha frente. Penso no meu testemunho de vida e no mundo que me foi deixado a mim e aí, o discernimento é claro: tenho de os ensinar a pensar, a formar grupo e a sonhar com um outro mundo, onde os jogadores da mesma equipa joguem todos para o mesmo lado… o das soluções.
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O AVEIRO
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segunda-feira, 17 de março de 2008

O mundo não é plano...

Faz hoje uma semana.
Vínhamos no caminho de regresso de uma visita de estudo de geografia. Íamos naquela altura em que a maior parte dos alunos já dormem de cansaço. As visitas de estudo são um tempo de alegria, mas são de facto aprendizagem pelos olhos adentro. Serão sempre uma grande oportunidade, enquanto o sistema permitir estas aulas no real world e não fechar o ensino à estufa da sala confinada de aula…
A aproveitar a calmia que o embalar do autocarro convidava, no ambiente do “está a terminar”, peguei no livro que já atrasado, é minha companhia.
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“O Mundo é Plano”, T. L. Friedman.
Mostra o lado bom da globalização, as oportunidades que se abriram em paralelo aos problemas da abertura de mercados e das vantagens oportunistas de empresas que se desdobram para países com mão-de-obra barata. Mostra que na Inglaterra se ligarmos para os bombeiros nos podem atender de um callcenter na Índia e que é nessa Índia que muitas das declarações de IRS são tratadas. Mostra que podemos comunicar facilmente com todo o mundo, que posso almoçar comida italiana, jogar futebol com uma bola feita na Coreia, com uns calções que vieram do México e o calçado feito na China.
A perspectiva do autor é a da oportunidade porque, com um mundo que se tornou plano, mais próximo, apesar das deslocalizações, do desemprego e da fábrica que fecha na Europa ou nos EUA… isso é só um momento de passagem a algo melhor!
De facto - eu sorvia esta novidade com o entusiasmo cativante que o colunista do NY Times imprime à sua escrita - o mundo é plano! – até que uma aluna me quebra o silêncio ao espreitar o livro:
- "O mundo é plano? Quem foi o burro que escreveu isso? Já há muitos séculos que sabemos que o mundo não é plano!"
Aquilo mexeu com as minhas convicções… mas infelizmente, a minha aluna tinha razão.
Perdão Sr. Friedman pelo insulto inocente, mas o que é certo é que o mundo ainda não é plano. Ele é cheio de montanhas e vales agrestes onde a pobreza grassa com tanta força que a oportunidade e a boa vontade não chegaram.
Só nalguns pequenos espaços, tem um planalto no topo, bem suave.
Visto daí, ou melhor, visto daqui, do pequeno planalto em que vivemos os 2% de população mundial mais ricos, o mundo parece plano e as refeições parecem certas para quase todos.
Só nós, os 2% é que até temos um PC pessoal no domicílio. O leitor quantos tem?!...
Pois, eu também me envergonho disso... para nós parece plano, parece.
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O Aveiro
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sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma fé inquieta... IV

Confissão

Senhor, meu Pai:
Perdoa-me.
Por mais que me esforce, não consigo ser bom suficiente para os níveis que Tu indicas (ou que indicam por Ti) como aceitáveis. Não consigo ser bom, ser santo. Nem chegar lá perto. Não consigo sequer ter essa postura de cabeça inclinada, mãos a direito.
Pela lógica, não tenho a mínima hipótese de ser salvo, é um facto. Mas… como é pela tua Graça que todos os seremos!
Penso que estou safo, tenho fé nisso como tenho na Tua ressurreição!
Por mais longe que esteja do aceitável (embora eu tente, a sério que tento!), o Teu Amor e a Tua Graça infinita vão resolver isto!

Senhor, meu Pai:
Dá-me entendimento.
Não compreendo porque é que nos havemos de matar uns aos outros por causa de petróleo que não passa de um líquido, de diamantes que não passam de pedras, de ouro que não passa de um metal…
Não compreendo porque é que criámos um sistema de troca de bens baseado na especulação.
Não compreendo porque é que por causa dessa especulação, o essencial à vida como o arroz, os cereais sobem de preço deixando à beira do abismo da fome quem já pisava os limites da vida.
Não compreendo porque dá tanto trabalho, porque é preciso apresentar tantos planos, tantos orçamentos previsionais, tantos impressos diferentes… só para se poder dar um pão a um pobre.
Não compreendo porque há pessoas que se aproveitam da Religião para fazer valer os seus interesses. Até dizem que matam em Teu nome! E há tantas maneiras de matar…
Não compreendo Senhor, porque às vezes nos sentimos com o dever cumprido porque fomos à oração por não sei o quê e saímos da capela de coração tranquilo por termos estado lá, tão felizes e contentes… e depois cá fora, não fazemos nada por esse não sei o quê por que Te rezámos antes…
Não compreendo porque desistimos tão facilmente.
Não compreendo porque é que na Igreja de Amor ao próximo que Tu quiseste fundar… é necessário um padre nomear o presidente dos acólitos da paróquia.
Não compreendo tantas estruturas, tantas hierarquias, tantos cargos e tantos nomes, presidentes, directores, direcções… da catequese, dos leitores, dos organizadores dos cálices para a Missa. Precisamos disso tudo? Nós que somos irmãos…

Não compreendo Senhor meu Pai, tantas fragilidades em mim, tanto cansaço para nada, tão pouco fulgor e desenvoltura para caminharmos em direcção ao que interessa, sem distinguir o que vale a pena do que não vale!
Não compreendo tanta complicação à volta da simplicidade do pão e do vinho, à volta da entrega na Cruz, com sacrifício e angústia por Amor.
Não compreendo sequer a minha ingenuidade em pensar que poderia ser de outro modo!
Não compreendo porque acontecem desgraças às pessoas boas? Porque morrem inocentes?... Alguns até perguntam porque O permites!

Já sei… liberdade! Foi uma das maiores coisas que nos deste! Se nos tiras isso, tiras-nos tudo! Até porque os inocentes que morrem, é pelas nossas opções erradas como humanidade… as mesmas do petroleo, dos diamantes, do fanatismo, e de tantos outros ‘ismos’.

Senhor, meu Pai:
Dá-me entendimento,
Para continuar a olhar as coisas boas, sinais de Ti, nas pessoas e no mundo!
Que elas me continuem a encantar,
Ao menos, tanto quanto as más me perturbam.
Dá-me meu Pai, o entendimento da Tua Graça!
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CORREIO DO VOUGA
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quinta-feira, 13 de março de 2008

O menino da Zâmbia.

Lwena, interior de Angola. Em 2004 trabalhei num campo de refugiados. Trabalhar não é bem o termo, mas não sei o verbo adequado ao sentimento da compaixão.
Compaixão não é ter pena de alguém. Longe disso. É viver paixão com, é sofrer com, é alegrar-se com, é cuidar com, é brincar com… Foi isto tudo que fiz com os refugiados daquele campo no meio de África, entregue a pessoas que tentavam dar a volta à História todos os dias, desde manhã até à noite, há um sem número de anos.
No campo de refugiados estava uma família que era de Benguela, antes das guerras. Para fugir delas percorreram caminhos sinuosos até conseguirem chegar à fronteira e atravessá-la para a Zâmbia.
O exílio naquele país foi de cerca de vinte anos, um quarto de vida, longe de tudo o que é seu.
Naquela família havia uma criança, o Piet’a. Tinha três ou quatro anos. Nasceu num campo de refugiados na Zâmbia e em 2004 cruzou-se com a minha vida, em Lwena.
Era um miúdo esperto, muito dado, mas seguro. Falava Chokwé e Inglês. Tinha aprendido nos campos de refugiados onde a sua família esteve, por ouvir falar os trabalhadores do ACNUR.
Não foi difícil conquistá-lo. Bastou mostrar-lhe a cara dele na máquina fotográfica e a brincadeira sucedeu-se.
Houve um dia em que cheguei bem cedo ao campo. Encontrei-o no largo de areia e troncos onde ficava a cantina. A cantina era o espaço, não eram infra-estruturas… era um sítio com troncos e lume sempre brando.
Estava a tomar um prato de papa de milho, invariavelmente o pequeno-almoço de todos os dias para enganar a barriga inchada. Insistiu que comesse também.
Sabia que ele comeria o prato todo sem se queixar, mas não aceitar não era opção para ele. A partilha valia mais e um amigo não pode ser amigo se não comer do mesmo prato.
Algum dias depois, cheguei de novo ao campo e ouvi um bom dia bem português. Em tão pouco tempo em Angola e já tinha conversas simples em três línguas.
Quando vim embora, não me despedi dele. Fiquei a vê-lo com a bola de futebol de longe. Deixei-lhe um papel para um dia ler, quando soubesse. Pedi-lhe que crescesse forte e sábio, que aproveitasse as dificuldades para aprender e que não desistisse nunca do caminho que traçasse e sonhasse para a sua vida.
Nunca mais ouvi nada do Piet’a. Não faço ideia se está vivo. Não faço ideia se está em Benguela dos seus antepassados ou noutro sítio da imensa Angola.
Gosto de pensar que ele hoje está bem. Que anda na escola, que à tarde depois de ajudar os pais, brinca com os aros de alguma bicicleta que já não exista. Gosto de o imaginar a brincar com os carros feitos de latas de salsichas, o que é um sinal de que ele comerá talvez salsichas.
Gosto de imaginar que a escola dele tem um quadro e giz e que ele não precisa de escrever com um pau na areia do chão. Gosto de o imaginar a ler o meu papel e a fazer dele caminho, a tornar-se num cidadão de pensamento livre, lutador para a construção de uma Angola mais justa, mais pacífica, onde os filhos dele não tenham de passar jamais aquilo que os pais dele passaram.
Um abraço menino, onde quer que tu estejas.
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O AVEIRO
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quarta-feira, 5 de março de 2008

O homem que estava preso ao crescimento...

Vive-se contemporaneamente a obsessão do crescimento económico. A vida é medida por ele. O PIB tem de aumentar. O PNB tem de aumentar. Os investimentos têm de aumentar e eles só aumentam se o consumo também aumentar. A capacidade produtiva tem de aumentar para o país e o mundo ‘irem bem’. O mercado é para crescer sempre para ‘tu-comprares-sempre-mais-dos-meus-produtos-para-eu-poder-comprar-mais-produtos-também’ e assim ser mais rico ou ter mais riqueza… a dicotomia dos verbos abre a ambiguidade do progresso.

Desde há séculos que o homem deposita uma confiança cega num progresso renovado e sem cessar que o liberte das suas necessidades e pressões sociais. No entanto, alguns profetas verificam já que caminhamos para um ponto sem retorno em que a produção cessará porque a matéria prima acabará um dia. O planeta não é inesgotável. E depois… depois não se sabe.

Alterações climáticas, que dão em crescentes numéricas de catástrofes naturais. A concorrência entregue a si mesma que tende a comprometer a justiça, quer local, quer global. A injustiça que é a fonte principal da intolerância, da incompreensão que leva à guerra, ao fundamentalismo do terrorismo e ao desespero dos que são vítimas dele, quer por o colocar em acção ao nível mais básico, quer por vitimização casual do mesmo… local errado à hora errada.

O Desenvolvimento é o novo nome da Paz. O pensamento de Paulo VI é hoje actual como nunca. Teremos de, enquanto humanidade, encontrar um novo sistema económico que faça a gestão dos recursos do mundo com justiça, equilíbrio, sustentabilidade e renovado em si mesmo. Temos de perceber que a competitividade desenfreada não é o caminho a seguir. Pode dar riqueza a uma minoria hoje, mas no futuro levará à miséria de todos. Será que os nossos filhos poderão ter o nível de vida que hoje temos?
Em 1960 o economista Lebret já tinha percebido que o conta é o Homem, cada Homem até chegarmos à humanidade inteira. A economia deve existir para ele e não o contrário. O horizonte de prosperidade deve ser esse.
O Desenvolvimento deve ser integral, porque aumentar a produção, o consumo, a riqueza e os números das estatísticas dos PIB, PNB e outros índices só terá sentido em função do caminhar do Homem para um mundo sem gente que perde a vida por causa de petróleo, sem crianças desvalidas, não mais que ossos frágeis, incapazes de comer já pela fragilidade provocada pela fome incoerente, sem pessoas à procura de uma leira de terra para cultivar ou de um tecto para dormir, sem famílias refugiadas, incompletas por guerras e fracassos de diplomacias vazias… mas abastadas.
Que paradoxo este o do crescimento! “Apenas” precisamos de uma nova ordem económica que saiba partilhar e distribuir.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Cimeira da Esperança, na África escondida...

Foi no passado fim-de-semana.
Lisboa engalanou-se, muito exotismo, muitas cores, a partilha de muitos costumes, culturas, diálogos em línguas diferentes, aromas e sabores intensos e distintos… No fundo, reuniu-se a beleza que permite o contacto entre todos, de todo o mundo. A parte boa da globalização.
Gestos… alguns apenas simbólicos, outros mais significantes, mas gestos.
Cimeiras de chefes de Estado, cimeiras alternativas entre grupos de interesses e objectivos nobres, mais, ou menos radicais, mais, ou menos exequíveis. Tanto na oficial como na alternativa. Uns discutiam economia, proteccionismos ou abertura de mercados, outros direitos, alertas e caminhos. Conversa, bater de portas e apertos de mão não faltaram.

Mas a verdadeira cimeira, aconteceu em Angola, longe de Luanda e dos gabinetes extravagantemente luxuosos com vista para a Baía.
Foi no Moxico, uma província junto à Zâmbia, e começou há algum tempo. Mais ou menos um ano. Não é importante a precisão neste caso.
Foi numa aldeia no meio da floresta daquele extenso planalto, isolada durante a guerra. Quase nenhum dos adultos sabe ler ou escrever, apesar de saberem de outras coisas muito importantes da vida como a partilha e o crescimento sustentado.
Há um ano e pouco uns missionários levaram um camião de mandioca para essa aldeia que vivia em fome generalizada e constante.
As pessoas da aldeia prepararam parte da mandioca para se alimentarem. Outra parte, cultivaram-na. Hoje vivem bem, pelo menos do ponto de vista da fome. Mandioca gerou mandioca e há alegria, pelo menos nessa aldeia.
Há bem pouco tempo, noutra visita, os missionários falaram às pessoas da aldeia que noutra aldeia ainda mais distante, as pessoas passavam fome. Precisavam de ajuda urgente para sobreviver.
As famílias contribuíram todas sem excepção, com uma determinação e missão de dever comovente.
Na volta, depressa se encheu de novo o velho camião que já ali tinha vindo descarregar à pouco mais de um ano a uma aldeia faminta. Agora carregava, carregava de novo até à parte mais Cimeira do estrado de carga.
O camião foi até à outra aldeia, seguindo caminhos difíceis e estreitos, por vezes cumprimentados pelas estacas que anunciam campos de minas. Seguiu e chegou ao destino.
O resto da história, adivinha-se! É assim que acontece o desenvolvimento e ele tem sucesso como já explicam conceituados economistas. Jeffrey Sachs é o mais sonante.
Acabam assim as justificações para regulações macro-económicas intermináveis e parcerias altaneiras.
O desenvolvimento acontecerá, concertadamente é certo, mas a partir das bases. É lá que estão os pobres e eles não precisam de pena ou dos milhões que se anunciam nos microfones de outras cimeiras que não as do camião. Precisam tão só de oportunidades, tão só do ‘Empowerment’ para subirem a escada da vida.
Isto é tão simples que até envergonha se a geração actual falhar o primeiro Objectivo do Desenvolvimento do Milénio (erradicar a pobreza extrema do mundo) assinado em 2000 por centena e meia de países, sendo Portugal um deles… Penso até que a assinatura foi feita também numa cimeira!
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'O Aveiro', Fevereiro de 2008

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Uma fé inquieta... III

Inquietações avulso sem fio que mas conduza


1. Timor. Pude conhecer há alguns dias, por partilha dos mesmos bancos de estudo, um timorense que foi um dos históricos estudantes que em 1995 entraram embaixada da Nova Zelândia em Jacarta adentro, pedindo asilo político (cf. Artigo 1º da Convenção de Genebra, 1951).
A Nova Zelândia recusou o pedido do grupo com o argumento de que o seu cumprimento poderia azedar relações diplomáticas entre os dois países. Foi em desespero que ouviram a resposta.
Mas, é na esperança que somos salvos! Foram encaminhados pela Cruz Vermelha para Portugal. Este jovem é dedicado nos estudos do Direito. A garra e o olhar sempre atento, o apontamento a tomar-se. Aprende a justiça como um menino e irá praticá-la como um doutor.
Vê-se que é zelo de querer voltar ao seu país e ser um agente de mudança.
Parece pois um dos heróis da independência, pelo menos na atitude e mais talvez do que os actuais heróis: os guerrilheiros ou prisioneiros de outrora e agora nas lideranças do país.
Perderam a heroicidade. Será que esqueceram as causas que os moveram? Usam o país que “criaram” para se governar. Major Alfredo, Xanana, Ramos Horta ou outros que trocam cargos de Governo entre si… vivem todos na procura da mesma esfera de conforto.
Das mãos de voluntários em Timor vi uma vez fotografias da casa do então ministro Ramos Horta. Vi também na mesma ocasião algumas fotografias de casas simples e pobres, com as condições de vida do verdadeiro “Povo de Timor”. Acreditem, não encontrei semelhanças!
O major Reinado apenas procurava a sua parte dos proventos da “batalha da independência”, de maneira péssima, sim, mas afinal também ele fora um dos heróis guerrilheiros da independência e queria o mesmo que os outros colegas têm.
Semana passada. Uma entrevista da irmã de Ramos Horta que dizia, magoada pelo acto condenável perpetrado ao seu irmão: “É assim que pagam a quem lhes dá de comer…”
Primeiro espanto! Como perceber esta mentalidade que se apropria do bem comum de um país, que pertence a todos os cidadãos por direito e não apenas à elite que a administra como um pai-rico-que-dá-comida-ao-filho-na-miséria?

2. A minha mãe Igreja, caminha de novo na Quaresma. Desde Janeiro! Com efeito, a treze desse mês, o nosso Papa Bento XVI recuperou um modo que já não era utilizado desde o Vaticano II.
Celebrou de costas para o povo, na belíssima capela sistina. De costas não! De ‘frente para Deus e em respeito à beleza e harmonia da jóia arquitectónica’ que conjuga o altar móvel com o fresco de Miguel Ângelo, de acordo com o gabinete de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.
Segundo espanto! Quatro anos no Seminário e nem sabia (não aprendi) que existia um gabinete desses no Vaticano! Mas faz sentido!
Há também algum tempo, a comunidade de S. Pio X escreveu aos padres no sentido de lhes oferecer um CD em que se explicava correctamente o Motu Próprio e como o praticar sem falhar centímetros. Louva-se a iniciativa, na busca da perfeição da celebração da FESTA da Eucaristia!
A minha Igreja caminha na Quaresma mas, estou certo, a caminho da Páscoa da Ressurreição, porque Cristo não passou inutilmente pela Paixão!
Já só na esperança é que somos salvos… perdão, só na esperança é que fomos salvos!
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[1] Spe Salvi facti sumus. Tradução livre do Latim. Nunca fui bom na disciplina, também no Seminário.
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COOREIO DO VOUGA

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Última Hora: Dez Mil Europeus morreram ontem devido à Pobreza Extrema

Não é verdadeiro este título, mas faz-nos pensar. Imaginemos que ontem, neste continente politica e administrativamente unido pelo Tratado que se assina no próximo mês em Lisboa, teriam falecido dez mil pessoas devido à fome.
Na Europa teríamos de nos esforçar por pensar tal coisa inimaginável, mas se acontecesse, sem dúvida seria chocante.
A verdade é que números bem acima dos dez mil, morrem em África todos os dias por, imagine-se, não terem o que nós todos temos por garantido: a possibilidade de uma refeição. Não são números que morrem, são pessoas.
Dez mil pessoas na Europa morreram… Dez mil pessoas em África morreram. As duas frases têm pesos diferentes. Apesar disso, uma é fictícia, a outra é real.
Na vida chegamos a certos momentos que são reveladores, não pela análise de estatísticas, mas pelo que vivemos e vemos. Há meses estive longe desta nossa realidade segura. Retorno a esses dias em que ao longe ouvia, batuques furiosos que iluminam os espíritos da noite, junto com grilos e outros rugidos. Olho ao meu redor e através da malha fina de um mosquiteiro da UNICEF observo um lavatório onde não corre água, uma torneira de duche que apenas pinga. Sinto que estou bem, tenho um tecto agora e aguento-me apesar do estômago pouco composto.
Três dias antes dessa noite de silêncio barulhento não era assim. Perdido, mas encontrado, numa qualquer aldeia da África de Moçambique onde estive de visita com o propósito de ouvir, perceber a vida das pessoas, compreender-lhes as necessidades mais prementes para as combater com futuros projectos de ajuda. Passei alguns dias no mato, com as gentes sem pecado, do interior, vivendo da sua generosidade e acolhimento, da sua simplicidade, como o mundo era no princípio, quando as sociedades eram comunidades no sentido lato e nobre do termo.
Ao fim da primeira manhã dessa saída do meu mundo, tive fome, pensei eu. Senti, que queria comer!
E a comida veio. Uns bagos de arroz, um pouco de frango, a cortesia de um garfo, a companhia tímida primeiro.
Comi, recusar seria ofensa e o meu estômago pedia, um banquete que apenas ocupava um pouquinho da tigela de madeira.
Continuei com fome, pensei eu, mas nunca seria capaz de pedir mais. Aguentaria um pouco, como os ‘Sem Nome’ do hemisfério sul deste planeta aguentam a vida toda.
Aguentei até ao fim do dia, e depois até ao fim da manhã. Comi a “shima” e mais algumas coisas não próprias de se dizerem alto. Sempre em pequenas quantidades, mas sempre do melhor que tinham para dar, pois a Graça do acolhimento dos pobres é maior que a riqueza dos ricos.
O meu estômago, queixou-se, doeu e fraquejou… mas não foi Fome…
Quando se tem fome, o tempo passa devagar, a Terra não gira, o Sol não se põe e o sono não descansa.
Quando se tem Fome, o Mundo parece outro sítio porque o apetite que sentimos fica diferente. É uma fome mas de um tipo que não conhecemos porque nunca estivemos no chão sem força para nos levantarmos, sujeitos a tudo e à espera de nada.
Ter fome, não sei o que é, só os meus olhos lá passaram uns dias… e hoje estou aqui a escrever e alguém a ler. Ao mesmo tempo que a cada minuto alguém parte para a eternidade, porque não teve que comer… é isto, dia após dia, bem longe dos nossos olhos europeus bem abastados de excessos.
Estes momentos, são reveladores, toldam-nos a vista e enchem-nos as mãos de força para em conjunto, mudarmos o mundo… ficar parado não é opção, não enquanto isto acontecer!
A todos nós urge a acção de contrariar esta realidade sem sentido, de um mundo que permite a subida do preço dos cereais porque mais procurados para combustíveis… enquanto que quem precisa deles para se alimentar já não os pode comprar. Não, não podemos tolerar isto num mundo civilizado, dinâmico e evoluído, onde semeamos o valor da paz e da justiça e morra a cada três segundo uma pessoa como nós… de fome…
Sabe o que é isso? Sabe quantas pessoas morreram disso desde que me começou a ler?
É só fazer as contas… mas não são números, são pessoas.
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'O Aveiro', Fevereiro de 2008
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Política ao serviço das pessoas

Nos Estados Unidos da América está ao rubro a escolha de uma pessoa que poderá em breve vir a ser influente no que é a vida de muitas pessoas no Mundo - não só dos cidadãos desse país que vivem dentro ou fora dos EUA, mas de todos nós.
Será o próximo residente da Casa Branca, que vem substituir, finalmente, um que fez com que não seja fácil ser-se americano no mundo hoje e que de facto, deixa as coisas piores do que quando as encontrou.
As Primárias dos Partidos Republicano e Democrata começam a ser votadas em Janeiro. No meio de muitos candidatos, conservadores ou liberais, há um que se destaca na sua postura. Talvez não nas sondagens do momento ou no poder que representa através de interesses corporativos ou lobbistas.
Barack Obama. É filho de um queniano e de uma americana, nascido no Estado do Hawai. É senador dos Estado Unidos pelo estado do Illinois. Começou a sua carreira política, no sentido nobre do termo, como mediador nas comunidades mais pobres de Chicago. Fazia esse trabalho para conseguir pagar os seus estudos em Harvard. Lá aprendeu sobretudo, a vida com as pessoas reais que o sistema económico esqueceu de inserir na sua tigela, mas cujas vidas têm tanto valor como qualquer outra do mundo.
Hoje anda a correr as primárias do Partido Democrata. Não quer governar sozinho, parece chamar as pessoas a essa responsabilidade e dedica-se a elas e aos seus problemas e questões.
Não foi para isto mesmo que a Política foi criada?!
Não foi para os milhões de pessoas que todos os dias fazem pela vida? Que são empregados ou procuram trabalho, que empreendedores, lançam os seus próprios negócios ou ideias, que enfrentam contas da energia e combustível cada vez mais elevadas, que descontam para uma Segurança Social que cada vez mais parece ineficaz, que perdem direitos, alguns justos outros nem tanto e que cada vez confiam menos na Política, que foi criada para os ajudar mas que vêem a maior parte dos políticos a governar(-se) em vez de estarem comprometidos na construção de um Mundo e vida melhores para os milhões de pessoas de que estão ao serviço.
Obama, parece caminhar para outro lado diferente. É isso que inspira, mas talvez seja por isso mesmo que não alcance tão cedo os objectivos a que se propõe. Parece não viver para o partido, não viver para as ideologias mas para as pessoas, as pessoas comuns, por ventura anónimas, para as famílias, para os pobres, para os ricos, para a justiça, não a dos tribunais, mas a da vida.
Seja nos EUA, na Europa, em Portugal, e mais particularmente nas nossas terras, a imagem é a mesma.
As vontades dominantes parecem as mesmas e as pessoas continuam com um futuro muitas vezes incerto por mais que batalhem na vida e porque não temos quem nos represente, quem esteja a sério e comprometidamente para o combate dos verdadeiros problemas do mundo e das pessoas: Pobreza, exclusão, ambiente, igualdade de oportunidades… infelizmente, é uma lista demasiado grande.
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'O Aveiro', Janeiro de 2008

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Moçambique... de novo inundado.

Nunca estive em Moçambique por esta altura do ano. Talvez por isso me seja difícil imaginar como ele é agora. Talvez verde, as ervas amarelas do chão são verdes, as árvores e a floresta imperará com o verde da natureza.
Durante o período de seca, quando estive pelo Norte e Centro de Moçambique, a água era pouca, mesmo a que corria nos grandes rios do Zambeze e Limpopo. As torneiras comuns de água tinham sempre grande animação de mulheres e crianças à espera de vez para encherem os seus baldes e bacias de água para beber, cozinha e lavar. Os do governo, parece brincadeira, mas a canalização que existia foi feita em função das suas casas. Mas quando algum motor de puxar água do rio falhava, todos ficavam sem água. O serviço era remediado com cisternas móveis que se pagavam bem. Pelo que muitas pessoas tinham de passar a fazer quilómetros para ir ao rio.
Custa-me imaginar Moçambique agora, custa-me a imaginar este mundo de contrastes absolutos: seca, cheia…
As aldeias, por necessidade de localização das machamabas, as terras de cultivo, são o mais próximo do rio possível, muitas delas dentro do leito quaternário dele. Depois no Inverno austral, nem a barragem de Cahora Bassa consegue suster a água e evitar desastres.
Todos os anos, pelo mês de Janeiro. Repete-se o eco da desgraça, das inundações, da fome, dos desalojados. A pintura tem sempre cores muito carregadas e cinzentas.
Este ano já se conta 13 mil pessoas desalojadas, 56 mil afectadas. Os números não são pesados se não pensarmos que são pessoas, como nós. São vidas que vêem a sua dispensa: a machamba, coberta de água, as suas casas, tudo o que vão juntando.

Mas todos os anos, incompreensivelmente caímos no mesmo, todos os anos gasta-se mais dinheiro a resolver o mesmo problema, a tapar o mesmo buraco, até ao ciclo de cheias do ano seguinte.
Não é sustentável. Nem por razões económicas, em segundo lugar, nem por razões humanitárias… humanas, em primeiro.
Há o perigo de vida real das pessoas e depois a fome, a interminável e sofrida fome que fragiliza ainda mais quem já é muito frágil.
Depois do perigo, virá de novo o sol e a seca. Mais uma vez o negócio dos tijolos será bom, pois infelizmente há sempre muito a reconstruir.
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'O Aveiro', Janeiro de 2008
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A Missão dos Pequeninos…

“Luta pela Felicidade de todas as crianças deste Mundo…
E também Tu serás muito Feliz!”


Era a frase chave que se lia no panfleto entregue às pessoas naquela paróquia. De um lado tinha essa ideia, do outro, um cântico: “Amar como Jesus Amou”. Afinal, tanto um lado como outro falavam da mesma coisa. A paróquia era um bocadinho distante do centro, encostada à fronteira da nossa Diocese, num meio rural e simples onde as pessoas ao Domingo vão sobretudo buscar esperança para uma vida de trabalho semana a semana, nos campos, na indústria, no comércio… Onde for possível.
Foi no Domingo passado, o dia dos Reis, também o dia da Santa Infância Missionária, uma das obras pontifícias missionárias.
Era cedo e estava frio, mas a Igreja estava composta.
Pode parecer um bocadinho puxar a brasa à minha sardinha (perdoem-me), de facto não posso negar a admiração que tenho pelas pessoas que comigo vão trabalhando no SDAM e na ORBIS com empenho, disponibilidade e lucidez. Mas esta frase, é uma daquelas mesmo bem conseguidas!
Costuma-se dizer que bom orador é aquele que no mesmo discurso consegue dar alguma coisa nova a quem o escuta, quando na mesma assembleia está um professor catedrático e uma criança!
Esta frase é um desses discursos. É simples, óbvia, toda a gente a sabe (ou devia), contém uma verdade insondável e complexa, mas um miúdo entende-a à primeira!
É de facto um dos segredos mais mal guardados de que há memória, mas por se saber tão mal guardado e tão óbvio é que parece continuar a ser segredo:
“Queres ser feliz? Então luta pela felicidade dos outros!”
Não é o que todos procuramos? Sermos felizes? Nas correrias do dia-a-dia, nas milésima reunião da semana, no registo em acta de tudo o que é acção que se faça, no passar por cima do outro para chegar primeiro, no cansaço, no stress, na força, no entusiasmo, na competição, no protagonismo que alguns insanamente procuram? Esta confusão toda na sociedade… não para sermos felizes que a fazemos?
Vêm agora estes miúdos mandar abaixo toda esta estrutura complicada: “Luta pelos outros e também tu serás feliz!”
São miúdos de palmo e meio que fazem um caminho, em algumas paróquias.
A vida deles não é mais que o comum casa-escola-actividades-catequese-rasgar-as-calças-a-jogar-à-bola-e-abrir-horizontes! Olhar além para África, América Latina… São outras fronteiras.
Sabem que ainda não podem ir para lá fazer nada. Sabem mesmo e têm consciência de que não podem fazer muito. Mas o pouco que podem, fazem-no. Juntam uma ou duas moedas, fazem uma pequena oração. Escutam com ouvidos atentos notícias de crianças como eles, mas de outros hemisférios de vida. Quando lhes perguntamos, são embaixadores entusiásticos da causa, na consciencialização que já transmitem às pessoas! E espantemo-nos, não são mais do que crianças a ajudar crianças… outro dos slogans.
Imagino estes pequeninos quando tiverem a força e os meios que os grandes têm. O mundo vai mudar e talvez todos sejam mesmo felizes.
Nem é muito complicado, basta cumprir a frase dali de cima!
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COOREIO DO VOUGA, Janeiro de 2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Para quando a vez das Pessoas...

Foi há dias que ouvi uma expressão feliz, mas triste, na verdade que encerra no mundo:
A nobreza, o clero e o povo… acabaram.
As classes altas, médias e baixas… acabaram.
Agora há os pagadores de impostos e os que os gerem e deles beneficiam.

1. As políticas de desenvolvimento internacionais, da erradicação da pobreza, da luta contra a fome nunca são definidas ou estipuladas por quem vive os problemas. Em África não são os pobres a decidir como aplicar os fundos, não são as ONG’s a determinar pelo que observam no terreno, em que frentes actuar, não são os sem terra da América Latina a definir o conceito de justiça, nem eles a quantificar o que lhes foi tirado, nem o que lhes será dado, que geralmente é nada.
É sempre o executivo europeu ou americano, com bonitas teorias que impõe as coisas. Se não for para isto, não há dinheiro. Se não houver boa governação, não há dinheiro. Se for para aquilo e se não seguir o programa definido na secretária de uma sala de uma qualquer capital do hemisfério norte, paciência, não há dinheiro.
As pessoas, essas, lá vão sofrendo e aguentando.

2. Eleições no Quénia. Já quase não estranhamos que o prato seguinte seja a violência. Os que vencem dizem que os Quenianos que perdem não são maduros na democracia e, por isso, não aceitam os resultados. Do outro lado, os que perdem dizem que a democracia é madura e por isso não aceitam fraudes eleitorais.
As pessoas, essas, lá vão sofrendo e aguentando.

3. Na semana passada, num dos noticiários do horário nobre, o jornalista dizia que o sistema das primárias nos EUA era muito arcaico porque as pessoas, qualquer uma das que estivesse filiada podia participar na escolha do candidato do seu partido à Casa Branca, depois de uma noite de debate e reflexão no Caucus.
Nem de propósito, a vitória expressiva no Iowa, foi de Barack Obama o único que não aceita para a sua campanha um cêntimo de dólar vindo de empresas ou interesses corporativos. Será o início da mudança?!

4. De facto, Portugal é mais evoluído! Quem é a pessoa, aquela que sabe o que custa encher o depósito do carro, aquela que tem um ou dois empregos para manter um filho na universidade, aquela que estuda toda a vida para ir para o desemprego, aquela que faz contas para conseguir pagar electricidade, telefone e o empréstimo da casa sempre crescente… que tem oportunidade de ter alguma coisa a dizer na escolha dos candidatos da Junta, da Câmara, de S. Bento ou de Belém?!
No nosso país, só tem voto de nomeação uma meia dúzia deles, que representam interesses e estratégias no jogo das influências e na gestão dos impostos, porque estes, quem os paga, são as pessoas, as mesmas de sempre.
As pessoas, essas… para quando a sua vez?
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'O Aveiro', Janeiro de 2008
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terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Que haja bom senso

Que neste ano, as fronteiras riscadas a direito, com linhas rectas num mapa, fazendo países ‘europeus’ em África, miraculosamente se redesenhem e tenham em conta as etnias, as geografias, as montanhas e os vales, os rios e as árvores frondosas, os animais e as rochas, as tradições e as culturas, que reúnam as famílias separadas por esse risco há muitos anos, por outros riscos de guerra há menos anos, por outras riscos no chão e redes de campos de refugiados hoje mesmo enquanto escrevemos e lemos.
Que neste ano os homens compreendam que o petróleo só serve para transportarmos pessoas, mercadorias de um lado para o outro e para aquecer as casas do frio. Que não vale a pena nos matarmos por isso.
Que neste ano percebamos, enquanto humanidade que usar as religiões para justificar actos e crimes sem sentido é mentir. Que nunca Maomé, Cristo, Abraão ou outro qualquer disseram: “Mata o teu semelhante e os seres vivos que existem na Terra”.
Que este ano os muito ricos percebam que o dinheiro não se come. Que os muito pobres possam não cair na indignidade da esmola, mas que alcancem a força da oportunidade!
Que os políticos tenham esse bom senso de proporcionar a oportunidade!
Que neste ano se resolvam as eleições no Quénia a favor dos que mais e melhor servirem o país! Que neste ano se resolvam as eleições no Paquistão a favor das pessoas que lá vivem! Que neste ano as eleições em Angola não comecem a guerra que as últimas começaram em 1992! Que neste ano as eleições nos Estados Unidos da América sejam um ponto de viragem para um mundo mais justo, mais focado no futuro, no bem comum, na justiça e na paz da terra.
Que neste ano nasçam mais árvores do que as que forem cortadas na Amazónia e no mudo inteiro. Que neste ano não haja camponeses expulsos da sua casa no Nordeste Brasileiro obrigados a fugir para a miséria dos subúrbios de alguma cidade.
Que neste ano os Jogos Olímpicos sejam realizados num país que valoriza os Direitos Humanos!
Que neste ano a economia sirva as pessoas e não o contrário, que neste ano o lixo atirado pela janela dos carros faça parte do passado.
Que neste ano a palavra sorriso seja uma realidade para todas as pessoas do mundo e não uma palavra gasta de campanhas de solidariedade!
Que este ano, seja um bom ano!
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'O Aveiro', Janeiro de 2008
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Milagres de Natal em todo o mundo!


(…) Lembro-me do mundo que eles representam. Penso na delicadeza da vida de muitas pessoas que mereciam o calor do menino, talvez um Pai Natal que levasse esperança, porque o menino não pode sair da manjedoura quentinha.
Este Natal vamos fazer isso.
A ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento dá início na noite de 24 de Dezembro a um projecto que vem sendo preparado há muito tempo com cuidado. O chamado apadrinhamento à distância – a que daremos o nome de ‘ONE CHILD, ONE FUTURE.
Sabemos que a altura não será a melhor pela má publicidade que a suposta “Arca de Zoé” trouxe aos que andam verdadeiramente nestas causas. Mas mesmo assim, vamos com coragem e limparemos as feridas que esses possam ter feito.

A ideia consiste em ajudar a sério, permitindo o empowerment necessário às crianças que hoje vivem em pobreza extrema, mas que se hoje tiverem alimento e escola, poderão vir um dia a viver bem.
Necessitam apenas de uma refeição certa e adequada por dia, e de escola. Aprendendo hoje, poderão amanhã ter uma vida boa, saudável, sem fome e dando sustento aos seus.
Como se conseguirá isso? Na Diocese de Aveiro acolheremos todos aqueles que com o seu compromisso sério, atempado e continuado “adoptem” um afilhado na América Latina, África ou Timor. Os padrinhos ou madrinhas darão o necessário por mês para proporcionar educação e alimento às crianças que os missionários nossos parceiros atendem. Pela diferente cotação económica dos países de destino comparados com o nosso, falamos de quantias entre os 15 e 30 euros por mês. Não chega a um euro por dia!
Com tão pouco faremos milagres neste Natal! Daremos futuro às crianças! Não é para as trazer para cá em caso algum, não é para as conhecermos pessoalmente, não é para que elas sintam que têm um padrinho na Europa por isso não têm que se esforçar na vida… Nada disso! É tão-somente o milagre da multiplicação, em que um pouco de esforço para nós dá alimento e estudo a alguém na sua terra e no seio meio, junto com a sua família ou junto com os missionários se for órfão.
Damos as condições devidas às crianças de hoje, para que amanhã por si, possam subir os degraus do seu desenvolvimento, além de que tornamos no imediato a sua vida dura de criança um bocadinho mais suave!
É mesmo este o sentido do Natal, não é?!...
(…)

Informações:
ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento
www.orbiscooperation.org
one.child@orbiscooperation.org
Tel.: 96 496 2259

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CORREIO DO VOUGA, dezembro de 2007


sábado, 20 de outubro de 2007

Manchas que custam a lavar... arca de zoe, uma coisa que se fez passar por ONG

“Sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário.”

Enquadrada no seu contexto, este é um bonito pensamento, dos tempos de juventude de Guevara, quando o cansaço ainda não lhe tinha toldado o entendimento e fazer mal em nome do bem maior que ele pensava procurar. Não pretendo julgar a pessoa, nem as suas acções. Não o faço porque o meu juízo seria o do ano 2007 na Europa e a realidade dele era outra, com outras condicionantes. É de facto uma figura que admiro imenso, até certo momento da sua vida. Sinto-me em sintonia com a força que viveu intensamente.

1. Sentir profundamente uma injustiça não foi com certeza o que levou a Arca de Zoe, uma suposta ONG francesa a ‘salvar’ crianças supostamente órfãs (não o eram), supostamente do Darfur (também não o eram). Se todas as suposições fossem verdade, levá-las-iam sim para o campo de refugiados mais próximo e com melhores condições, não tratariam de as levar para França, a mesma França que há pouco tempo fez avançar legislação difícil a qualquer imigrante.
Das duas uma: ou asnos de caridadezinha e com muito dinheiro (frete de um avião?!) ou criminosos que mais não queriam que fazer negócio, como negreiros do século XXI (segundo o L’Expréssion, um diário de Argel).

2. Um dos crimes pelo qual não serão julgados foi a desconfiança que lançaram a todas as ONG’s. A comunicação social africana brada aos céus a culpa delas, o Presidente do Chade Idriss Itno aproveita para atingir franceses e as ONG’s que se julgam acima das leis locais. Lança-se a desconfiança geral em relação às Missões e Projectos que elas desenvolvem. Desconfia-se de tudo… porque uns senhores se resolveram a fazer-se passar por uma ONG e enriquecer criminosa ou ingenuamente à custa disso.

3. Muitas Organizações vivem bem. Com bons jipes (a Comissão Europeia não permite a utilização em projectos humanitários financiados por si, de viaturas com mais de 2 anos). Muitas outras, à custa das despesas de deslocação, lá vão ganhando bem com cada uma que fazem, seja ela de 170 kms a Lisboa, seja ela de 8000 kms a bem mais longe.

4. Muitos dos grandes acusam os pequenos de amadorismo, de voluntarismo, no sentido pejorativo da palavra, enquanto os primeiros esbanjam orçamentos, os pequenos põem do bolso e não é porque queiram.

6. Muitas vezes, chegam às Organizações pessoas para o voluntariado, muito bem mascaradas de boas intenções. Avançam mundos e fundos mas em pouco tempo vem à superfície a verdadeira motivação: ou lavar pecados do passado pessoal, ou construir um bom currículo social ou outras coisas menos dignas. O que no início era “só para ajudar” acaba por causar mais trabalhos do que o trabalho que inicialmente renderia.

5. Conclui-se que para ajudar é preciso saber fazê-lo. É preciso trabalhar para a causa, para a ajuda, para o desenvolvimento adequado e autónomo das populações. Antes de se dar roupas, livros, fundos monetários, o que quer que seja, saiba sempre com quem está a lidar, peça sempre feedback daquilo em que investe o seu esforço.
Geralmente, as organizações da Igreja Católica são sempre eficientes e de confiança, por isto mesmo: mantém a garra do Amor cristão ao próximo e reúnem a competência de uma organização estruturada.
Não deixe de ajudar, só porque alguém se faz passar pelo que não é. Muitas vidas já foram verdadeiramente salvas e sem saírem das suas terras. Esse trabalho pode continuar… se soubermos como e quisermos ajudar e fazê-lo bem.
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CORREIO DO VOUGA, Novembro de 2007
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domingo, 14 de outubro de 2007

Uma fé inquieta... II

Como vamos mudar o Hoje?

A medida dos nossos sonhos é a medida das nossas realizações
J. Kentenich

A oportunidade de fazer melhor está por todo o lado, basta escolhermos agir. Fazer melhor é ver um espaço e preenchê-lo, ouvir um pedido de ajuda e atendê-lo, pegar numa coisa errada e fazê-la correcta. Pegar num canteiro cheio de ervas e limpá-lo, guardar um papel no bolso e esperar por um cesto onde o depositar. Fazer melhor é pagar ordenados aos empregados por tempo de serviço num bem, construir uma casa, pintar uma escola, entusiasmar a juventude, dar alimento aos pobres, revitalizar uma comunidade, ter atitudes irreverentes, desinstaladas, andar de t-shirt no meio de ‘doutorzinhos’ porque o que conta é o que se faz. Fazer melhor é partir para a acção, sem medo de ocupar charneiras porque todo o espaço já está ocupado. É percorrer o caminho sem medo, com determinação, focado no horizonte. Fazer melhor é fazer com paixão, o estar ligado, aventurando-nos para o meio da tempestade e fazê-lo com um propósito.
Li algumas destas ideias, imagine-se, numa caixa de sapatos.
A intenção do marketing era criar o espírito da marca, a identificação destas ideias com quem lhes calça o calçado para poder ir mais longe. Diz-se de facto, que uma pessoa diz muito de onde quer ir pelo calçado que pode ter. Faz sentido!
É gente desta garra, deste género acima descrito que costuma ser laureada com o Prémio Nobel da Paz.
A maior parte de nós, não será agraciada algum dia por tão nobre distinção, mas há que ter presente que a avaliação dos nossos desempenhos é sempre condicionada por quem nos avalia.
Portanto, sem ligar demasiado a planos, é importante que saibamos agir hoje, mudando o presente, fazendo melhor… desde o pequeno-almoço até ao descanso da noite.
São pequenos gestos, alguns são pouco mais que símbolos, a maioria deles completamente invisíveis mas ninguém lhes nega a importância! Imaginemos que amanhã nenhum padeiro faz pão?...
Imaginemos que amanhã a Igreja encerra todos os Centros Paroquiais e Sociais, todas as Organizações Humanitárias que criou, imaginemos que amanhã o padre já não pode entrar no hospital, imaginemos que amanhã a senhora anónima já não visita o doente que está sozinho, imaginemos que amanhã todos os missionários regressam a casa, imaginemos que amanhã toda e qualquer confissão ou convicção era impedida de entrar na escola…
Muito se perdia. Muito testemunho de fé dado pela acção se apagaria. Muita seria a falta que se sentiria.
Chegou portanto a hora de no ano de atenção aos pobres, trabalharmos de cabeça erguida como quem sabe que não faz favores, como quem sabe que vê oportunidades de fazer melhor e o faz sem ter de pedir licença, nem a ministros nem outros que tais que ameaçam sem saber muito bem a amplitude do que estão a dizer.
Cada um de nós, como ser único e como Igreja, tem um lugar no mundo, e seja lá onde isso for, o importante é preencher o vazio e fazê-lo melhor que o nada que ele seria sem nós… sem nunca ofender ou desrespeitar as liberdades, mas com a audácia e o empenho de quem sabe o que está a fazer e o faz bem, sem medos ou silêncios que nos levem como Igreja, ou como pessoas, à impertinente insignificância.

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CORREIO DO VOUGA

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sábado, 11 de agosto de 2007

Educar o sonho de um mundo melhor…

A educação é muito próxima ao sonho. Podemos sonhar com um mundo melhor, podemos sonhar com um mundo da paz, onde todos têm o que necessitam para viver com dignidade. Podemos sonhar com um mundo onde todas as crianças possam ser crianças, os jovens possam ser jovens, os adultos, adultos e os idosos, idosos. Podemos sonhar com uma sociedade que assenta na solidariedade e na fraternidade, podemos sonhar com um mundo onde todos actuem com coerência e todos compartilhemos da necessidade de justiça social[1].
Podemos sonhar…
Educar provém do termo latino ‘ducere’. Etimologicamente tem vários sentidos: ‘conduzir’, ‘guiar’, ‘atrair a si’. Educar é de facto um caminho, que alguém guia e conduz, que alguém propõe, uma imensa viagem interior, que se faz em conjunto e onde se aprende a mudar o mundo, aos poucos, para um estádio melhor!
Educar é não apenas sonhar, mas lutar por esse sonho, na prática, construí-lo com todos os que me rodeiam.
São vários os intervenientes desta educação. Todos nos guiamos e conduzimos uns aos outros. Não são apenas os professores ou os catequistas ou os animadores ou os padres ou os pais ou os filhos ou quem quer que seja! Somos todos, até os educandos e outros nomes acabados em ‘andos’ e todos esses do primeiro ao último se completam uns aos outros!
Há algum tempo atrás conheci um ‘educador’, um senhor de que não sei o nome, dos seus oitenta e tais anos e com quem me cruzei uns dez minutos na minha vida. Foi numa visita de estudo para lá do Douro em que parámos por momentos no silêncio cristalino de uma aldeia transmontana, escondida como um tesouro por detrás das montanhas. Houve um senhor (aquele de que falava há instantes) com rugas de experiência e calmia na voz experimentada que perguntou a um dos meus amigos professores-educadores que guiávamos os nossos alunos:
- És tu o professor desta gente toda?!
- Sou sim senhor – respondeu o meu Amigo.
Ouvimos então, num tom de voz sereno de quem tem a lição para dizer desde sempre e que apesar da idade longa abraça o futuro com carinho:
- Educa-os bem pois eles são o futuro de nós mesmos. A marca que deixaremos no mundo não serão palácios de pedra, serão palácios humanos!

Neste caminho, já não há professores que ensinam e berram para manter a ordem na sala, não há catequistas que falam de doutrinas e fazem joguinhos, não há pais que ralham ou castigam, não há crianças frágeis ou violentas, não há paróquias indiferentes à escola, nem há escolas que não ligam ao ambiente lá de casa (quando ela existe ou quando são várias – dependendo da semana a quem calha ficar os filhos), não há cristãos isolados ou desinteressados, não há distinção nos intervenientes., pois de facto, todos somos, desde o mais pequenino ao mais velho, duas coisas muito simples:
EDUCADORES, porque nos conduzimos uns aos outros neste caminho maravilhoso que é a vida e COMPANHEIROS, não noutros sentidos que o original da palavra: aqueles que compartilham o pão!
Para formarmos a civilização do Amor, da Igualdade, da fraternidade temos de crescer em valores, todos actores do sonho da educação teremos de ser à imagem de Jesus, o educador por excelência, pessoas atentas aos outros, pessoas firmes, mas cheias de ternura!
Jesus é a fonte inesgotável de estímulos e critérios permanentes de como devemos entrar em relação com o outro: no ensino, na aprendizagem, no discernimento, na correcção, no conflito, na intervenção, na crise, na dor, na alegria, na festa, nas circunstâncias de pressão social-institucional-cultural-religiosa, etc. A sua excelência está na sua atitude educativa, na metodologia, no conteúdo, na linguagem, sempre acessível a quem o ouvia. Ele sempre teve a preocupação de ser entendido! A sintonia da linguagem é fundamental!
Jesus foi educador diante dos seus discípulos, no encontro com as pessoas, com as massas, diante dos adversários, nos discursos aos seguidores, com seus parentes... Diante de todos!
Foi educador na rua, na festa, na praia, no deserto, na estrada, no monte, no poço, na casa dos amigos, no tribunal, na cruz. Em todos os lugares!
Foi educador no conflito, na tensão, na fome, na solidão, na angustia, na dor, no cansaço, na serenidade... Sem stress e em todas as circunstâncias, convivendo, acolhendo, motivando, aproximando-se, perdoando, ensinando, libertando, corrigindo, escutando, esclarecendo, desafiando, alertando... sempre ao ritmo dos seus educandos, sempre pela positiva, dando prioridade à pessoa, às pessoas e ao infinito que elas comportam dentro de si!
Profundamente humano, Jesus envolveu-se, foi capaz de sentir compaixão por quem se encontrava numa situação indigna. Não resolveu problemas sozinho... Ele envolve, desperta a motivação, sensibiliza, organiza, implora a bênção do Pai e… os milagres aconteciam e podem continuar a acontecer hoje!
É muito simples mesmo que aconteçam, basta partilharmos o pão da vida, basta guiar-mo-nos uns aos outros, termos compaixão e sabermos que nem todos nascemos na realidade iguais em direitos, mas que é preciso indignar-nos, ouvir, acompanhar, “bater à porta do coração e perguntar: pode-se entrar?”
[2]… Lá dentro, por baixo da capa do irrequieto barulhento, animado e maluco está um ser humano com um potencial que junto com o nosso… vai mudar o mundo e o tornar naquele dos sonhos, o da solidariedade, o da fraternidade, o da partilha e o do Amor…
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[1] Luís Sepúlveda, in: “O poder dos Sonhos” pp.10 e 11
[2] Pedro Strecht
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CORREIO DO VOUGA, Agosto de 2007

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

José, um carpinteiro

Quando eu era mais pequeno, fiquei uma vez na sala lá de casa, adormecido perto do quente da lareira. Era por alturas do Natal. A árvore mais alta do que eu dava abrigo e luz ao presépio de musgo e caminhos de areia que sempre tomava parte do meu tempo a fazer, e do da minha mãe a limpar.
Recordo-me que acordei estremunhado certa noite, mas depressa envolvido e protegido pelo calor das luzes da árvore de Natal e das brasas já esquecidas. Fiquei-me por lá mais um tempo antes de subir para o quarto e fiquei a olhar, meio perdido para o musgo, para os caminhos feitos de areia, para o pastor, para os reis a caminho, para a cabaninha sem o menino ainda e para uma figura que guardava todo o cenário e ao mesmo tempo encerrava em si um silêncio profundo, um certo ar de paz. Era José, um carpinteiro, o pai do menino Jesus. Era como ainda é hoje aqui ao meu lado. Como agora também na altura a luz discreta da árvore dava um certo encanto a todo o silêncio do presépio.
Mais crescido foram contando-me coisas sobre o pai de Jesus, fui lendo as partes em que ele aparece, sempre silencioso no Novo Testamento, porém sempre decisivo.
Quando se fala em sonho nos evangelhos, a maior parte é em referência a S. José. Sempre que era preciso, José fazia o impossível. Aceitou casar com uma mulher já grávida, noite tarde e longe de Nazaré deve ter procurado um sítio para a sua esposa, mulher judia grávida, e por isso impura, poder ficar e dar à luz. Com a sua vida estabelecida, foi para o Egipto por causa do sonho. Depois de lá se estabelecer, voltou de novo, por causa do sonho…
Estes Homens que buscam incessantemente aquilo a que os seus ‘sonhos’ chamam são espantosos. Deixam de lado a sua vida, os seus projectos, porque têm uma Missão. Eles são os que não se acomodam, são os que lutam, os que acreditam. A maior parte das vezes, são Homens de silêncio, de acção, de olhares profundos e contemplação. Falam quando têm de falar e não muito mais que isso. Ensinam através do exemplo.
Às vezes ouço aquelas ideias da ciência de que os quarenta dias de Jesus no deserto foram passados com os Essénios… pode até ter sido, pode nem ter sido. Continuo a achar que a grande escola de Jesus era José e a sua oficina, as mesas, as cadeiras, o torneador de madeira e os formões, a aperfeiçoar pacientemente com a contemplação necessária para fazer de um pedaço de madeira uma peça de serviço. A vida aprende-se com a vida e nas coisas comuns Deus ensina-nos tudo o que precisamos de saber para na vida, nas tarefas do dia colocarmos um pedaço de sonho. Juntando uma porção de Amor e suor do rosto a tudo o que fazemos, desde protocolos que assinamos até ao aperto de uma mangueira do quintal, os milagres acontecem, com as coisas simples, com o exemplo dos Josés anónimos que tanto fazem por cada um de nós, com humildade e trabalho.
Eu tive e tenho Josés na minha vida, mestres que da tarefa vulgar fazem um ofício sagrado, tornando a vida um conjunto de momentos de perfeição e dedicação, sempre em silêncio.
Vi um uma vez num campo de refugiados. O olhar atento e assustado de um pai refugiado que chega ao campo, sem conhecer nada, com alguns filhos em redor. A sua postura assustada, de quem tem medo não por si mas pelos seus filhos... de quem receia, mas não o pode mostrar porque tem de dar a protecção aos seus, tem de lhes sussurrar a cada momento que está tudo bem... Medo, e não mostrá-lo... protecção para dar, sem a ter...
Tive um José que se chamava Francisco. Era meu avô e eu ainda não tinha nascido. Um dia em sonhos e sem precisar para ele, decidiu partir para uma terra desconhecida. Ia abrir caminho aos seus, dizia ele, forte e possante, mas silencioso no seu ofício. Anos mais tarde, já comigo criança, era junto ao pinheiro de natal que dava abrigo ao presépio que me ensinava a ler e a escrever no calor do borralho que aquecia a sopa do frio da rua das canas. No Natal era dele a prenda maior, porque eu fazia anos lá perto e ele nunca misturava os afectos. Tudo ele fez para abrir caminho aos seus.
Outro José na minha vida, chamava-se Artur, era carpinteiro também. Construiu a casa do meu Pai, a fonte, os móveis… todos os gestos diários de casa eram auxiliados por algum objecto feito por ele, em silêncio. Homem calmo, silencioso, um sorriso discreto de contemplação… é a imagem que tenho do meu outro avô, ténue pois partiu comigo criança. A imagem que tenho dele é de um Homem sempre seguro, agarrava as situações, sempre sereno, sempre protector e acolhedor, com uma calma carinhosa. Não dizia muito muitas vezes, pois quando se faz algo de sagrado, fazemos silencio para respeitar, assim também quando vemos o absoluto, calamos e olhamos só. É o que basta.
Hoje, o meu Pai, um José com outro nome, comigo perto ou comigo longe, durante alguns anos, com um mar a separar-nos, tudo ele fazia em silêncio e com um sorriso sereno parecido ao do Pai dele, talvez até com sacrifício, mas um sacrifício de Amor, fazendo o que fosse necessário, correndo, sonhando, partindo e cortando, arriscando os ganhos para construir tudo de início, com trabalho de manhã até ao fim do dia, havendo ainda tempo para me fazer o pão para levar para a escola, tantas coisas silenciosas, tantas para me abrigar e educar, me abrir caminhos e me proporcionar uma vida plena de sonhos.
Vida que eu hoje, contemplo, com a árvore de Natal ao meu lado, com o presépio debaixo. Observo o silêncio dos ‘José’ que contraria o destino dando-lhe a volta, porque o sonho de Deus para nós é muito grande e é na vida de todos os dias, do trabalho suado, comum e pleno de Amor que os milagres se cumprem e as promessas de Deus têm lugar…
Sem José, o que seria de Jesus? Sem Josés, o que seria do mundo?

Pedro, aspirante a José…
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CORREIO DO VOUGA, Edição especial de Natal, 2006

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Carta de Natal a ti que chegaste agora…



Querida Maria, escrevo-te hoje, mesmo que não entendas ainda nada disto, pois só chegaste há dias, há oito meses! Este vai ser o teu primeiro Natal connosco, e sei que no olhar atento que dás a tudo o que te é novo, que é tudo, lanças a pergunta do que é que será e o que significa o mundo.
Há coisas Maria, que não se compreendem. Ando cá há alguns anos e muito do que vejo ainda não compreendo, mas sabes, o tempo que aí vem ensina-me que não temos de compreender tudo, às vezes temos só é de acreditar.
Vais ver neste lugar chamado mundo pessoas a discutir, pessoas a passar por cima de outras pessoas para ganharem mais dinheiro, ou se iludirem pensando que têm poder, apesar de não terem poder nenhum. Vais ver pessoas que abusam de outras, com autoridade assumida mas não dada, para se convencerem a si próprias de que são importantes, mas são é impotentes. Vais ver pessoas que arranjam desculpas para fazer guerras porque querem a paz, mas no fundo o que querem é petróleo ou coisas assim parecidas para poderem passear de carro e ter muitos brinquedos lá em casa. Vais ver pessoas que se matam, e consigo matam mais pessoas que não sabiam que iam morrer, só que apanharam o mesmo avião ou o mesmo comboio que os que levavam aquelas coisas que explodiam e fazem barulho, magoando muita gente.
Sabes, não compreendemos, mas essa gente diz que faz isso em nome de Deus. Usam Deus para justificar conforto financeiro. E depois, nós que estamos de fora começamos a julgar e a torcer por uns ou por outros como se de futebol se tratasse, Benfica ou Porto, Cristãos, Judeus ou Muçulmanos.
De facto há coisas que sei que nesses olhos grandes, tu procuras compreender. Ainda nem caminhas, nem coordenas bem os movimentos da tua cabeça, mas sei que já procuras… há coisas que não compreendes, nem eu, nem ninguém.
Mas há uma coisa que é mesmo inacreditável e incompreensível se pensares só com a nossa natureza humana. Sei que com oito mesinhos apenas, ainda tens muito de Deus em ti, pois saíste de perto Dele há pouquinho tempo, mas há uma coisa que não se compreende só com os olhos, pequena Maria, e que se sobrepõe a todas as perguntas e dúvidas que te contei acima. É uma coisa impressionante! É um menino, pequeno e frágil como tu, um dia nasceu de uma rapariga com o mesmo nome que tu. Não nasceu numa maternidade, nasceu num curral. Dizem que ele nem chorou quando nasceu, mas eu acho que chorou. Acho que sim, acho que fez birras como tu, acho que chorava quando queria colo como tu, acho que sorria quando lhe faziam a vontadinha e iam passear com ele, acho que tinha os olhitos tão abertos como tu tens os teus, a ver se percebia o mundo que ele ia mudar. Acho que acordava de noite como tu, acho que preferia fruta doce à sopa como tu, e acho que também levantava a cabecita como tu fazes a procura não sei de quê, mas tu deves saber o que seria.
O incrível é que ele, tão pequenino e frágil, tão pobre e pequeno, tinha tudo para ser poderoso, mas não quis assim. Escolheu nascer assim como tu. A única arma que ele utilizou foi o Amor, que espalhava à volta Dele, que contagiava com o sorriso dele, desde pequeno até ser crescido. Ele quando abria a boca para falar, irradiava Amor, irradiava esperança, irradiava calor, tal como tu quando começas a palrar. Era um menino pequeno e fez isso tudo. Um dia, uns senhores fizeram-lhe mal, mas ele mesmo assim, ressuscitou e venceu o nosso maior medo – o fim de tudo.
Já viste… isto é que é mesmo incompreensível! Um garotito como tu, pequeno e frágil, humilde e pobre... Venceu e libertou-nos dos nossos limites humanos! Ele que começou tão lá em baixo, num berço de palha e chegou até lá tão em cima, até ao lugar de onde tu desceste há dias e vieste ter connosco, para partilhares esta aventura chamada vida!
Sê bem-vinda à Terra Maria. Aproveita esta viagem e feliz primeiro Natal!

tio P.
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Correio do Vouga, Dezembro de 2005 – edição especial de Natal
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segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Educar, um acto Amor...


Esteve aí a Semana Nacional da Educação, altura para parar um pouco e pensar no estado da educação no nosso país, e que a nós nos diz respeito directamente, do ensino religioso.
Educar hoje, parece cada vez mais um engenho mecanizado e cada vez menos a relação de pessoas que se educam e crescem juntos, nos sonhos e propósitos de um mundo onde todos tenham um lugar digno e justo!

Os pais, pela lei, têm o direito de escolher a educação que querem dar aos seus filhos – é lógico isso - têm o Estado, do qual são “patrões” - e bons patrões porque o ordenado (impostos) que lhe pagam não é tão baixo quanto isso! É legítimo que se um Pai, pagador de impostos e educador supremo dos seus, sendo católico e desejando uma disciplina que eduque o filho nos valores em que ele acredita – o Estado (empregado), terá de o garantir! O mesmo acontece se o Pai fôr budista, protestante, hindú ou de qualquer outra confissão! Se assim não puder ser, não se cumpre a lei. Proponho então que deixemos de pagar o ordenado ao empregado Estado, já que ele não trabalha como deve ser.

Há dias o Primeiro Ministro espanhol disse, em Espanha que devia ser a Igreja a pagar aos professores de EMRC! Concordo plenamente! Aliás, até deviam ser os ingleses a pagar aos professores de inglês e os Romanos deviam voltar para virem pagar aos professores de Latim! Perdoe-se a ironia, mas é a melhor maneira de responder a este tipo de argumentação, demagógica por natureza, e que permite ao Estado esquivar-se de um papel que é também o dele – o de garantir uma educação plena, diversificada e abrangente do saber.

Nós temos direitos, garantidos pela Constituição e se a Escola cada vez fôr mais um autómato de transmissão de conhecimentos, sem alma e sem dinamismo, em que se ‘façam robots’ e apenas se debitem matérias, então que se mandem os professores todos para casa para pouparmos no orçamento do Estado!

Agora, se queremos um ensino com alma, de pessoas para pessoas, se queremos fazer dos nossos filhos Homens e Mulheres de valores, pessoas que saibam olhar para o Mundo e pensar sobre ele, que saibam parar e discernir que caminhos seguir, que caminhos abrir... vamos apostar numa educação como um acto de Amor, vamos educar com afectos, com vida! “Só uma relação de amor que envolva todos os intervenientes no processo educativo pode tornar fecunda a tarefa educativa” – é clara a nota pastoral para a semana da educação - “o Homem só no amor atinge a plenitude da realização e se torna semelhante ao próprio Deus”. Como diz S. Paulo, até podemos ter tudo, mas se não tivermos Amor, nada seremos!
A Escola é a semente do Amanhã, mas também de Hoje, a escola não é só o futuro, é o aqui e o agora. Se não se aprender a saber ser e a saber estar, caminhamos para um fim descontrolado, sem rumo, sem sonhos e sem projectos e se soubermos Amar, se educarmos no Amor, “um mundo novo pode surgir”.

Só temos de acreditar e trabalhar, fazer as ferramentas funcionarem... a EMRC é um grande veículo e é-o ainda mais quando se liga ao mundo, porque não somos do mundo, mas estamos aqui para o mudar! A educação é para isso e o Amor é o caminho! Afinal, que Escola queremos para os nossos filhos?
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'CORREIO DO VOUGA', Outubro de 2005

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Uma fé inquieta...

A “crise de Vocações” ou o caminho aberto para a Igreja de comunhão?

De quando em quando, ouvimos por aí falar de uma tal ‘crise de vocações’. O tema vem à baila principalmente nesta semana que me é muito querida – a semana de oração pelas vocações, todas elas e não só algumas - foi nesta semana que saí do seminário, há alguns anos atrás. Dei de facto um avanço significativo à minha vocação, com a gratidão enorme de ter vivido no seminário e ter sido seminarista -. Crise de Vocações? Mas qual crise...? Costuma-se dizer que Deus nunca nos dá nada sem nos dar a capacidade de no-la sustentar.


No último Verão, a Igreja de Aveiro permitiu-me ir em missão durante algum tempo. Nessa experiência tive muitas oportunidades de ver, de intervir, de espalhar um Homem que ressuscitou, e de aprender que com a simplicidade se recebe muito mais do que com a complicação. De facto foi muito mais o que trouxe dentro de mim do que o que lá deixei.
Estando em Lwena, o esforço de reconstrução depois da guerra é sempre presente e a Igreja, toma-lhe a dianteira. Assim, depois de aprender os caminhos, deslocava-me sozinho da missão, levando trabalhadores para as aldeias, isoladas até então por causa das minas. Ficávamos nessas aldeias perdidas do interior de África durante alguns dias, os necessários para soldar, pintar ou mesmo assentar pedra. Durante esse tempo, integrávamo-nos na aldeia. Uma das que nos acolheu ao trabalho de erguer uma escola chamava-se ‘Ermanalu’. Ficava distante, muito distante. A visita do padre era rara, a distância incrível e o número de aldeias muito grande para tão poucos sacerdotes. Nessa aldeia, a igreja era um telheiro que abrigava a todos por igual. Na vida dura que se levava, havia todos os dias um momento de céu debaixo do colmo protector da capela, onde Cristo se tornava presente sempre em acolhimento e fraternidade. Na aldeia havia um catequista, havia um pai Soba, haviam mulheres, crianças, homens, uns mais novos, outros mais velhos. Uns tinham mais que os outros, mas tudo era partilhado. Ninguém passava fome e não havia órfãos. Havia sempre alguém que tomava conta de alguém. Guardavam-se em Amor uns aos outros.
Todos os dias, se encontravam no tal abrigo, com uma cruz de dois ramos quaisquer e ali faziam festa. Faziam oração, liam a bíblia em chokwé, os pequenitos tinham catequese, a areia servia de quadro para escrever! Partilhavam ali os problemas humanos e eclesiais, comprometiam-se em comunhão. Dali de dentro levavam a força para o mundo, para actuar e transformar aquele espaço de mundo à sua volta. Vivam fundados em Cristo, partilhando a pobreza, lutando contra ela, pensando a justiça em comunhão, em Amor. Tudo em admiração profunda d’Aquele que viveu lá longe, no tempo dos seus antepassados, mas que continua vivo, porque venceu aquele temor da morte que havia antes!
Quando vinha o padre, ele era especial, porque era um deles, era igual, integrado, sem ilusões. Partilhava da vida comum quando estava. Se havia uma galinha, era para todos, se só havia mandioca, era para todos. O padre era um deles, em comunhão e alegria, em simplicidade. Fazia os sacramentos, a missa, a reconciliação, a festa que no meio daquele nada, aos olhos europeus, era na realidade, muito! Muito grande e muito próxima daquilo que Jesus partilhou connosco.
Acabando a reflexão, pergunto eu… Com uma Igreja assim, onde está a crise de vocações?... Com uma Igreja assim, com uma Igreja como a que o Vaticano II abriu portas, remato parafraseando um padre da nossa diocese, que muito estimo, na resposta dada por ele a alguém que o provocava acerca da tal “crise das vocações”.
Dizia-nos ele: “Ó meu amigo, com uma Igreja para onde caminha a nossa, ainda vamos ter é padres a mais!”
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CORREIO DO VOUGA, Abril de 2005
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